sábado, 21 de fevereiro de 2026

"Lê, são estes os nomes das coisas que deixaste" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Georg Schrimpf
(German painter and graphic artist, 1889–1938),
"Martha", 1925, Pinakothek der Moderne, Munique.



Lê, são estes os nomes das coisas


Lê, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.


Maria do Rosário Pedreira,
in "Nenhum Nome Depois", Gótica, 2004;

in "Poesia Reunida", Quetzal, 2012.
 


Georg Schrimpf, Girl with mirror, 1930. Watercolor, 29 x 25 cm,
Private collection.
 

"O rosto é o espelho da alma." 

Cícero
(106 – 43 a.C.), in "De Oratore"

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"A França!" - Poema de António Nobre

 

Fitz Henry Lane
(American painter and printmaker of a style that would later be called Luminism,
for its use of pervasive light, 1804–1865), "Lumber Schooners at Evening on Penobscot Bay", 1863,
National Gallery of Art.

 

A França!


Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz…

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela…)
Na minha Nau Catarineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!… 

Oceano Atlântico, 1890.



António Nobre (1867–1900), in "Só", 1892.




Fitz Henry Lane, "The Ships 'Winged Arrow' and 'Southern Cross' in Boston Harbor", 1853,
Cincinnati Art Museum.



"O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo."

 António Vieira, in "Sermões"

 

Fitz Henry Lane, "Salem Harbor", 1853. Oil on canvas, Museum of Fine Arts, Boston.

"No homem o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite."


António Vieira, in "Sermões"


"Citações e Pensamentos de Padre António Vieira"
de Paulo Neves da Silva e Padre António Vieira
Editor: Casa das Letras, 2010
 

SINOPSE

 "Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa."

António Vieira (1608-1697) foi um grande pensador e visionário, atual na forma como nos mostra o mundo e nos ensina, numa escrita sedutora de grandes efeitos, a reconhecermos a nossa parcialidade e cegueira na relação que mantemos com a realidade e os vícios pelos quais nos deixamos enredar e conduzir por ela.
A partir de uma vasta obra de mais duzentos sermões, setecentas e cinquenta cartas e muitos outros escritos, este livro apresenta os textos chave de Pe. António Vieira e que permitem ao leitor usufruir do melhor de uma sabedoria acessível a todos, pertinente como nunca, num caminho de maior desprendimento do acessório da vida e a concentração no seu essencial - viver.
 (daqui)

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

"A Graça" - Poema de Alexandre Herculano

 

Marcantonio Franceschini (Italian painter of the Baroque period, 1648–1729),
"The Guardian Angel", 1716.


A Graça


Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e púrpura descendo
C’oas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.

Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...


Alexandre Herculano
(1810–1877),

in "Poesias", 1850.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

"Até ao sabugo" - Poema de José Saramago


 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626–1679),
"Festoon, masks and rosettes made of shells"
(Festons, masques et rosettes de coquillages),

17th century, Fondation Custodia.



Até ao sabugo 


Dirão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.


José Saramago, Os poemas possíveis, 1966.


 

Jan van Kessel, the Elder, 'Garden and house spiders with grass snakes
and caterpillars contorted and entwined to spell the artist's name'
, 1657.


"A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver."


José Saramago, in Deste Mundo e do Outro (Crónicas), 1971.




Hubertus Quellinus (Flemish printmaker, drawing artist and painter, 1619–1687), 
and
 Johannes Meyssens (Flemish Baroque painter, engraver, and print publisher, 1612–1670)
'Portrait of Jan van Kessel in the book Het Gulden Cabinet', by Cornelis de Bie.
 

