sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Inseto" - Poema de Alice Gomes

 
 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626
1679),
"Study of Butterfly and Insects", c. 1655. National Gallery of Art.
 
 

Inseto


A lagarta comia
comeu
comerá
a polpa doce de uma bela pera.

Já farta de comer, de digerir
Procurou uma fresta para dormir. 

E dorme
dormirá
dormiria
Tanto de noite como em pleno dia.

Durante o sono mudou forma e cor
Já não parece bicho mas flor.


Alice Gomes, em "Bichinho Poeta"


 
Jan van Kessel, the Elder, "Insects and Fruit", Rijksmuseum.


"A marca de sua ignorância é a profundidade da sua crença na injustiça e na tragédia. O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta."


"The mark of your ignorance is the depth of your belief in injustice and tragedy. What the caterpillar calls the end of the world, the master calls a butterfly."

Richard Bach, "Illusions: The Adventures of a Reluctant Messiah" - Página 134;
Publicado por Delacorte Press, 1977. 
 

 
 Jan van Kessel, the Elder, "Insects"Fitzwilliam Museum  



"Se todos os insetos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos toda a vida na Terra acabaria. Se todos os seres humanos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos todas as formas de vida floresceriam."

Jonas Salk

(Médico, virologista e epidemiologista norte-americano (1914–1995), mais conhecido como o inventor da primeira vacina antipólio, que, em sua homenagem, ficou conhecida como Vacina Salk.)




Jan van Kessel, the Elder, "Insects" (A Sprig of redcurrants with an elephant hawk moth,
a ladybird, a millipede and other insects)
, 1657.



Artefato nipônico


A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.


Adélia Prado, "A Faca no Peito", 1988;
"Poesia Reunida", 1991, p. 381,

São Paulo: editora Siciliano



Jan van Kessel, the Elder, "Butterflies, other insects and flowers", 1659, High Museum of Art.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

"Peixe no aquário" - Poema de Maria Rosa Colaço



Lovis Corinth (German painter, sculptor, university teacher, graphic artist, drawer
and lithographer, 1858–1925), Lady at the Goldfish Basin, 1911.
Österreichische Galerie Belvedere



Peixe no aquário


Que saudades do vento!
Que saudades do mar!
Que saudades do sol,
da água a cantar.

Que tristeza a vida,
na casa fechada,
com búzios fingidos,
com areia pintada.

Que raiva ser peixe
em sala de gente:
Tudo o que é igual
deixa-me doente.

Era melhor um anzol!
Era melhor uma rede!
Os dias sem aventura
não matam fome nem sede.

Partam a caixa de vidro!
Tirem a postiça paisagem!
Deixem-me ao menos espaço
para a última viagem.


Maria Rosa Colaço (1935–2004),
in "Versos Diversos para Meninos Travessos".
 


Maria Rosa Colaço, "Versos Diversos para Meninos Travessos".
Editor: Europress, abril de 1994.

 
SINOPSE

Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 3º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada


Poemas para a infância onde a sensibilidade da autora se espraia pelos caminhos da palavra e do sonho como um ato mágico de alegria de viver.
“Mas no ano em que eu nasci o melhor que aconteceu fui eu! Fui eu! Fui eu! Fui eu!” (daqui)
 
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

"Queres ser feliz?" - Poema de Ramos Feirense



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), 
"Listening to the birds", before 1879. Watercolor painting.
 
 

 Queres ser feliz?


Planta uma flor
Reza uma oração
Esboça um sorriso
Canta uma canção
Lê um bom livro
Ajuda teu irmão
Consola um triste
Dá teu perdão
Ama a teu próximo
Segue a lição
Dos que ao BEM dizem SIM
Dos que ao MAL dizem NÃO.


Ramos Feirense
(Antônio Ramos da Silva)

(daqui)


Winslow Homer, Boys in a Pasture, 1874, Museum of Fine Arts Boston.
 

"Felicidade é estar absorvido por algo completo e maravilhoso."


Willa Cather, in "My Ántonia", 1948, Book I, Ch. Livro I, Ch. 2.
 
