quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"Ano Novo" - Poema de Ferreira Gullar

 


Charles Conder (English-born painter, lithographer and designer, 1868-1909),
Watching the Fireworks at 
Saint-Cloud, France, c. 1893,
Sheffield Galleries and Museums Trust.



Ano Novo


Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).


Ferreira Gullar, in "Toda poesia",
Companhia das Letras, 2021.
 
 

Charles Conder, Night in the Garden in Spain, c. 1900,
 Art Gallery of Western Australia.


"Quem acende uma luz é o primeiro a beneficiar-se da claridade."
 
 
 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

"O excesso mais perfeito" - Poema de Ana Luísa Amaral



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
Helena Fourment in Wedding Dress, c. 1630, Alte Pinakothek.

[Helena Fourment (1614–1673) was the second wife of Baroque painter Peter Paul Rubens. She sat for a few portraits by Rubens, and also modeled for figures in Rubens' religious and mythological paintings.]
 


O excesso mais perfeito


Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.

Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito, e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo. E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)
preciosas.

Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.

Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguração
do seu olhar. Dourado.

Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus
anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.

Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada —


Ana Luísa Amaral,

in "Às Vezes o Paraíso", 1998.
 
 

sábado, 27 de dezembro de 2025

"Jardim do Mar" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
George Henry Boughton (Anglo-American landscape and genre painter,
illustrator and writer, 1833–1905), Sea breeze, Unknown date.
 

Jardim do Mar


Vi um jardim que se desenrolava
Ao longo de uma encosta suspenso
Milagrosamente sobre o mar
Que do largo contra ele cavalgava
Desconhecido e imenso.

Jardim de flores selvagens e duras
E catos torcidos em mil dobras,
Caminhos de areia branca e estreitos
Entre as rochas escuras
E aqui além, os pinheiros
Magros e direitos.

Jardim do mar, do sol e do vento,
Áspero e salgado,
Pelos duros elementos devastado
Como por um obscuro tormento:
E que não podendo como as ondas
Florescer em espuma,
Raivoso atira para o largo, uma a uma,
As pétalas redondas
Das suas raras flores.

Jardim que a água chama e devora
Exausto pelos mil esplendores
De que o mar se reveste em cada hora.

Jardim onde o vento batalha
E que a mão do mar esculpe e talha.
Nu, áspero, devastado,
Numa contínua exaltação,
Jardim quebrado
Da imensidão.
Estreita taça
A transbordar da anunciação
Que às vezes nas coisas passa.


Sophia de Mello Breyner Andresen
in "Dia do mar", 1947.

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"Eu queria ser Pai Natal" - Poema de Luísa Ducla Soares


Antonio García Mencía
(Spanish painter and illustrator, c. 1849/53 - 1915/20),
 "Memories of Christmas", Unknown date.
 

Eu queria ser Pai Natal


Eu queria ser Pai Natal
E ter carro com renas
Para pousar nos telhados
Mesmo ao pé das antenas.

Descia com o meu saco
Ao longo da chaminé,
Carregado de brinquedos
E roupas, pé ante pé.

Em cada casa trocava
Um sonho por um presente
Que profissão mais bonita
Fazer a gente contente!


Luísa Ducla Soares
in "Poemas da Mentira e da Verdade".

Livros Horizonte
 
 

"Poemas da Mentira e da Verdade" de Luísa Ducla Soares
Ilustração: Ana Cristina Inácio
Editor: Livros Horizonte



SINOPSE

"Os Poemas da Mentira e da Verdade" são dois olhares simultâneos sobre a realidade. O da imaginação, da fantasia, do “nonsense” e o da seriedade, da objetividade, do espírito crítico. Num e noutro perpassa um humor muito característico da autora. Dedicados a crianças avessas à leitura e particularmente à poesia, este livro cativá-las-á pela irreverência, pelo jogo de palavras, pela cumplicidade com o mundo das crianças. Revela-se, na opinião de muitos professores, como um excelente recurso para os miúdos que não lêem. (Livro recomendado pelo plano nacional de leitura para o 1.º ciclo do ensino básico.)



Jenny Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854–1946),
 Self-portrait with her son, 1895, Gothenburg Museum of Art.
 