Nascido em Antuérpia, Jan van Kessel, o Velho (1626–1679) pertencia a uma dinastia de pintores famosos. O seu avô era Jan Brueghel, o Velho (1568–1625), e David Teniers, o Jovem (1610–1690), era seu tio. 
Foi aluno do pintor Simon de Vos (1603–1676) e também recebeu instruções do seu tio Jan Brueghel, o Jovem (1601–1678). 
Jan van Kessel, o Velho ingressou na Guilda de São Lucas, em Antuérpia, em 1645, e especializou-se em naturezas-mortas de flores, estudos meticulosos de insetos e séries alegóricas representando os quatro elementos, os sentidos ou as partes do mundo. Tornou-se notório pelos fins didáticos e científicos de suas obras sobre a natureza.
Apesar de van Kessel ter sido capitão da Guarda Cívica em Antuérpia e de ter tido uma carreira produtiva, tinha inúmeras dívidas quando morreu, em 1679.
Jan van Kessel, o Velho foi pai dos pintores Jan van Kessel, o Jovem (1654–1708) e Ferdinand van Kessel (1648–1696).
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

"Pesa o decreto atroz do fim certeiro" - Poema de Ricardo Reis


 
Charles Jalabert
(French painter, 1818
1901), Souvenir de Carnaval, 1861,
Oil on panel, 29 x 18,5 cm, Private collection.



Pesa o decreto atroz do fim certeiro


Pesa o decreto atroz do fim certeiro. 
Pesa a sentença igual do juiz ignoto 
Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem. 
Felizes, porque neles pensa e sente 
A vida, que não eles!

Se a ciência é vida, sábio é só o néscio. 
Quão pouca diferença a mente interna 
Do homem da dos brutos! Sus! Deixai 
Brincar os moribundos!

De rosas, inda que de falsas teçam 
Capelas veras. Breve e vão é o tempo 
Que lhes é dado, e por misericórdia 
Breve nem vão sentido. 

20-2-1928

Ricardo Reis, in "Odes"Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 111.
 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

"Numa época" - Poema de Maya Angelou

 
Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), 
Dressing for the Carnival, 1877, Metropolitan Museum of Art, New York.



Numa época


Numa época de namoro escondido
O hoje prepara a ruína o amanhã
A mão esquerda não sabe o que a direita faz
Meu coração se rasga em dois.

Numa época de suspiros furtivos
Chegadas alegres e despedidas tristes
Meias verdades e mentiras inteiras
Um trovão ecoa na minha cabeça.

Numa época em que os reinos vêm até nós
A alegria é breve como brincadeira de verão
A felicidade concluiu sua corrida
Então, a dor se aproxima para o saque.


Tradução de Lubi Prates. Astral Cultural, 2020. 
 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"Ah quantas máscaras e submáscaras" - Poema de Fernando Pessoa


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup
(Spanish painter, 1848–1910), The Masque (Mujer con Mascara), c. 1901.


Ah quantas máscaras e submáscaras
 
VIII

Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?

De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fita mascarada.
Que consciência seja que se afirme,
O aceite uso de afirmar-se a ensona.

Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas

E um mundo inteiro na esquecida causa;
E, quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.

s.d.

Fernando Pessoa,
"35 Sonnets", in "Poemas Ingleses".

(Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena
e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.)
Lisboa: Ática, 1974. - 165. Tradução de Jorge de Sena
 

 
Lino Selvatico (Italian painter, 1872–1924), Francesca wearing a mask
(Francesca con la maschera)
,  c. 1920.



How many masks wear we, and undermasks 

VIII

How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;
And, when a thought would unmask our soul's masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking. 


Fernando Pessoa, "35 Sonnets".
1ª ed., Lisbon: 1918.

35 Sonnets é uma coletânea de poemas, publicada em forma de opúsculo, em 1918, por Fernando Pessoa, em edição de autor, escrita originalmente num inglês arcaico (isabelino). Faz parte de um pequeno conjunto de livros publicados em vida por Pessoa, na língua inglesa, onde se incluem Antinous e os English Poems I-II e III.
Neste conjunto de 35 Sonetos, o poema VIII remete para a metáfora das máscaras, muito referida a respeito de Pessoa, uma vez que a origem em latim do nome Pessoa, persona, significa máscara.
 (daqui)
 


Francesco Hayez (Italian painter, 1791–1882), Vengeance is Sworn
(Consiglio alla vendetta)
, 1851, Liechtenstein Museum.



