domingo, 6 de março de 2016

"Cegueira Bendita" - Poema de Florbela Espanca



Myrtille Henrion Picco (Artiste et peintre néo-surréaliste française, n. 1952), 
 'Somnolence', 1988, 24 x 32 cm, Collection privée, France


Cegueira Bendita


Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
Estendendo as asas brancas cor do sonho...

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!... 

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros até à morte!


Florbela Espanca,
in "A Mensageira das Violetas" 
 

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