sexta-feira, 23 de março de 2018

"Riso e pranto" - Poema de Augusto de Lima


Albert Edelfelt, Sorrow, 1894



Riso e pranto


Duas frações o grande todo humano
encerra: uma que ri, outra que chora.
Dúplice monstro, contrastando Jano,
tem numa face - a noite e noutra - a aurora.

Mas em seu seio eternamente mora,
como o pólipo no profundo oceano,
a dor que o riso mentiroso inflora,
a mesma dor que verte o pranto insano.

Basta que riso ou lágrima ressume
da contração de um músculo irritado,
temos amor, pesar, ódio ou ciúme.

Nem sempre o riso é uma expressão de agrado,
e às vezes quem mais chora se presume
feliz, por parecer mais desgraçado.


 em "Símbolos". 1892.


quarta-feira, 14 de março de 2018

"O Vento" - Poema de A. M. Pires Cabral


José Júlio Andrade dos Santos (1916 - 1963), Paisagem,  1958



O Vento


É fácil dizer que o vento
tem gatos na voz
enfurecidos. 

Que afaga e despenteia,
traz a chuva. 

Que levanta as telhas,
exercita na noite 
os nossos mais pesados 
pesadelos.

É fácil ser poeta
à custa do vento. 

Fingir que não sabemos
que o vento não é senão
o vazio que muda de lugar. 


in Arado, ed. Cotovia 


segunda-feira, 12 de março de 2018

"Poema da hora exata" - de Anilda Leão





Poema da hora exata


Há de soar para nós, uma hora exata
uma hora feita de silêncios,
onde jamais serão permitidas
as interrogações e os porquês.
Há de cair, numa hora que há de vir,
sobre as nossas almas fatigadas,
esta paz interior, esta calmaria suave,
que não encontraremos nunca dentro do mundo.
Por entre as brumas do desconhecido,
nós abriremos os olhos extáticos,
como se saíssemos de um sonho
e entrássemos na realidade,
numa vida onde todos se entendam,
onde sejamos verdadeiramente irmãos.
Dentro do silêncio da Morte,
é que encontraremos a paz desejada,
numa hora para nós imprevisível,
quando as sombras da noite
caírem sobre as nossas figuras inúteis.


em "Chão de pedras". Maceió: Caetés, 1961.



domingo, 11 de março de 2018

"Filha" - Poema de Paula Glenadel


Harold Gilman (1876–1919), Mother and Child, 1918


Filha

                          para Luísa

A menina que, em sustos,
vejo crescer depressa,
que nutro com meus nervos
e que descubro falar, e ser,

me veio de um imemorial
naufrágio
em que perecemos eu e ele:
pequena pérola do pior.

Como o traço oblíquo de luz
riscado sobre uma tela
de nuvens branco-cinza,
figura, tornado agora visível,
o sutil equilíbrio instável
entre dois planos. 


 em "A vida espiralada". 
Rio de Janeiro: Editora Caetés, 1999.



Harold Gilman, Selfportrait, c. 1910


Sejam quais forem os resultados com êxito ou não, o importante é que no final cada um possa dizer: 'fiz o que pude'.



sábado, 10 de março de 2018

"Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira" - Poema de António Ramos Rosa


George Bellows (1882 –1925), The Fisherman, 1917



Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira


Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais
Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo
O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras
É assim que lemos não as palavras já formadas 
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico


em "Deambulações Oblíquas", 2001.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

"Naquele eterno azul, onde Coema" - Poema de Machado de Assis



Naquele eterno azul, onde Coema


Naquele eterno azul, onde Coema,
Onde Lindóia, sem temor dos anos,
Erguem os olhos plácidos e ufanos,
Também os ergue a límpida Iracema.

Elas foram, nas águas do poema,
Cantadas pela voz de americanos,
Mostrar às gentes de outros oceanos
Jóias do nosso rútilo diadema.

E, quando a magna voz inda afinavas
Foges-nos, como se a chamar sentiras
A voz da glória pura que esperavas.

O cantor do Uruguai e o dos Timbiras
Esperavam por ti, tu lhe faltavas
Para o concerto das eternas liras.


Machado de Assis, em "Gazeta de Notícias, 23 dez. 1877,
 em homenagem a José de Alencar".



Panorama de Mariana - Minas Gerais, por Alberto Delfino, 1895


"O perfeito homem do mundo seria aquele que jamais hesitasse por indecisão e nunca agisse por precipitação."