"A arte não é um espelho que mostra a realidade como ela é. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata." 


Walter Kaufmann, in "Life at the Limits (Man's Lot)", 1978.



Lorenzo Lippi
(Italian painter and poet from Florence, 1606–1665)
Allegory of Simulation, c. 1642.


"O grande filósofo é um poeta dotado de consciência intelectual."


Walter Kaufmann, in "Critique of Religion and Philosophy", 1958.
 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

"Estradas" - Poema de Manuel da Fonseca



William Hogarth
(English painter, engraver, satirist, cartoonist and writer, 1697–1764),
"Before" (First Version), 1730-31.


 
William Hogarth, "After" (First Version), 1730-31.


Estradas

 
Não era noite nem dia.
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.

E nos campos, campos, campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.

Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.

— Ó Nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?

Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.

— Vai-te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.

Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!

Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos, campos, campos
abertos de espanto e sonho…


Manuel da Fonseca (1911-1993),
in "Planície", Coimbra, 1941


 
"Planície", poemas de Manuel da Fonseca;
Desenho de capas e vinhetas de Manuel Ribeiro de Pavia.
1ª ed., Coimbra: Tip. Atlântida, col. Novo Cancioneiro, 6, 1941.
 

As cores, os sons e os movimentos da planície alentejana estão, por exemplo, magistralmente reunidos no poema “Estradas”, composição de Planície. Cinematograficamente, o movimento da objetiva em abertura, que vai de um plano de proximidade a um plano longínquo, é conseguido graficamente através da repetição sintática do substantivo, como a sugerir horizontalmente a vastidão longilínea da terra:

Não era noite nem dia
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto. 
(“Estradas”, poema de Planície)

Ainda é digno de nota o emprego dos significantes sensoriais no poema, que remetem à audição (o silêncio, os passos de Nena que sequer se ouviam na estrada, a ausência do vento, que mais uma vez implica em silêncio, e contribuem para a atmosfera de isolamento da menina que terá ali a sua primeira experiência de amor, e adiante os rumores de folhas que anunciam a chegada do amante), ao olfato (o perfume do campo de rosmaninho), ao tato (os seios que tremem sob o corpete justinho, e a seguir são amparados por escuras mãos, a boca fria de Nena que se entreabre) e à visão (as diversas cores que brilham no poema: o azul e o vermelho na primeira estrofe; o branco, o negro e o amarelo na segunda; a oposição entre a escuridão da noite – física e metafórica, pois a noite é também metáfora do amante de escuras mãos que fechava a saídas dos caminhos, impedindo a passagem de menina - e a claridade trazida pela Lua, nas estrofes finais, remetendo ao percurso de descoberta da sexualidade vivido pela jovem menina tornada mulher, já anunciado no verso final da primeira estrofe “Quase noite e quase dia”, a noite física e o dia metafórico de início da vida de Nena).

O tom da narração lembra ainda o exercício do contador de histórias, através de vários recursos, como:

1) o predomínio dos verbos no pretérito imperfeito, típico das narrativas tradicionais, como os contos de fadas, o que, associado à técnica cinematográfica da linguagem, de ampliação e redução da objetiva, dá a impressão de que a história vai se desenrolando às vistas do leitor, como em um filme;

2) as anáforas do verbo ser no pretérito imperfeito, no versos da primeira estrofe – “Eram campos, campos, campos” / “Eram cabeços redondos” / “Era a hora do poente”, ou a repetição paralelística do advérbio “Já”, complementado pelo advérbio “quando”, nos versos da segunda estrofe – “ da noite que avançava”/ “ estranhos rumores de folhas”/ “quando, saindo um atalho”, que sugerem uma ação em continuum interrompida por outra, assim como a estrada da vida da personagem de repente se modifica;

