quinta-feira, 20 de julho de 2017

"O sentido" - Poema de António Ramos Rosa


Moritz Müller, Kniende Frau mit Kindern, vom Brand beleuchtet, 1835 



O sentido


O sentido não está em parte alguma.
É como um lábio truncado
ou como a música de um planeta distante.
Raramente é um palácio ou uma planície,
o diamante de um voo ou o coração da chuva.
Por vezes é o zumbido de uma abelha, uma presença pequena
e o dia é fogo sobre a corola do mar.
Ele bebe a violência e a obscuridade
e nas suas margens está o olvido e o caos.
Os seus caprichos contêm toda a distância do silêncio
e todo o fulgor do desejo. Com desesperada música
estala por vezes sob a máscara do tempo.
Com as cinzas de água cria as lâmpadas de sombra
e de um lado é um deserto e do outro uma cascata.
Pode-se percorrê-lo algumas vezes como o espectro solar
ou senti-lo como um grito em farrapos ou uma porta condenada.
Muitas vezes os seus nomes não são nomes
ou são feridas, paredes surdas, finas lâminas,
minúsculas raízes, cães de sombra, ossos de lua.
Todavia, é sempre o amante desejado
que o poeta procura nos obscuros redemoinhos.





segunda-feira, 17 de julho de 2017

"Os Amigos" - Poema de Al Berto


Charles Frederic UlrichThe Glass Blowers, 1883




Os Amigos 


No regresso encontrei aqueles 
que haviam estendido o sedento corpo 
sobre infindáveis areias 

tinham os gestos lentos das feras amansadas 
e o mar iluminava-lhes as máscaras 
esculpidas pelo dedo errante da noite 

prendiam sóis nos cabelos entrançados 
lentamente 
moldavam o rosto lívido como um osso 
mas estavam vivos quando lhes toquei 
depois 
a solidão transformou-os de novo em dor 
e nenhum quis pernoitar na respiração 
do lume 

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar 
a flor que murcha no estremecer da luz 
levei-os comigo 
até onde o perfume insensato de um poema 
os transmudou em remota e resignada ausência. 


in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro'



Charles Frederic Ulrich, The Glass Engraver, 1883


"A alma é um cenário. Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca, inundada de alegria. Por vezes ela é como um pôr do sol... triste e nostálgico."



domingo, 16 de julho de 2017

"Forma de inocência" - Poema de António Gedeão


André Derain, Portrait of a Man with a Newspaper, 1911-1914, 
Hermitage Museum



Forma de inocência


Hei de morrer inocente
exatamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.





quinta-feira, 13 de julho de 2017

"No silêncio dos olhos" - Poema de José Saramago


Vincent van Gogh, Memória do Jardim em Etten (Senhoras de Arles), 1888



No silêncio dos olhos


Em que língua se diz, em que nação, 
em que outra humanidade se aprendeu 
a palavra que ordene a confusão 
que neste remoinho se teceu?

Que murmúrio de vento, que dourados 
cantos de ave pousada em altos ramos 
dirão, em som, as coisas que, calados, 
no silêncio dos olhos confessamos?


José Saramago, Os poemas Possíveis 



Vincent van Gogh, Ponte de Langlois em Arles, 1888



"Evitar o perigo não é, a longo prazo, mais seguro do que se expor a ele. A vida é uma aventura ousada ou não é nada."



segunda-feira, 10 de julho de 2017

"Poema" - de António Ramos Rosa


Joseph Wopfner (Áustria, 1843-1927), Erntezeit (Tempo de colheita)



Poema


As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.


in 'O Grito Claro' (1958), 
Antologia Poética



Joseph Wopfner (Áustria, 1843-1927), Bei der Tell-Kapelle am Ufer des Vierwaldstätter Sees, 1873



Vivi tanto 
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida


Em Torno do Imponderável, 2012 


quinta-feira, 6 de julho de 2017

"Madrigal a uma estrela" - Poema de Sebastião da Gama


Vincent van Gogh, Estrada com Ciprestes e Estrela, maio de 1890



Madrigal a uma estrela


De histórias de estrelas
ninguém quer saber.
Não conto, não conto...
Quem é que te quer,

história da estrela
que fica por cima
da minha janela?
Tão bela! Tão bela!

Comigo te guardo
na vida e na morte.
Serás um segredo...
Será uma estrela

que eu leve a meu lado
na vida que leve...
Escura que seja
- que vida tão clara!

Que noite tão branca
a noite que eu durma
(debaixo da terra)
debaixo da estrela!

Não conto. Não digo.
Comigo te guardo.
Assim tu, ó estrela,
me guardes contigo...




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