Jenny Nyström (Kalmar, 1854 - Estocolmo, 1946) foi uma pintora e ilustradora sueca de livros para crianças. 
Dedicou-se sobretudo à pintura de retrato e paisagem, sendo principalmente conhecida por ter sido a criadora da figura do pai natal sueco (jultomte), ligando a figura do pai natal tradicional ao Tomte tradicional do folclore escandinavo.
 
 
 Christmas cards by Jenny Nyström

Jenny Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854–1946),
God Jul ("Happy Christmas!"). 



Jenny Nyström, Girl posting a letter.
 

Jenny Nyström, Children dancing around the Christmas Tree, ca. 1895-1897.


 
 

Jenny NyströmSanta Claus with child. 


"Natal não é natal sem um presente."

("Christmas won’t be Christmas without any presents" )

Louisa May Alcott, in "Little Women", 1868.
 

"Natal Divino" - Poema de Miguel Torga

 


Di Cavalcanti
(Pintor modernista, desenhista, ilustrador, muralista e caricaturista
brasileiro, 1897–1976), Natal, 1969. Óleo sobre tela.

 Natal Divino


Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1970

Miguel Torga
Diário XI 
(2-8-1968 / 6-4-1973)

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

"Natal… Natais" - Poema de João Cabral do Nascimento

 


Hans Burgkmair the Elder (German painter and woodcut printmaker, 1473–1531),
 Die Geburt Christi (Nativity of Jesus), 1511.


Natal… Natais…

 
Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E em cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?


João Cabral do Nascimento
,
in "Cancioneiro", 1943.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

"Natal" - Poema de José Régio

 

 
Jules Bastien-Lepage (French painter, 1848–1884), The Annunciation to the Shepherds, 1875.
National Gallery of Victoria, Melbourne



Natal 

 
Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, — do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos — não uma vez, mas cada —
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, — e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?! 
 

José Régio, in 'Obra Completa'. 
In Diário de Notícias, edição nº 33 345, 
25 de Dezembro de 1958.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Rosas de Inverno" - Poema de Camilo Pessanha



Aldo Parmigiani (Italian painter, b. 1935), Rosas, s.d.


Rosas de Inverno


Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.


Camilo Pessanha,
in "Clepsidra e outros poemas", 1962.




Aldo Parmigiani, "La rosa bianca", 2012.



"Você pode se queixar porque a rosa tem espinhos ou se alegrar porque os espinhos têm rosas."

Tom Wilson, citado in  Altered You!: Alter Your Style ... Your Stuff ... Your Space! - Página 79,
 Karin Buckingham - Kalmbach Books, 2013 - 96 páginas.
 

domingo, 21 de dezembro de 2025

"Inverno" - Poema de Jorge de Lima



Geza Heller
(Pintor, artista gráfico, desenhista, arquiteto e gravador 
húngaro-brasileiro, 1902-1992), Paisagem cultivada, 1972.

Inverno


Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojes,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo:
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno!
Covas bem fundas
pra enterrar cana;
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nela se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que isso tudo:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
corgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne-de-sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...

Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!


Jorge de Lima, in Melhores Poemas.
Global Editora, 2ª edição, 2001.

sábado, 20 de dezembro de 2025

"Não sei fazer poemas sobre gatos" - Poema de Ana Martins Marques

 


Vittorio Matteo Corcos (Italian painter, 1859–1933), The White Cat, 1891.



Não sei fazer poemas sobre gatos


Não sei fazer poemas sobre gatos
se tento logo fogem
furtivas
as palavras
soltam-se ou
saltam
não capturam do gato
nem a cauda
sobre a mesa
quieta e quente
a folha recém-impressa
página branca com manchas negras:
eis o meu poema sobre gatos


Ana Martins Marques
, in O livro das semelhanças
Companhia das Letras 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

"Despedida do Outono" - Poema de Eugénio de Andrade



Armando Anjos (Pintor português, 1931-2017), Paisagem com lavadeiras, s.d.


Despedida do Outono


Eu já ouvira o apelo do tordo
junto às águas velhas
do rio, ou na luz vidrada
das lentas oliveiras do sul.

Pensava então que não podia morrer
quem tanto amou o claro timbre
das vogais trazidas pelo mar 

- o outono, esse morria nas chamas
altas dos castanheiros,
na sonâmbula ondulação
dos rebanhos,
nos olhos das mulheres
de coração fatigado,
semelhantes a ramos partidos
- elas, que foram irmãs do orvalho.
 