3) a atmosfera típica das cantigas de amigo medievais, que encenam o exercício do amor através dos elementos da natureza - como a moça que vai ao alto e encontra o cervo que volve a água, ou a moça que vai lavar camisas e as tem levadas pelo vento, que metaforiza o amado –; aqui a experiência de amor vem conotada nos elementos da natureza, como as estevas, os cabeços redondos, a noite, as flores, a estrela, e nos significantes sensoriais que revelam uma linguagem sensorial bastante correlata à experiência vivida no nível do conteúdo;

4) a repetição paralelística de expressões, como as referências aos seios de Nena – a cada referência modificados num crescente de aproximação erótica -, ou a repetição com variação dos versos que fazem abrir e fechar o poema, mostrando no entanto a diferença da paisagem, e, consequentemente, das vidas que nela se personificam:

Não era noite nem dia.
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas. (versos 1 a 5)
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos, campos, campos
abertos de espanto e sonho... (versos 68 a 70)  

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

"Conheci-te" - Poema de José Agostinho Baptista



Ernst Josephson (Swedish painter and poet, 1851–1906),
Smile, c. 1890, Private collection.


Conheci-te


Conheci-te
quando eras apenas o viajante sem nome
a rapariga admirável de veracruz.

Devagar
toquei a tua fronte escura — te acuerdas?
o rosto, a nuca húmida, os ombros,

descendo
descendo sempre
até ao cálido refúgio, ao centro
onde me perdi.

Revejo-te na solidão de uma pátria febril,
nestas mãos de peregrino da meia idade,
no furor do meu sangue estrangeiro,
na inteligível voz de uma alma devastada.

Amei-te quanto pude
sobre a terra dos antepassados,
sob o olhar ferido da águia azteca,
sobrevoando
o tempo alto e azul,
atenta sobretudo à loucura de jeremias,
o homem que sou.

Tudo aconteceu assim,
invariavelmente na planície sufocante e na pura
neve dos sonhos,
na penumbra das tardes do Pacífico e no Golfo
onde renunciámos à paixão e à vida.

Conheci-te
quando eras apenas o viajante sem nome
a rapariga admirável de veracruz. 


José Agostinho Baptista, in "Biografia",
Assírio & Alvim, 2000. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

"Artista" - Poema de Alice Neto de Sousa


 
Nancy Bea Miller (Contemporary artist, born in New York City),
"Priss", 2022. Watercolor on Arches paper.
 
 
Artista


Se eu fosse artista
de papel e caneta na mão,
Sem nunca me ter dado isso nos testes de vocação
Seria artista ainda turista a part-time
Na arte de equilibrar copos,
poemas,
estratagemas de como sair mais cedo do trabalho,
de como continuar a ser uma carta dentro do baralho.

Mesmo com o Ás
no hype do melhor naipe,
Ser artista ainda é apanhar um joker
num jogo de poker.

Mas se eu fosse eu
e fosse artista,
Perguntaria eu à Clarice
Estaria assim tão preocupada
com visualizações,
condecorações
O que é que o público vai gostar?
O silêncio do outro lado
A direção que vai o gado
O microfone que de repente nos
Fica tão largo.

E mesmo conquistado - questiono:
Este lugar é meu?
É que essa pessoa sou eu.

E se eu fosse eu
E fosse artista,
Seria provavelmente equilibrista
Na arte do entretenimento
A dar noventa e nove
com menos de um por cento
E para isso teria sido preciso talento.

Nunca teria falhado a um soundcheck,
A um egocheck
É preciso manter o ego em cheque.
É preciso abafar a voz
O subconsciente
Que questiona se sou boa o suficiente
Quando se entra diretamente pela porta da frente
Afinal, o poeta é aquele que mente
E pior que uma fake news,
é mesmo um poeta fake.

Mas o poeta não sente,
Anda de bicos de pés sem partir o salto
Alguém já viu um artista, fora do palco?

Na correria dos metros e engarrafamentos,
Estranho,
Não me parecia tão alto
e não tirou uma selfie
dos dias cinzentos.

Carrega um olhar solitário
Inscrito num papel secundário
Fica mais uma linha para o diário,
Um desgosto para virar canção.

