sábado, 22 de dezembro de 2012

"Natal à beira rio" - Poema de David Mourão-Ferreira



Philipp Otto Runge (German artist, draftsman, painter, and color theorist,
1777
1810), 'Descanso na Fuga para o Egito', c. 18051806.
 
 
Natal à beira rio 


É o braço do abeto a bater na vidraça? 
E o ponteiro pequeno a caminho da meta! 
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, 
A trazer-me da água a infância ressurreta. 

Da casa onde nasci via-se perto o rio. 
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado! 
E o Menino nascia a bordo de um navio 
Que ficava, no cais, à noite iluminado… 

Ó noite de Natal, que travo a maresia! 
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra. 
E quanto mais na terra a terra me envolvia 
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra. 

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me 
À beira desse cais onde Jesus nascia… 
Serei dos que afinal, errando em terra firme, 
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia? 
 (Lisboa, 1927–1996) 



Giorgione (Italian painter, 1470s–1510), 'Adoration of the Magi', c. 1505.
 

"Não se pode manter a paz pela força, mas sim pela concórdia."

(Albert Einstein)

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