  

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

"Meus errinhos" - Poema de Pedro Bandeira



Jacques-Laurent Agasse
(Animal and landscape painter from Switzerland, 1767–1849),
The Hard Word (Le mot difficile), c. 1820.



Meus errinhos

 
Está bem, eu confesso que errei.
Eu errei, está bem, me dê zero!
Me dê bronca, castigo, conselho.
Mas eu tenho o direito de errar.

Só o que eu peço é que saibam
Que eu necessito errar.
Se eu não errar vez por outra
Como é que eu vou aprender
Como se faz pra acertar?

Pais, professores, adultos
Também já erraram à vontade,
Já fizeram sujeira e borrão.
Ou vai dizer que a borracha
Surgiu só nesta geração?

Vocês que errando aprenderam,
Ouçam o que eu tenho a falar:
Se até hoje cometem seus erros,
Só as crianças não podem errar?

Concordem, eu estou aprendendo.
Comparem meus erros com os seus,
Se já cometeram os seus erros,
Deixem-me agora com os meus!


Pedro Bandeira
,
"Mais respeito, eu sou criança!"
Ed. Moderna
 
 

Pedro Bandeira, "Mais respeito, eu sou criança!"
Ilustração: Odilon Moraes
Editora: Moderna 
 
 
 RESUMO

Mais respeito, eu sou criança é a reunião de poeminhas que eu gostaria de ter escrito quando tinha oito anos, por aí. Isso porque estes versos são uma espécie de desforra de tudo o que eu queria palpitar na infância e que os adultos não me deixavam falar ou não quiseram ouvir. Explico: todo mundo diz que as crianças devem respeitar os adultos. E os adultos? Não têm de respeitar as crianças? Este é um assunto sério mesmo... E, toda vez que um assunto é sério mesmo, o jeito é pensar nele através da poesia. Por meio dela, a gente consegue dizer melhor o que sente, o que sonha e o que nos incomoda. A poesia é uma maneira gostosa de tirar o retrato dos nossos sentimentos. Por isso, com essa estranha câmara fotográfica nas mãos, escrevi este livro para você, lembrando-me do tempo em que eu só ouvia: "Cala a boca, menino!", "Pare quieto, menino!", "Vá pro seu quarto, menino, que isso não é conversa pra criança!". E coisas do tipo... Ah, que desforra gostosa! (daqui)
  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

"Da minha janela" - Poema de Sebastião da Gama



Henri Matisse (French visual artist, 1869–1954), The Open Window
(Fenêtre ouverte, Collioure),
1905 (Fauvism). National Gallery of Art.
 


Da minha janela


Da minha janela
vê-se a Poesia.
Não te digo, não,
se é bonita ou feia,
se é azul ou branca,
nem que formas tem.
Queres conhecê-la?
Deixa o teu bordado,
vem para o meu lado,
que já podes vê-la
com teus próprios olhos.

Da minha janela
vê-se a Poesia...
Outro que te diga
se é bonita ou feia.


Sebastião da Gama, "Cabo da Boa Esperança"
Lisboa: Portugália Editora, 1947.
 
 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

"Sim" - Poema de António Ramos Rosa



Édouard Manet (Peintre et graveur français, précurseur de la peinture moderne, 1832–1883),
Claude Monet peignant dans son atelier à Argenteuil, 1874, Neue Pinakothek.


Sim


Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitetura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.


António Ramos Rosa,
"No calcanhar do vento", 1987.
 
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Sumário Lírico" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

 
Henri Lebasque (French Post-Impressionist painter, 1865–1937),
 "In Front of the Window, Ile d'Yeu", 1919.
 
 
 Sumário Lírico 


Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes consubstancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspetiva, ponto.


Fiama Hasse Pais Brandão
 
 
 
Henri Lebasque, "The Quay at St Pierre in Cannes" 
(
also known as "Open Window in Antibes"), Unknown date.



"Uma boa recordação talvez seja cá na Terra mais autêntica do que a felicidade."

(Alfred de Musset)


sábado, 21 de fevereiro de 2026

"Lê, são estes os nomes das coisas que deixaste" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Georg Schrimpf
(German painter and graphic artist, 1889–1938),
"Martha", 1925, Pinakothek der Moderne, Munique.