Aforismos sobre a Sabedoria da Vida





AFORISMOS PARA A SABEDORIA DE VIDA
(APHORISMEN ZUR LEBENSWEISHEIT)

de
Tradução de Gabriel Valladão Silva


(Arthur Schopenhauer (1788-1860) nasceu em Gdansk (então Prússia, atual Polónia), numa família de respeitáveis comerciantes de origem holandesa. Após o suicídio do pai, começou a estudar medicina e ciências na universidade de Göttingen e, posteriormente, filosofia. Em 1811 mudou-se para Berlim a fim de escrever sua tese de doutorado e lá iniciou a redação de "O mundo como vontade e representação", terminado em 1818 e publicado no ano seguinte, que reúne o núcleo de sua metafísica. Na época a obra teve pouca repercussão, mas em 1844 foi lançada uma edição expandida. Tornou-se conhecido com a publicação de Parerga e Paralipomena (1851), que reúne diálogos, ensaios e máximas. Após sua morte, "O mundo como vontade e representaçãopassou a ser considerada uma das obras-chave da filosofia ocidental.) 

  • A busca humana pela felicidade 
“Tomo aqui o conceito de sabedoria de vida num sentido totalmente imanente, a saber, o da arte de conduzir a vida da maneira mais agradável e feliz possível [...].” 

Arthur Schopenhauer é um dos mais importantes nomes da filosofia em língua alemã, junto com Kant, Hegel, Nietzsche e Wittgenstein. Embora muitas vezes considerado um pensador “pessimista”, seus estudos sobre a filosofia oriental possibilitaram-lhe uma visão até então inédita da existência humana: a dor e o tédio são, para ele, os dois polos entre os quais oscilamos do nascimento à morte. Para se ter uma vivência feliz e agradável, portanto, é preciso constantemente equilibrar-se entre esses dois extremos. 
Em Aforismos para a sabedoria de vida (1851), Schopenhauer discorre, na linguagem límpida que o caracteriza, sobre os elementos principais da existência, demonstrando que a validade de tal visão de vida não apenas perdura até hoje como parece se fortalecer cada vez mais. 

  • A felicidade moral 
Mais de trinta anos após lançar as bases de sua filosofia em "O mundo como vontade e representação", Arthur Schopenhauer tornou-se conhecido por Parerga e Paralipomena (1851). Deste vasto tratado de mais de mil páginas contendo aquilo que o próprio autor chamou de “escritos esparsos”, Aforismos para a sabedoria de vida compõe o segundo quarto. Nestes ensaios, o pensador se dirige ao leitor com uma linguagem clara e acessível, deixando de lado terminologias filosóficas, para refletir sobre os principais fatores que influenciam a busca humana pela “boa vida” – uma existência agradável e moralmente justa. 
Composto por capítulos como “Daquilo que se é”, “Daquilo que se tem”, “Daquilo que se representa”, “Da diferença entre as idades”, o autor – um dos introdutores da filosofia oriental e budista aos pensadores europeus – discorre sobre a amizade, a simplicidade, a felicidade, a vida, a morte, a honra, sempre com um olhar sereno e estável. Em vez de defender o valor absoluto da razão, postula o indivíduo como o próprio detentor dos meios de se chegar à felicidade, afirmando-se, portanto, como um pensador eminentemente humanista. “Aquilo que alguém é e tem em si mesmo, em suma: a personalidade e o valor, é o único fator imediato para sua felicidade e seu bem-estar”. Chega mesmo a antecipar noções futuras de psicologia e, em seu estilo lapidar e cristalino, propôs ideias hoje correntes: “[...] não é sem razão que nos perguntamos, antes de qualquer outra coisa, pelo estado de saúde uns dos outros e desejamos mutuamente nosso bem-estar: pois esse é com efeito de longe o elemento mais importante para a felicidade humana. [...] a maior de todas as tolices é sacrificar a própria saúde pelo que quer que seja, pelo emprego, pela erudição, pela fama, e tanto mais por volúpia e prazeres efémeros: pelo contrário, deve-se priorizá-la em face de tudo o mais”. 
Aqui está, em toda sua exuberância, a sabedoria daquele que, admitindo a ausência de Deus e o sofrimento intrínseco à experiência humana, enxergava na reflexão, na arte e na conduta moral os grandes trunfos da humanidade, influenciando todos os pensadores posteriores. (Daqui)

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