segunda-feira, 10 de julho de 2017

"As palavras mais nuas" - Poema de António Ramos Rosa



Joseph Wopfner (Austrian landscape painter, 1843–1927), 'Erntezeit' (Tempo de colheita)
 

As palavras mais nuas


As palavras mais nuas 
as mais tristes. 
As palavras mais pobres 
as que vejo 
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia, 
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar 
onde não respondessem, 
onde as bocas falassem num murmúrio 
quase feliz, 
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem 
para uma alegria nova, 
que o pequenino corpo 
de miséria 
respirasse o ar livre, 
a multidão dos pássaros escondidos, 
a densidade das folhas, o silêncio 
e um céu azul e fresco.


António Ramos Rosa, in 'O Grito Claro', 1958; 
in 'Viagem através duma nebulosa', 1960.
 
 

Joseph Wopfner, 'Bei der Tell-Kapelle am Ufer des Vierwaldstätter Sees', 1873


Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida. 
in 'Torno do Imponderável', 2012

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