Lê, são estes os nomes das coisas


Lê, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.


Maria do Rosário Pedreira,
in "Nenhum Nome Depois", Gótica, 2004;

in "Poesia Reunida", Quetzal, 2012.
 


Georg Schrimpf, Girl with mirror, 1930. Watercolor, 29 x 25 cm,
Private collection.
 

"O rosto é o espelho da alma." 

Cícero
(106 – 43 a.C.), in "De Oratore"

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"A França!" - Poema de António Nobre

 

Fitz Henry Lane
(American painter and printmaker of a style that would later be called Luminism,
for its use of pervasive light, 1804–1865), "Lumber Schooners at Evening on Penobscot Bay", 1863,
National Gallery of Art.

 

A França!


Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz…

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela…)
Na minha Nau Catarineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!… 

Oceano Atlântico, 1890.



António Nobre (1867–1900), in "Só", 1892.




Fitz Henry Lane, "The Ships 'Winged Arrow' and 'Southern Cross' in Boston Harbor", 1853,
Cincinnati Art Museum.



"O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo."

 António Vieira, in "Sermões"

 

Fitz Henry Lane, "Salem Harbor", 1853. Oil on canvas, Museum of Fine Arts, Boston.

"No homem o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite."


António Vieira, in "Sermões"


"Citações e Pensamentos de Padre António Vieira"
de Paulo Neves da Silva e Padre António Vieira
Editor: Casa das Letras, 2010
 

SINOPSE

 "Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa."

António Vieira (1608-1697) foi um grande pensador e visionário, atual na forma como nos mostra o mundo e nos ensina, numa escrita sedutora de grandes efeitos, a reconhecermos a nossa parcialidade e cegueira na relação que mantemos com a realidade e os vícios pelos quais nos deixamos enredar e conduzir por ela.
A partir de uma vasta obra de mais duzentos sermões, setecentas e cinquenta cartas e muitos outros escritos, este livro apresenta os textos chave de Pe. António Vieira e que permitem ao leitor usufruir do melhor de uma sabedoria acessível a todos, pertinente como nunca, num caminho de maior desprendimento do acessório da vida e a concentração no seu essencial - viver.
 (daqui)

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

"A Graça" - Poema de Alexandre Herculano

 

Marcantonio Franceschini (Italian painter of the Baroque period, 1648–1729),
"The Guardian Angel", 1716.


A Graça


Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e púrpura descendo
C’oas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.

Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...


Alexandre Herculano
(1810–1877),

in "Poesias", 1850.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

"Até ao sabugo" - Poema de José Saramago


 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626–1679),
"Festoon, masks and rosettes made of shells"
(Festons, masques et rosettes de coquillages),

17th century, Fondation Custodia.



Até ao sabugo 


Dirão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.


José Saramago, Os poemas possíveis, 1966.


 

Jan van Kessel, the Elder, 'Garden and house spiders with grass snakes
and caterpillars contorted and entwined to spell the artist's name'
, 1657.


"A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver."


José Saramago, in Deste Mundo e do Outro (Crónicas), 1971.




Hubertus Quellinus (Flemish printmaker, drawing artist and painter, 1619–1687), 
and
 Johannes Meyssens (Flemish Baroque painter, engraver, and print publisher, 1612–1670)
'Portrait of Jan van Kessel in the book Het Gulden Cabinet', by Cornelis de Bie.
 

Nascido em Antuérpia, Jan van Kessel, o Velho (1626–1679) pertencia a uma dinastia de pintores famosos. O seu avô era Jan Brueghel, o Velho (1568–1625), e David Teniers, o Jovem (1610–1690), era seu tio. 
Foi aluno do pintor Simon de Vos (1603–1676) e também recebeu instruções do seu tio Jan Brueghel, o Jovem (1601–1678). 
Jan van Kessel, o Velho ingressou na Guilda de São Lucas, em Antuérpia, em 1645, e especializou-se em naturezas-mortas de flores, estudos meticulosos de insetos e séries alegóricas representando os quatro elementos, os sentidos ou as partes do mundo. Tornou-se notório pelos fins didáticos e científicos de suas obras sobre a natureza.
Apesar de van Kessel ter sido capitão da Guarda Cívica em Antuérpia e de ter tido uma carreira produtiva, tinha inúmeras dívidas quando morreu, em 1679.
Jan van Kessel, o Velho foi pai dos pintores Jan van Kessel, o Jovem (1654–1708) e Ferdinand van Kessel (1648–1696).
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

"Pesa o decreto atroz do fim certeiro" - Poema de Ricardo Reis


 
Charles Jalabert
(French painter, 1818
1901), Souvenir de Carnaval, 1861,
Oil on panel, 29 x 18,5 cm, Private collection.