 
 

Armando Anjos (Pintor português, 1931-2017), Paisagem, s.d.


Outono –
Empoleirado num ramo seco
um corvo
in "O Gosto Solitário do orvalho"  

 

Matsuo Bashō, "O Gosto Solitário do orvalho"
 e "O Caminho Estreito". Editora: Assírio e Alvim.
  Edição/reimpressão: 04-2003. 
 

SINOPSE 
 
Matsuo Bashō (Japão, 1644-1694), "o eterno vagabundo" - assim lhe chama Jorge de Sousa Braga, autor destas versões portuguesas de "O Gosto Solitário do Orvalho", um volume de haikus, e "O Caminho Estreito", um diário de viagem.
Como diz Eugénio de Andrade ("Rosto Precário"), Bashô, "com um cânone de apenas dezassete sílabas, fez uma das mais esplêndidas poesias de que há memória." 
O haiku (JSB) é "um momento único na eternidade: não se repete, nem se desvanece nunca". Bashô é um dos seus maiores executores. Vejam-se dois, de entre muitos:

Uma rã mergulha
no velho tanque...
o ruído da água

Preso na cascata
um instante:
o verão
 
 
 Matsuo Bashō
 
Poeta e viajante, Matsuo Bashô nasceu em 1644, na pequena aldeia de Ueno, e morreu a 28 de novembro de 1694. De acordo com a sua última vontade, foi sepultado nos terrenos do mosteiro de Gichu-Ji, nas margens do Lago Biwa, perto de Zeze. Sobre a sua sepultura foi plantada uma bananeira. É considerado o poeta nacional do Japão. (daqui)
 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

"Poema da voz que escuta" - Políbio Gomes dos Santos


 
Henri Lebasque (French Post-Impressionist painter, 1865–1937), Sunset on Pont-Aven
(Young Man by the Sea)
, Coucher de soleil sur Pont-Aven, 1894,
Musée Thyssen-Bornemisza (Madrid).

Poema da voz que escuta


Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro – a Vida.

Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.


Políbio Gomes dos Santos
in 'Voz que Escuta'



'Voz que Escuta' de Políbio Gomes dos Santos


"Voz Que Escuta", obra póstuma, publicada em 1944 pela coleção Novo Cancioneiro, segundo o original do texto poético premiado nos Jogos Florais Universitários de Coimbra, em 1939.
Reunindo apenas cinco composições, três das quais datadas do ano da sua morte, e atestando a possibilidade de conjugar, na poética neorrealista, desde os seus primórdios, intenção social com qualidade estética, a pequena obra realizada por Políbio Gomes dos Santos dá "a certeza de um poeta de real merecimento" (Namorado, Joaquim - prefácio a Voz Que Escuta, 1944).
 
A consciência de uma morte próxima ou mesmo de viver numa situação limiar, atestada pelo uso do pretérito perfeito na primeira composição ("Chamam-me lá em baixo,/ São as coisas que não puderam decorar-me:/ As que ficaram a mirar-me longamente/ e não acreditaram","Poema da Voz Que Escuta"), ou pelo apelo a uma companheira que venha desenhar com o poeta "o sofrimento/ dos últimos poemas consentidos", em "Vem, Dentre As Mulheres", a expressão da impotência para a ação, corroborada pelo uso do imperfeito do conjuntivo ou do modo condicional, na composição "Canção do Lago Secando" ("Ainda se eu/ [...] Pudesse ter no mapa mancha azul e portos/ E ser útil à navegação...// Finando-me abriria a justa e verdadeira causa/ À minha sede e à minha direção."), ou a composição de uma alegoria da sua vida como balão "Murchando,/ Poisando na água pantanosa/ De além", na última composição, tragicamente intitulada "Epitáfio", conferem ao sujeito poético uma visão dolorosamente lúcida sobre a realidade e sobre a sua condição.
É esta perspetiva agónica que o dota de um dom visionário, em "Radiografia", considerado por Alexandre Pinheiro Torres um dos poemas maiores do neorrealismo (cf. p. 82,) e onde, lembrando O Sentimento Dum Ocidental de Cesário Verde, o autor funde a sua decomposição física com a putrefação material e humana da cidade. (daqui)
 

Políbio Gomes dos Santos (daqui) 

Políbio Gomes dos Santos (Ansião, 7 de Agosto de 1911 — Ansião, 3 de Agosto de 1939), foi um poeta português.
Prematuramente desaparecido, com 27 anos, vítima de tuberculose, Políbio Gomes dos Santos deixou uma curta obra que é, não obstante, reconhecidamente a de um grande poeta. 

