domingo, 30 de abril de 2017

"Poema de domingo" - de António Gedeão


Carlos Botelho, Lisboa, 1936, óleo sobre contraplacado, 105 x 100 cm



Poema de domingo


Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio alegremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.

O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.
Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se
a cantar empoleirados neles.
Tudo volta ao princípio.

E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.


António Gedeão, Novos Poemas Póstumos



sexta-feira, 28 de abril de 2017

"Aleluia" - Poema de Mário Beirão


Ford Madox Brown (1821-1893), Byron's Dream, 1874 



Aleluia


Se cantas, nasce o dia;
A luz segreda à flor: Ave, Maria!

Tudo é silêncio, espanto,
Quando vaga no Azul o teu encanto...

Passas e deixas no ar
O perfume das rosas de toucar!

Creio em ti, como em Deus;
Viver à tua luz é estar nos Céus!

Verdes enleios de hera
Cingem de amor teu vulto, ó Primavera!

Nos perdidos caminhos,
Voam gorjeios, músicas dos ninhos...

A Terra em névoas de ouro
Ascende a Deus em teu olhar de choro!

Senhora da Harmonia,
Em ti a minha vida principia!

Se voas pela Altura,
Gravas no Azul a tua formosura!

Teu voo é um longo adeus:
O caminho das almas para os Céus...

Longe, saudosa, adejas,
E pairas sobre mim... bendita sejas!


in 'Antologia Poética' 


quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Pássaro Marinho" - Poema de Cruz e Souza


Filippo Palizzi (Italian painter, 1818 – 1899)



Pássaro Marinho 


Manhã de maio, rosas pelo prado,
Gorjeios, pelas matas verdurosas
E a luz cantando o idílio de um noivado
Por entre as matas e por entre as rosas. 

Uma toilette matinal que o alado
Corpo te enflora em graças vaporosas,
Mergulhas, como um pássaro rosado,
Nas cristalinas águas murmurosas. 

Dás o bom dia ao mar nesse mergulho
E das águas salgadas ao marulho
Sais, no esplendor dos límpidos espaços. 

Trazes na carne um reflorir de vinhas,
Auroras, virgens músicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços! 




terça-feira, 25 de abril de 2017

"Para Aquém de Abril" - Poema de Francisco Duarte


Pintura de  Amália Soares alusiva ao dia 25 de Abril



Para Aquém de Abril


Entardeceram
nos umbrais da aurora
as memórias do teu rosto
Abril...
Nunca mais soprou o vento
depois
de Novembro
a vida
petrificou-se na inconstância
do rio...
não mais navegam
o teu sorriso
de florestas virgens

Hoje
passeio atónito
na neblina
das montanhas
fluir no tempo
na inércia da aventura
sonhar parado
no caminho em movimento
vir à estrada
e saber oscilar no horizonte
ser a terra
o mar
o sol
e a boca
cantar poema aberto
esperança viva
olhar o homem disperso
e cantá-lo
com a herança do ventre
reinvento-me
e não passo da superfície
deste mar austero

nos flancos do dia
arde o inatingível
torno a inventar

(o desfraldar das areias
vai-se consumindo
até que o sol nasça) 


Francisco Duarte
Afluentes de Liberdade
Edições Milho Rei



"Abril de Abril" - Poema de Manuel Alegre


Ilustração alusiva ao dia 25 de Abril de 1974 da revista Gaiola Aberta de José Vilhena (col. pess.)



Abril de Abril


Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjetivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em ato
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas. 


Publicações Dom Quixote


segunda-feira, 24 de abril de 2017

"Ó Máquinas Febris" - Poema de Guilherme de Azevedo


Thomas Anshutz, The Ironworkers' Noontime, 1880, Fine Arts Museums of San Francisco.



Ó Máquinas Febris


Ó máquinas febris! eu sinto a cada passo, 
nos silvos que soltais, aquele canto imenso, 
que a nova geração nos lábios traz suspenso 
como a estância viril duma epopeia d'aço! 

Enquanto o velho mundo arfando de cansaço 
prostrado cai na luta; em fumo negro e denso 
levanta-se a espiral desse moderno incenso 
que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço! 

Vós sois as criações fulgentes, fabulosas, 
que, vibrantes, cruéis, de lavas sequiosas, 
mordeis o pedestal da velha Majestade! 

E as grandes combustões que sempre vos consomem 
começam, num cadinho, a refundir o homem 
fazendo ressurgir mais larga a Humanidade! 


Guilherme de Azevedo, in 'A Alma Nova'


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