Pesa o decreto atroz do fim certeiro


Pesa o decreto atroz do fim certeiro. 
Pesa a sentença igual do juiz ignoto 
Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem. 
Felizes, porque neles pensa e sente 
A vida, que não eles!

Se a ciência é vida, sábio é só o néscio. 
Quão pouca diferença a mente interna 
Do homem da dos brutos! Sus! Deixai 
Brincar os moribundos!

De rosas, inda que de falsas teçam 
Capelas veras. Breve e vão é o tempo 
Que lhes é dado, e por misericórdia 
Breve nem vão sentido. 

20-2-1928

Ricardo Reis, in "Odes"Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 111.
 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

"Numa época" - Poema de Maya Angelou

 
Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), 
Dressing for the Carnival, 1877, Metropolitan Museum of Art, New York.



Numa época


Numa época de namoro escondido
O hoje prepara a ruína o amanhã
A mão esquerda não sabe o que a direita faz
Meu coração se rasga em dois.

Numa época de suspiros furtivos
Chegadas alegres e despedidas tristes
Meias verdades e mentiras inteiras
Um trovão ecoa na minha cabeça.

Numa época em que os reinos vêm até nós
A alegria é breve como brincadeira de verão
A felicidade concluiu sua corrida
Então, a dor se aproxima para o saque.


Tradução de Lubi Prates. Astral Cultural, 2020. 
 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"Ah quantas máscaras e submáscaras" - Poema de Fernando Pessoa


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup
(Spanish painter, 1848–1910), The Masque (Mujer con Mascara), c. 1901.


Ah quantas máscaras e submáscaras
 
VIII

Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?

De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fita mascarada.
Que consciência seja que se afirme,
O aceite uso de afirmar-se a ensona.

Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas

E um mundo inteiro na esquecida causa;
E, quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.

s.d.

Fernando Pessoa,
"35 Sonnets", in "Poemas Ingleses".

(Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena
e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.)
Lisboa: Ática, 1974. - 165. Tradução de Jorge de Sena
 

 
Lino Selvatico (Italian painter, 1872–1924), Francesca wearing a mask
(Francesca con la maschera)
,  c. 1920.



How many masks wear we, and undermasks 

VIII

How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;
And, when a thought would unmask our soul's masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking. 


Fernando Pessoa, "35 Sonnets".
1ª ed., Lisbon: 1918.

35 Sonnets é uma coletânea de poemas, publicada em forma de opúsculo, em 1918, por Fernando Pessoa, em edição de autor, escrita originalmente num inglês arcaico (isabelino). Faz parte de um pequeno conjunto de livros publicados em vida por Pessoa, na língua inglesa, onde se incluem Antinous e os English Poems I-II e III.
Neste conjunto de 35 Sonetos, o poema VIII remete para a metáfora das máscaras, muito referida a respeito de Pessoa, uma vez que a origem em latim do nome Pessoa, persona, significa máscara.
 (daqui)
 


Francesco Hayez (Italian painter, 1791–1882), Vengeance is Sworn
(Consiglio alla vendetta)
, 1851, Liechtenstein Museum.



"A arte não é um espelho que mostra a realidade como ela é. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata." 


Walter Kaufmann, in "Life at the Limits (Man's Lot)", 1978.



Lorenzo Lippi
(Italian painter and poet from Florence, 1606–1665)
Allegory of Simulation, c. 1642.


"O grande filósofo é um poeta dotado de consciência intelectual."


Walter Kaufmann, in "Critique of Religion and Philosophy", 1958.
 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

"Estradas" - Poema de Manuel da Fonseca



William Hogarth
(English painter, engraver, satirist, cartoonist and writer, 1697–1764),
"Before" (First Version), 1730-31.