De próxima influência presencista, pelo tom intimista em que se recorta a sua poesia e está bem presente no seu único livro em vida, As Três Pessoas (1938), não deixou de emergir em Políbio uma intenção social que cedo aproximou o poeta do Neorrealismo, ao lado de Joaquim Namorado e Fernando Namora, em Coimbra, desde 1935.

Assíduo colaborador em publicações periódicas, depois de assinar algumas poesias numa folha de Ansião, sua terra natal, participou num conjunto de jornais e revistas de Coimbra (Ensaio, Coimbra, Ágora, Página de Gente Moça in AIdeia Livre, Página dos Novos in Independência d'Águeda, Cadernos da Juventude, Páginas Literárias in Gazeta de Coimbra), no âmbito de movimentos culturais juvenis dos anos trinta que foram a génese da corrente Neorrealista. 
Da individualidade fundadora, essa poesia abre-se aos outros e fala de (a) outras vozes, a (de) uma imensa humanidade que reside nesse "quadro negro – a Vida."

Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta,
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.


Em 1944, os seus parceiros de percurso acolhem na coleção "Novo Cancioneiro" um título póstumo, Voz que Escuta, cujo trabalho poético reforça a escrita laboriosa que era a de Políbio e que encontra lastro, por exemplo, na criação de Carlos de Oliveira que profundamente o admirava. (daqui)
 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

"Às vezes as coisas dentro de nós" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão



Louise Catherine Breslau (Peintre allemande naturalisée suisse, 1856 - 1927),
Portrait des amies, 1881; l'artiste, avec Sophie Schaeppi (Peintre suisse, 1852 - 1921)
et Maria Feller (Musicienne et actrice italienne de la fin du XIXe siècle), MAH, Genève.



Às vezes as coisas dentro de nós


O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "As fábulas",
Quasi Edições, 2002.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

"Amigo" - Poema de Cora Coralina



Harold Harvey (British painter, 18741941), Wayside Minstrels, 1922.
 

Amigo


Vamos conversar
Como dois velhos que se encontram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos a mesma estrada.

Eu era moça.
Sentia sem saber
seu cheiro de terra,
seu cheiro de mato,
seu cheiro de pastagens

É que havia dentro de mim,
no fundo obscuro de meu ser
vivências e atavismo ancestrais:
fazendas, latifúndios,
engenhos e currais.

Mas... ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.

Você teve medo.
O medo que todo homem sente
da mulher letrada.

Não pressentiu, não adivinhou
aquela que o esperava
mesmo antes de nascer.

Indiferente
tomaste teu caminho
por estrada diferente.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois... depois...
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.

Hoje, no tarde da vida,
apenas,
uma suave e perdida relembrança.


Cora Coralina (18891985),
in Meu Livro de Cordel, 1976.



Harold Harvey, The Mangolds, 1904.


"O homem mais feliz, seja ele um rei ou um camponês, é o que encontrou a paz em seu lar."

Johann Wolfgang von Goethe
,
Goethe's Werke - Volumes 9-11 - página 13,
J. G. Cotta, 1828 

 

domingo, 14 de dezembro de 2025

"Demasiada Loucura é o mais divino Juízo" - Poema de Emily Dickinson


 
James McNeill Whistler (American painter and printmaker, 1834–1903),
Symphony in White, No. 2: The Little White Girl
 (Joanna Heffernan), 1864.


Demasiada Loucura é o mais divino Juízo 


Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -
Para um Olhar criterioso -
Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece -
Consente - e és são -
Objeta - és perigoso de imediato -
E acorrentado -


Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de Nuno Júdice
Editora Cotovia 
 

sábado, 13 de dezembro de 2025

"Solidão" - Poema de Fernanda de Castro

 

 
José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
 Desalento, 1918, Casa-Museu Fernando de Castro.


