terça-feira, 28 de março de 2017

"Oiça vizinha: o melhor" - Poema de Augusto Gil


Paul Gustav Fischer, Portrait of a young woman in a green dress,1913



Oiça vizinha: o melhor


Oiça vizinha: o melhor
É combinarmos o modo 
De acabar com este amor 
Que me toma o tempo todo. 

Passo os meus dias a vê-la 
Bordar ao pé da sacada. 
Não me tiro da janela, 
Não leio, não faço nada... 

O seu trabalho é mais brando, 
Não lhe prende o pensamento. 
Vai conversando, bordando 
E acirrando o meu tormento... 

O meu, não: abro um artigo 
De lei, mas nunca o acabo, 
Pois dou de cara consigo 
E mando as leis ao diabo. 

Ao diabo mando as leis 
Com exceção de um artigo 
O mil e cinquenta e seis... 
Quer conhecê-lo? Eu lho digo:

"Casamento é um contrato 
Perpétuo." Este adjetivo 
Transmuda o mais lindo parto 
No assunto mais repulsivo. 

"Perpétuo!" Repare bem 
Que artigo cheio de puas 
Ainda se não fosse além 
Duma semana ou duas... 

Olhe tivesse eu mandato 
De legislar e poria: 
"Casamento é um contrato 
Duma hora – até um dia..." 

Mas não tenho. É pois melhor 
Combinarmos algum modo 
De acabar com este amor 
Que me toma o tempo todo. 


 (1873-1929)


domingo, 26 de março de 2017

"A Guerra que aflige com seus esquadrões" - Poema de Alberto Caeiro


Arpad Szenes (1897-1985), Les guerriers, 1938-1939, óleo s/ tela, 97 x 162 cm
Coleção da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva



A Guerra que aflige com seus esquadrões


A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo, 
É o tipo perfeito do erro da filosofia. 

A guerra, como tudo humano, quer alterar. 
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito 
E alterar depressa. 

Mas a guerra inflige a morte. 
E a morte é o desprezo do Universo por nós. 
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa. 
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar. 

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs. 

Tudo é orgulho e inconsciência. 
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto. 
Para o coração e o comandante dos esquadrões 
Regressa aos bocados o universo exterior. 

A química direta da Natureza 
Não deixa lugar vago para o pensamento. 

A humanidade é uma revolta de escravos. 
A humanidade é um governo usurpado pelo povo. 
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito. 

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural! 
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem, 
Paz à essência inteiramente exterior do Universo! 


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


sábado, 25 de março de 2017

"Como te amo?" - Poema de Elizabeth Barrett Browning





Como te amo?
Soneto XLIII


Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingénua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.


Tradução de Manuel Bandeira


quinta-feira, 23 de março de 2017

"Espaço curto e finito" - Poema de José Saramago


 presiding over the decline of morality



Espaço curto e finito


Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.

Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


(In Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Lisboa, 1981. 3ª edição)

quarta-feira, 22 de março de 2017

"Ama-me" - Poema de Hilda Hilst


Johann Hamza (Austrian artist, 1850-1927), Acquaintance, 1885



Ama-me


Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.


in 'Preludios-Intensos para os Desmemoriados do Amor' 



Johann Hamza (Austrian artist, 1850-1927)




"Nem a arte nem a literatura têm de nos dar lições de moral. Somos nós que temos de nos salvar, e isso só é possível com uma postura de cidadania ética, ainda que isto possa soar antigo e anacrónico!"




terça-feira, 21 de março de 2017

"Que Aborrecido!" - Poema de António Nobre


Albert Anker (1831-1910), Schoolboy, 1881



Que Aborrecido!


Meus dias de rapaz, de adolescente, 
Abrem a boca a bocejar sombrios: 
Deslizam vagarosos, como os rios, 
Sucedem-se uns aos outros, igualmente. 

Nunca desperto de manhã, contente. 
Pálido sempre com os lábios frios, 
Oro, desfiando os meus rosários pios... 
Fora melhor dormir, eternamente! 

Mas não ter eu aspirações vivazes, 
E não ter, como têm os mais rapazes, 
Olhos boiando em sol, lábio vermelho! 

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso: 
E não sei, sendo assim, enquanto moço, 
O que serei, então, depois de velho... 


António Nobre, in 'Só' 






"A escola foi para mim como um barco: me dava acesso a outros mundos. Contudo, aquele ensinamento não me totalizava. Ao contrário: mais eu aprendia, mais eu sufocava."

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