 
William Hogarth, "After" (First Version), 1730-31.


Estradas

 
Não era noite nem dia.
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.

E nos campos, campos, campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.

Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.

— Ó Nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?

Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.

— Vai-te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.

Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!

Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos, campos, campos
abertos de espanto e sonho…


Manuel da Fonseca (1911-1993),
in "Planície", Coimbra, 1941


 
"Planície", poemas de Manuel da Fonseca;
Desenho de capas e vinhetas de Manuel Ribeiro de Pavia.
1ª ed., Coimbra: Tip. Atlântida, col. Novo Cancioneiro, 6, 1941.
 

As cores, os sons e os movimentos da planície alentejana estão, por exemplo, magistralmente reunidos no poema “Estradas”, composição de Planície. Cinematograficamente, o movimento da objetiva em abertura, que vai de um plano de proximidade a um plano longínquo, é conseguido graficamente através da repetição sintática do substantivo, como a sugerir horizontalmente a vastidão longilínea da terra:

Não era noite nem dia
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto. 
(“Estradas”, poema de Planície)

Ainda é digno de nota o emprego dos significantes sensoriais no poema, que remetem à audição (o silêncio, os passos de Nena que sequer se ouviam na estrada, a ausência do vento, que mais uma vez implica em silêncio, e contribuem para a atmosfera de isolamento da menina que terá ali a sua primeira experiência de amor, e adiante os rumores de folhas que anunciam a chegada do amante), ao olfato (o perfume do campo de rosmaninho), ao tato (os seios que tremem sob o corpete justinho, e a seguir são amparados por escuras mãos, a boca fria de Nena que se entreabre) e à visão (as diversas cores que brilham no poema: o azul e o vermelho na primeira estrofe; o branco, o negro e o amarelo na segunda; a oposição entre a escuridão da noite – física e metafórica, pois a noite é também metáfora do amante de escuras mãos que fechava a saídas dos caminhos, impedindo a passagem de menina - e a claridade trazida pela Lua, nas estrofes finais, remetendo ao percurso de descoberta da sexualidade vivido pela jovem menina tornada mulher, já anunciado no verso final da primeira estrofe “Quase noite e quase dia”, a noite física e o dia metafórico de início da vida de Nena).

O tom da narração lembra ainda o exercício do contador de histórias, através de vários recursos, como:

1) o predomínio dos verbos no pretérito imperfeito, típico das narrativas tradicionais, como os contos de fadas, o que, associado à técnica cinematográfica da linguagem, de ampliação e redução da objetiva, dá a impressão de que a história vai se desenrolando às vistas do leitor, como em um filme;

2) as anáforas do verbo ser no pretérito imperfeito, no versos da primeira estrofe – “Eram campos, campos, campos” / “Eram cabeços redondos” / “Era a hora do poente”, ou a repetição paralelística do advérbio “Já”, complementado pelo advérbio “quando”, nos versos da segunda estrofe – “ da noite que avançava”/ “ estranhos rumores de folhas”/ “quando, saindo um atalho”, que sugerem uma ação em continuum interrompida por outra, assim como a estrada da vida da personagem de repente se modifica;

3) a atmosfera típica das cantigas de amigo medievais, que encenam o exercício do amor através dos elementos da natureza - como a moça que vai ao alto e encontra o cervo que volve a água, ou a moça que vai lavar camisas e as tem levadas pelo vento, que metaforiza o amado –; aqui a experiência de amor vem conotada nos elementos da natureza, como as estevas, os cabeços redondos, a noite, as flores, a estrela, e nos significantes sensoriais que revelam uma linguagem sensorial bastante correlata à experiência vivida no nível do conteúdo;

4) a repetição paralelística de expressões, como as referências aos seios de Nena – a cada referência modificados num crescente de aproximação erótica -, ou a repetição com variação dos versos que fazem abrir e fechar o poema, mostrando no entanto a diferença da paisagem, e, consequentemente, das vidas que nela se personificam:

Não era noite nem dia.
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas. (versos 1 a 5)
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos, campos, campos
abertos de espanto e sonho... (versos 68 a 70)