sexta-feira, 7 de julho de 2023

"Minuete invisível" - Poema de Fernando Pessoa


 
Artur Loureiro (Pintor português, 18531932), Jardins do Palácio de Cristal, 1927
 

Minuete invisível


Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar...

Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...

Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...

Passam e agitam a brisa...
Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...

Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...

E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...

Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar... 

s. d. 

Fernando Pessoa, «Ficções do Interlúdio». Poesias.
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 72.
[1ª publ. in Portugal Futurista, nº 1. Lisboa: 1917.]
 

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