sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

"Desculpa-me a ternura" - Poema de Ana Luísa Amaral

 
Georg Friedrich Kersting (German painter, 1785–1847),
 Embroidery woman, 1817, National Museum in Warsaw.


Desculpa-me a ternura


Enternece-me pensar que estás aí
não força de trabalho desigual
nem vida à pressa
mas minha amiga.

Talvez as palavras que te digo
me transpareçam classe,
talvez nem te devesse dizer nada.
Porque és a mão que ampara o meu silêncio,
a minha filha, o meu cansaço
— à custa do teu cansaço, da tua filha,
do teu silêncio.

Não há homens-a-dias neste mundo,
mas tantas como tu,
a segurar nas mãos e no sorriso
algumas como eu.

Entraste há pouco a perguntar
se eu tinha febre
— a louça por lavar nas tuas mãos,
aspirando o cansaço dos meus ombros,
nos teus ombros o cansaço de mim
e o cansaço de ti.

Desculpa os meus silêncios,
o falar-me contigo como mais ninguém,
desculpa o tom sem pressa
— e o meu dinheiro que não chega a nada,
comprando o teu trabalho
(o teu sorriso)


Ana Luísa Amaral
,
in "Às Vezes o Paraíso" (2ª edição), 
Quetzal Editores, Lisboa, 1998: 72, 73 
 


Georg Friedrich Kersting, In Front of the Mirror, 1827, Kunsthalle Kiel


"Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar."

"I want to be all that I am capable of becoming."

Katherine Mansfield, in "Stories", Vintage Books, 1956. 
 

Sem comentários: