terça-feira, 27 de junho de 2017

"Autobiografia" - Poema de António Gedeão


Sophie Gengembre Anderson (1823-1903), A portrait of a fairy, 1869



Autobiografia


Enquanto comia 
num gesto tranquilo, 
comia e ouvia 
falar-se daquilo.

Domia e ouvia 
solicitamente, 
como se presente 
presente estaria.

E enquanto comia, 
comia e ouvia, 
a frágil menina 
que no fundo habita, 
que chora e que grita 
saía de mim.

Saía de mim 
correndo e chorando 
num gesto revolto, 
cabelinho solto, 
roupa esvoaçando.

Ia como louca, 
chorava e corria, 
enquanto eu metia 
comida na boca.

Fugia-lhe a estrada 
debaixo dos pés, 
a estrada pisada 
que o luzeiro doira, 
serpentina loira 
que vai ter ao mar.

Corria a menina 
de braços erguidos, 
seus brancos vestidos 
pareciam luar.

Por dentro ia a noite, 
por for a ia o dia. 
A vida estuava, 
a maré subia.

Caiu a menina 
na praia amarela, 
logo um modelo de algas 
se apoderaram dela.

Se apoderou dela 
carinhosamente, 
que as algas são gestos 
mas não são de gente.

Caiu e ficou-se 
deitada de bruços, 
desfeita em soluços 
sem forma nem lei.

Ò minha águazinha 
faz com que eu não sinta, 
faz com que eu não minta, 
faz com que ue não odeie!

Àguazinha querida, 
compromisso antigo, 
dissolve-me a vida, 
leva-me contigo. 

Leva-me contigo 
no berço das algas; 
que o sal com que salgas 
seja o meu vestido.

Ficou-se a menins 
desfeita em soluços, 
seu corpo, de bruços, 
com o mar a cobri-lo, 
enquanto eu, sentado, 
sentado comia, 
comia e ouvia, 
falar-se daquilo. 




Sem comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...