Solidão


Solidão: 
Ouvir passos, sabendo de antemão
que ninguém vai passar,
bater à porta. 
Abrir, ansiosa, a caixa do correio,
duas vezes por dia,
sabendo muito bem
que está vazia.

Olhar o telefone horas a fio,
ano após ano,
tocar a campainha
e ouvir dizer: ”Desculpe, foi engano.” 
Ouvir ranger a porta do ascensor,
senti-lo estremecer,
arrancar com uma espécie de estertor,
e, enfim, parar,
mas sempre noutro andar. 
Pôr na mesa um talher
para alguém que vier,
sabendo muito bem
que ninguém vem.

Pôr um vestido novo,
um anel, um colar,
sabendo que ninguém vai reparar. 
Ver o cabelo embranquecer aos poucos,
a pele envelhecer, perder o viço,
e ninguém dar por isso. 

Morrer. E alguém ler num jornal:
Morreu Fulana. O funeral… 


Fernanda de Castro, in Urgente, 1989,
 Lisboa, Guimarães Editores (1.ª Edição). 
 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

"Minha culpa" - Poema de Maya Angelou



Rodolfo Amoedo (Pintor, desenhista, professor e decorador brasileiro, 1857-1941),  
Ciclo do Ouro, 1892, em exposição no Museu Paulista.


Minha culpa


Minha culpa são “as correntes da escravidão”, por muito tempo
o barulho do ferro caindo ao longo dos anos.
Este irmão vendido, esta irmã que se foi,
tornam-se uma cera amarga tapando os meus ouvidos.
Minha culpa fez música com as lágrimas.

Meu crime são “os heróis mortos e esquecidos”,
Vesey, Turner, Gabriel, mortos,
Malcolm, Marcus, Martin King, mortos.
Eles lutaram pesado e amaram bem.
Meu crime é estar viva para contar.

Meu pecado é “estar pendurada numa árvore”,
Eu não grito, isso me deixa orgulhosa.
Decidi morrer como um homem.
Faço isso para impressionar a multidão.
Meu pecado é não gritar mais alto.


Maya Angelou, in "Poesia Completa"
Editora: Astral Cultural, 2020
Tradução de Lubi Prates


* * *
My guilt
(original)

My guilt is “slavery’s chains,” too long
the clang of iron falls down the years.
This brother’s sold, this sister’s gone,
is bitter wax, lining my ears.
My guilt made music with the tears.

My crime is “heroes, dead and gone,”
dead Vesey, Turner, Gabriel*,
dead Malcolm, Marcus, Martin King.
They fought too hard, they loved too well.
My crime is I’m alive to tell.

My sin is “hanging from a tree,”
I do not scream, it makes me proud.
I take to dying like a man.
I do it to impress the crowd.
My sin lies in not screaming loud.
Nota: VeseyTurner Gabrielassim como os também citados (e mais conhecidos) Malcolm XMarcus Garvey Martin Luther King, foram lutadores pela liberdade dos negros. (daqui) 
 
 
portrait of maya angelou
Maya Angelou, photo by Deborah Feingold 
(daqui)

Maya Angelou, escritora norte-americana, cujo nome de nascimento é Marguerite Johnson, nasceu a 4 de abril em 1928, no Missouri, e morreu a 28 de maio de 2014, na Carolina do Norte.

Uma das temáticas recorrentes na sua obra gira em torno das pressões sociais exercidas sobre as mulheres afro-americanas. Após um percurso vivencial cujo itinerário se estende desde St. Louis e S. Francisco até ao Egito e ao Gana, publicou, em 1970, o romance, de cunho autobiográfico, I Know Why the Caged Bird Sings com o qual alcançou notoriedade pública.

O romance seguinte, Gather Together in My Name, descreve não só a sua demanda de identidade mas a luta pela sobrevivência como mãe solteira. Seguem-se outros romances, igualmente de teor autobiográfico, nomeadamente All God's Children Need Traveling Shoes, onde examina a relação entre a África e a cultura negra na América.

Autora de numerosos artigos literários e jornalísticos, escreveu também diversas peças para o teatro e televisão bem como alguns volumes de poesia, incluindo Just Give Me a Cool Drink of Water 'fore I Diiie, And Still I Rise e Shaker, Why Don't You Sing?. (daqui)