sexta-feira, 18 de julho de 2014

"Estou Tonto" - Poema de Álvaro de Campos


Júlio Pomar, Fernando Pessoa, c. 1983, painel de azulejos,
estação de Metropolitano Alto dos Moínhos, Lisboa


(O metro de Lisboa também é conhecido pela sua decoração; o azulejo é o principal elemento decorativo das estações, fazendo de cada estação uma obra diferente. A estação do Alto dos Moinhos, por exemplo, tem azulejos alusivos a Fernando Pessoa do artista português Júlio Pomar).



Estou Tonto 


Estou tonto, 
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar, 
Ou de ambas as coisas. 
O que sei é que estou tonto 
E não sei bem se me devo levantar da cadeira 
Ou como me levantar dela. 
Fiquemos nisto: estou tonto. 

Afinal 
Que vida fiz eu da vida? 
Nada. 
Tudo interstícios, 
Tudo aproximações, 
Tudo função do irregular e do absurdo, 
Tudo nada. 
É por isso que estou tonto ... 

Agora 
Todas as manhãs me levanto 
Tonto ... 

Sim, verdadeiramente tonto... 
Sem saber em mim e meu nome, 
Sem saber onde estou, 
Sem saber o que fui, 
Sem saber nada. 

Mas se isto é assim, é assim. 
Deixo-me estar na cadeira, 
Estou tonto. 
Bem, estou tonto. 
Fico sentado 
E tonto, 
Sim, tonto, 
Tonto... 
Tonto. 



Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa



O azulejo em Portugal

Painel historiado do cerco ao Castelo de Torres Novas, painel de azulejos de Gil Pais, Torres Novas.


Os portugueses não inventaram o azulejo mas usaram-no de forma original, para revestir paredes, pavimentos, bancos, lagos e fontes. Fizeram-no tão bem que estes pequenos quadrados de barro, a que o fogo dá vida, atingiram o estatuto de obras-primas. 
O Azulejo é uma das expressões mais fortes da Cultura em Portugal e uma das contribuições mais originais do génio dos portugueses para a Cultura Universal.
O Azulejo ultrapassou largamente a mera função utilitária ou o seu destino de Arte Ornamental e atingiu o estatuto transcendente de Arte, enquanto intervenção poética na criação das arquiteturas e das cidades.



Estação de Metro do Alto dos Moinhos


 As estações de metro de Lisboa são a mais importante Galeria de Arte Pública da cidade. Na decoração da maioria das estações há um elemento em destaque: o azulejo. Elemento expressivo por natureza, demonstra ser a técnica ideal para artistas portugueses e estrangeiros se expressarem.
Algumas estações contêm em si verdadeiras surpresas, por vezes organizadas de modo a promover circuitos de fruição. Por exemplo, o Museu da Música está instalado na estação de metro Alto dos Moinhos.
Os lisboetas e utilizadores do metro na sua azáfama pouco tempo têm para admirar estas galerias e para mais, os televisores publicitários espalhados nas plataformas tendem a roubar a sua atenção!


Letreiro na estação Alto dos Moinhos do metro de Lisboa, linha azul; azulejos de Júlio Pomar.



Azulejos na Estação de Metro do Alto dos Moinhos


A estação de metro do  Alto dos Moinhos, (Linha Azul), aberta ao público em 1988, tem projecto do arq. Ezequiel Nicolau e intervenção plástica do pintor Júlio Pomar. Utilizando o graffiti como expressão artística, Júlio Pomar homenageou quatro figuras das letras portuguesas, Camões, Bocage, Pessoa e Almada.
O trabalho de um ano de desenho resultou na animação plástica das paredes desta estação e numa exposição organizada pelo Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1984, intitulada "1 Ano de desenho, 4 poetas no Metropolitano de Lisboa". João Castel-Branco Pereira, na sua obra "Arte-Metropolitano de Lisboa", descreve a tónica que o pintor quis imprimir a cada poeta e a iconografia que utilizou:

Camões "guerreiro e galante, memorista de uma história pátria poeticamente ficcionada, em duelos medievais, exotismos do Oriente e amores fogosos em ilhas míticas"
Bocage "irreverente e sarcástico narrador de histórias burlescas, que contudo não deixa transparecer uma consciência tenebrística da vida"
Fernando Pessoa "personagem do drama moderno da impossibilidade do indivíduo ser um só, desmultiplicando-se em diferentes heterónimos, sentados em simultâneo à mesma mesa do café urbano"
Almada Negreiros "cosmopolita, fazendo explodir a sua integridade na diversidade dos talentos, Arlequim dos seus desenhos, elegante citadino, apaixonado do ver, observador sempre atento".
http://www.cm-lisboa.pt/


Júlio PomarCamões, c. 1983, painel de azulejos, 
estação de Metropolitano Alto dos Moinhos, Lisboa

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