quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"Nasceste do outro lado" - Poema de José Agostinho Baptista


Charles Courtney Curran, Afternoon in the Cluny Garden, Paris, 1889



Nasceste


Nasceste do outro lado,
onde o sol nunca destruiu os negros signos
da escuridão,
onde o terror do pai,
o distraído olhar da mãe,
o silêncio dos irmãos, faz crescer em ti as
imperecíveis flores da amargura.

Foste sempre
a equívoca imagem dos espelhos: um sorriso
era uma lágrima.
À tua volta estava escrito:
o amor é uma espada de fogo, às vezes mata.

Navegaste turvos oceanos cujas vagas alterosas,
nunca antes vistas,
batiam no teu assombro.
Atravessaste os ares, muito perto do céu,
mas nunca viste as altas mansões de Deus.
Eras apenas o anjo,
aquela que nunca pôde deixar as estâncias do
sono.
Entregaste, sem saber, os segredos do teu corpo,
tão predisposto à imolação.
Choraste tantas vezes,
em quartos de persianas descidas, que a morte
habitava,
sem fazer ruído.

Hoje,
não dizes nada.
Levas sobre os ombros um xaile de magoada renda.
Vestes quase sempre de negro.
Vais e vens,
ao longo dos labirintos onde em cada esquina
espreita o tigre.

Não sabes o que fazer com as mãos frias,
povoadas de angustiantes anéis.
Não bordas o livro das tuas horas,
e o dedal das avós dementes caiu sempre no
chão.

A chuva caiu sempre nos teus dias,
e caminhaste pelas ruas, à deriva, cabisbaixa,
como se pedisses perdão.
Ninguém te ouviu,
pois não havia palavras debruçadas da tua
boca.
Era sempre Inverno.

E quando ele chegou,
o filho pródigo de uma ilha,
parecia que enfim poderias cantar nos jardins da
paixão, na elevação das chamas.

Mas não.
Assassinaste sempre a ternura que ele ainda
guardava no devassado cofre da sua idade.
Suicidaste-te.


'Esta voz é quase o vento'
Assírio & Alvim, 2004


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"O teu amor, bem sei" - Poema de António Franco Alexandre


Luděk Marold (Czech, 1865-1898), A kiss under the parasol



O teu amor, bem sei


o teu amor, bem sei, é uma palavra musical, 
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância, 
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos; 
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais, 
surpreende o vigor, a plenitude 
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço, 
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos, 
e o circuito das chamas recomeça. 

é um país subtil, o olho franco das mulheres, 
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento, 
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro, 
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas, 
viajar de navio de buenos aires a montevideu. 
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos 
na minuciosa tarde dos lábios, 
ágil pobreza. 

permanentemente floresce o horizonte em colinas, 
os animais olham por dentro, cheios de vazio, 
como um ladrão de pouca perícia a luz 
desfaz devagarmente os corpos. 
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida, 
para que seja 
alto e altivo o coração da coisas? até quando aguardarei, 
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse? 


in 'As Moradas 1 & 2', Lisboa: Assírio & Alvim.



David Teniers III (1638-1685), São Valentim a receber o Santo Rosário 



São Valentim


São Valentim é um santo reconhecido pela Igreja Católica e pelas Igrejas Orientais que dá nome ao "Dia dos Namorados" em muitos países, onde o celebram como "Dia de São Valentim". O nome refere-se a pelo menos três santos martirizados na Roma antiga.
O imperador Cláudio II, durante seu governo, proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objetivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio acreditava que os jovens, que não tivessem família, ou esposa, iam alistar-se com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentim e as cerimonias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega, Artérias, filha do carcereiro, a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram apaixonando-se e, milagrosamente, a jovem recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim foi decapitado em 14 de fevereiro de 270.
Entretanto, desde 1969 sua data não é mais celebrada oficialmente pela Igreja Católica em função da precariedade de comprovações históricas que levam em questão até mesmo a sua existência. (Daqui)



Cartão comemorativo do "Dia de São Valentim"
publicado em 1883 nos Estados Unidos.



Dia dos Namorados


O "Dia dos Namorados", em alguns países chamado "Dia de São Valentim" é uma data especial e comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais e namorados, em alguns lugares é o dia de demonstrar afeição entre amigos. Sendo comum a troca de cartões e presentes com simbolo de coração, tais como as tradicionais caixas de bombons. 
Em Portugal e em Angola, assim como em muitos outros países, comemora-se no dia 14 de fevereiro
No Brasil a data é comemorada no dia 12 de junho, véspera do dia de Santo António de Lisboa, conhecido pela fama de "Santo Casamenteiro". (Daqui)


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"O papagaio" - Poema de Sebastião da Gama


Arpad Szenes (1897-1985), Enfant au cerf-volant, óleo sobre tela, 1932



O papagaio 


Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra,
vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu…

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação
e ser verdade aquela ânsia
de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair,
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel…

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!...


Sebastião da Gama
Itinerário Paralelo
Lisboa, Ed. Ática, s/d.




