terça-feira, 25 de março de 2014

"Quando não te vejo perco o siso" - Soneto de Luís de Camões



Italo Nunes Vais
(Italian painter, 1860–1932), 'Dance of the Butterflies'

 

Quando não te vejo perco o siso 


Formosura do Céu a nós descida, 
Que nenhum coração deixas isento, 
Satisfazendo a todo pensamento, 
Sem que sejas de algum bem entendida; 

Qual língua pode haver tão atrevida, 
Que tenha de louvar-te atrevimento, 
Pois a parte melhor do entendimento, 
No menos que em ti há se vê perdida? 

Se em teu valor contemplo a menor parte, 
Vendo que abre na terra um paraíso, 
Logo o engenho me falta, o espírito míngua. 

Mas o que mais me impede inda louvar-te, 
É que quando te vejo perco a língua, 
E quando não te vejo perco o siso. 


Luís de Camões, in "Sonetos" 


Italo Nunes Vais, Tête-à-tête'


"Quem siso quer ter não tenha amores."

Luís de Camões


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