domingo, 20 de agosto de 2017

"Improviso" - Poema de Francisco Carvalho


Moritz Müller (German, 1807-1865), In einer Dachauer Wirtsstube, 1855



Improviso


Nem só de chuva 
se tece a nuvem 
nem só de evento 
se inventa o vento. 

Nem só de fala 
se engendra o grito 
nem só de fome 
prospera o trigo. 

Nem só de raiva 
arde a metáfora 
nem só de enigmas 
se enfeita o nada. 

Nem só de parca 
o céu nos singra 
nem só de pão 
se morre à míngua 

Nem só de pégaso 
escapa o seio 
para essa concha 
partida ao meio. 


in 'As Verdes Léguas'



Moritz Müller (German, 1807-1865), Bauernhochzeit, 1861


"Deve respeitar-se o casamento enquanto é um purgatório, e dissolvê-lo quando se tornar num inferno."    



sábado, 19 de agosto de 2017

"Um ofício que fosse de intensidade e calma" - Poema de António Ramos Rosa


Émile Bernard (1868-1941), Buckwheat Harvesters at Pont Aven, 1888



Um ofício


Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz
E que durasse com a densidade ardente e contemporâneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria
 E que fosse fundo o fervor de ser a metamorfose da matéria
que já não se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade originária
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre à única face do mundo
Que a palavra fosse sempre a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e já sem distância e não-distância nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios


António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"



Émile Bernard (1868-1941), Pink Street in Pont-Aven, 1892 
Private collection



O Silêncio não existe


O silêncio não existe porque é o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve, para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta não os encontra ou encontra um sinal negativo. Nada diz esse murmúrio nulo, que é o eco inalterável do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua negação como se a cada momento nos dissesse: Não há. 

António Ramos Rosa, in 'Relâmpago de Nada'


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

"Povoamento" - Poema de Ruy Belo


Julio Romero de Torres, Retrato de una dama, 1925



Povoamento


No teu amor por mim há uma rua que começa 
Nem árvores nem casas existiam 
antes que tu tivesses palavras 
e todo eu fosse um coração para elas 
Invento-te e o céu azula-se sobre esta 
triste condição de ter de receber 
dos choupos onde cantam 
os impossíveis pássaros 
a nova primavera 
Tocam sinos e levantam voo 
todos os cuidados 
Ó meu amor nem minha mãe 
tinha assim um regaço 
como este dia tem 
E eu chego e sento-me ao lado 
da primavera 


Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"



Ruy Belo


Ruy Belo, doutorado em Direito Canónico pela Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma, e licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa, lecionou no ensino secundário e foi leitor de Português na Universidade de Madrid. Foi diretor literário de uma editora; chefe de redação da revista Rumo; adjunto do Diretor do Serviço de Escolha de Livros do Ministério da Educação Nacional; bolseiro de investigação da Fundação Calouste Gulbenkian; tradutor de numerosos autores franceses e colaborador em várias publicações periódicas. 
Vítima de um edema pulmonar, a sua morte precoce, em 1978, colheu de surpresa uma série de escritores que lhe dedicam, no mesmo ano, uma Homenagem a Ruy Belo.
Iniciada em 1961, mas mantendo-se, na confluência da poesia dos anos 50, equidistante quer de um dogmatismo neorrealista quer do excesso surrealista, mas incorporando aquisições dessas duas formas decomunicação estética, para António Ramos Rosa, "A poesia de Ruy Belo é uma incessante reflexão sobre o tempo e a morte e a incerta identidade do sujeito que em vão procura o lugar originário onde se encontraria o serna sua totalidade [...]. A incerteza e uma profunda frustração, muitas vezes impregnada de uma trágica ironia, dominam esta procura do lugar ontológico e da degradação existencial". (Incisões Oblíquas, Lisboa, 1987, p. 66). 
Abarcando a crítica irónica da realidade social e a denúncia das diversas problemáticas que equacionam o homem, desde a sua vivência espiritual e religiosa até ao envolvimento concreto e existencial, a poesia de Ruy Belo é uma "forma de intervenção, de compromisso, de luta por um mundo melhor [...] sem [...] o poeta pactuar com a demagogia, com o oportunismo que afinal representa não ver primordialmente na arte criação de beleza, construção de objetos tanto quanto possível belos em si mesmos" ("Nota do Autor" a País Possível, 1973). (Daqui)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"A Estrada Branca" - Poema de José Tolentino Mendonça

A Estrada Branca


Atravessei contigo a minuciosa tarde 
deste-me a tua mão, a vida parecia 
difícil de estabelecer acima do muro alto 

folhas tremiam 
ao invisível peso mais forte 

Podia morrer por uma só dessas coisas 
que trazemos sem que possam ser ditas: 
astros cruzam-se numa velocidade que apavora 
inamovíveis glaciares por fim se deslocam 
e na única forma que tem de acompanhar-te 
o meu coração bate 


in 'A Estrada Branca'


"Qualquer coisa de paz" - Poema de Fernando Echevarría


Frédéric BazilleVue de village (1868), huile sur toile (130 × 89 cm),



Qualquer coisa de paz


Qualquer coisa de paz. Talvez somente 
a maneira de a luz a concentrar 
no volume, que a deixa, inteira, assente 
na gravidade interior de estar. 

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente, 
uma ausência de si, quase lunar, 
que iluminasse o peso. E a corrente 
de estar por dentro do peso a gravitar. 

Ou planalto de vento. Milenária 
semeadura de meditação 
expondo à intempérie a sua área 

de esquecimento. Aonde a solidão, 
a pesar sobre si, quase que arruína 
a luz da fronte onde a atenção domina. 


Fernando Echevarría, in "Figuras"


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"Vida Sempre" - Poema de Casimiro de Brito


Vincent van Gogh, Velho Triste (No Portão da Eternidade), 1890



Vida Sempre


Entre a vida e a morte há apenas 
o simples fenómeno 
de uma subtil transformação. A morte 
não é morte da vida. 
A morte não é inação, inutilidade. 
A morte é apenas a face obscura, 
mínima, em gestação 
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura 
prolongada 
desde o porão do tempo. Projetando-se 
nas naves inconcebíveis do futuro. 

A morte não é morte da vida: apenas 
novas formas de vida. Nova 
utilidade. Outro papel a desempenhar 
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio 
do pó) e não se pertencer. 
Nova claridade, respiração, naufrágio 
na máquina incomparável do universo. 


Casimiro de Brito, in "Solidão Imperfeita"



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