Arpad SzenesAutoportrait à la pupille rouge, 1924-1925, pastel s/ papel, 


Pintor de origem húngara, Arpad Szenes nasceu em 1897, em Budapeste, capital da Hungria. A partir de 1918 estudou na Academia de Budapeste, onde apresentou um especial interesse pela prática do desenho e da pintura. Procurou então conhecer e estudar as correntes artísticas de vanguarda no contexto europeu, abordando um largo espetro, desde as artes plásticas à música. 
Mais tarde viajou por vários países europeus, instalando-se em Paris em 1925. Dedicou-se à pintura e ao desenho, produzindo um conjunto de trabalhos figurativos de influência surrealista, dos quais se destaca o seu "Autoportrait à la pupille rouge", realizado entre 1924 e 1925. Estas pinturas, as menos conhecidas no contexto da sua obra, apresentam signos associados a figuras muito coloridas e assumem frequentemente um carácter agressivo e irónico.

Em 1929 Arpad conheceu a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (na altura radicada em Paris onde estudava pintura na Académie de La Grande-Chaumière) com quem se casa no ano seguinte.

Após o curso o artista trabalhou com Stanley William Hayter, mestre de gravura e, sem abandonar a pintura (como o testemunha a série de telas "L'enfant au cerf-volant", realizada em meados da década de trinta), executou várias gravuras de carácter surrealista.

Desde o seu casamento, o pintor deslocou-se frequentemente a Portugal, onde participou em várias exposições coletivas. Nessa altura conhece vários artistas portugueses, como Carlos Botelho, com os quais desenvolve prolongadas relações de amizade. 

Com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o casal voltou para Lisboa e tentou, sem sucesso, obter para Arpad Szenes (que se tornara apátrida desde que os nazis lhe tinham retirado a sua anterior nacionalidade devido à sua ascendência judaica) a nacionalidade portuguesa. No ano seguinte os dois artistas refugiaram-se no Rio de Janeiro, no Brasil, onde permanecem até 1947. 

A partir dos inícios dos anos 50, Arpad realizou as suas obras mais conhecidas, em formato alongado, enveredando por um abstracionismo de raiz informalista, assente na utilização de cromatismos serenos mas luminosos, constituídos por ocres e outras cores suaves e quentes.

Em 1956 foi-lhe atribuída a nacionalidade francesa, assim como a Vieira da Silva.
Arpad Szenes e Vieira da Silva conviveram e apoiaram toda uma geração de artistas portugueses que, bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian, se instalaram em Paris a partir da década de cinquenta. Foi o caso de Manuel Cargaleiro, Costa PinheiroEduardo Luiz e dos artistas (Gonçalo DuarteJosé EscadaLourdes CastroRené Bertholo e João Vieira) que, nos finais da década constituíram o Grupo KWY, ativo em Paris até aos inícios da década seguinte. Foi nesta altura que Arpad Szenes, realizou a sua primeira exposição individual. Após da revolução de 1975 que depôs a ditadura em Portugal, tornou-se mais intensa a relação dos artistas com o país natal de Vieira da Silva. 

Autor de uma obra serena e discreta, Arpad Szenes, viu-se geralmente subjugado pelo apoio incondicional que prestou ao trabalho e à carreira da sua mulher, que obteria reconhecimento e projeção internacional a partir de 1950. O artista morreu em Paris em 1985 e, nove anos mais tarde, uma parte significativa da sua obra foi reunida pela Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, criada em Lisboa em 1994. (Daqui)


Arpad Szenes, Marie-Hélène X, 1942, óleo s/ tela, 50 x 61 cm
Col. Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva



"A pintura é uma poesia muda, a poesia uma pintura que fala."

(Plutarco)


domingo, 12 de fevereiro de 2017

"Quinze Anos" - Poema de Antero de Quental


Fritz Zuber-Buhler (Swiss, 1822–1896), Daydreaming



Quinze Anos


Eu amo a vasta sombra das montanhas,
Que estendem sobre os largos continentes
Os seus braços de rocha negra, ingentes,
Bem como braços colossais de aranhas.

Dali o nosso olhar vê tão estranhas
Coisas, por esse céu! e tão ardentes
Visões, lá nesse mar de ondas trementes!
E às estrelas, dali, vê-as tamanhas!

Amo a grandeza misteriosa e vasta...
A grande ideia, como a flor e o viço
Da árvore colossal que nos domina...

Mas tu, criança, sê tu boa... e basta:
Sabe amar e sorrir... é pouco isso?
Mas a ti só te quero pequenina!


in "Sonetos", 1861


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"Elegia por antecipação à minha morte tranquila" - Poema de Armindo Rodrigues


Winslow Homer (American, 1836-1910),  The Hudson River, 1892



Elegia por antecipação à minha morte tranquila 


Vem, morte, quando vieres. 
Onde as leis são vis, ou tontas, 
não és tu que me amedrontas. 
Troquei por penas prazeres. 
Troquei por confiança afrontas. 
Tenho sempre as contas prontas. 
Vem, morte, quando quiseres. 



(1904-1993)



Winslow Homer (American, 1836-1910), The Life Line, 1884



"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida."

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"Testamento" - Poema de Manuel Bandeira


Charles Spencelayh (British, 1865–1958), That Damned Cat



Testamento


O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!




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