E lá vai o artista
Parado na estação da desinformação.
A tentar apanhar o barco
Antes que passe,
sem ter um impasse
Uma rima desarticulada
Cuidado com o que dizes
Hoje em dia toda a gente é cancelada.

E enquanto os media debatem
O que era verdade ou mentira,
Já o artista adiantou uma semana de terapia
Porque olhem - magia - o artista sentia.

Quem sabe um dia,
Me torne a tal artista
E faça disso profissão,
Até lá, equilibro copos.
Poemas (e tudo isto),
Com uma só mão."


Alice Neto de Sousa

[Poeta, escritora e letrista nascida em Portugal (1993), com raízes em Angola.]

 
 
Nancy Bea Miller, "Amber Dreaming", 2009. Oil on canvas.


"Para realizar um grande sonho, o primeiro requisito é uma grande capacidade de sonhar;
o segundo é persistência - uma fé no sonho."

Hans Selye,
citado in The Saturday Evening Post - Volume 231 - Página 80,
 Curtis Publishing Company, 1959.
 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

"Poema do mar e da serra" - Poema de Branquinho da Fonseca


 
Henri-Edmond Cross (French painter and printmaker, 1856–1910),
"Hafenszene", by 1910. 


Poema do mar e da serra



Ó mar de que não sei nada
Nem vejo que desvendar,
És só a mais larga estrada
Para ir e voltar!

Eu sou lá dos montes
Que medem o céu,
Sou das frias serras onde primeiro o Sol nasceu
E onde os rios ainda são apenas fontes.

Sou de onde as árvores falam
A língua que eu conheço,
Onde de mim sei tudo
E do resto me esqueço.

Lá, tenho olhar de estrelas a luzir
E tenho voz de guardador de rebanhos,
Passos de quem só desce pra subir,
Mãos sem perdas nem ganhos.

Contigo falo, ó mar,
Se a Lua vem do céu passear no mundo,
Tornando-te a planície do luar
Sem ecos nem mistérios de profundo.

Mas só lá sou da terra e a terra é minha,
Só lá eu sou do céu e o céu é para mim,
Ó serra aonde há tal serenidade
Que nada tem começo
Nem fim.


Branquinho da Fonseca
,
in "Litoral", n.º 3, Ag.-Set. 1944;
in "Obras Completas: Vol. 1",
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2010.


 
Henri-Edmond Cross, Landscape, c. 1896–1899.


As Viagens 


Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou.
A posse é um declínio.
Antes um pássaro a voar que dois na mão.
Dois pássaros na mão são o que já não falta.
Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele;
ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares;
dar a volta ao mundo e continuar;
é ter um motivo de viver — é não ter chegado ainda.


Branquinho da Fonseca
 
 
 
Branquinho da Fonseca (daqui)

Branquinho da Fonseca (1905–1974) foi um poeta, tradutor (Georges Duhamel, Stendhal, entre outros), autor dramático e ficcionista, filho de Tomás da Fonseca (1877–1968).
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu a profissão de conservador de registo civil e dirigiu, desde a sua criação, o Serviço de Bibliotecas Fixas e Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian.

Com Afonso Duarte, Vitorino Nemésio, António de Sousa e João Gaspar Simões, dirigiu a revista coimbrã Tríptico (1924); com José Régio e João Gaspar Simões, fundou, em 1927, a "Folha de Arte e Crítica" Presença, e, após uma dissidência com o grupo presencista, fundou com Adolfo Rocha (Miguel Torga) a efémera revista Sinal (1930). Além destas publicações, colaborou em O Diabo, Manifesto e Litoral. É nas páginas da Presença que publica os textos dramáticos A Posição de Guerra e Os Dois (posteriormente recolhidos com Curva do Céu, A Grande Estrela, Rãs e Quatro Vidas, no volume único de Teatro, publicado, em 1939, com o pseudónimo de António Madeira), numa dramaturgia que, segundo Luiz Francisco Rebello (100 Anos de Teatro Português, Porto, 1984, p. 75), combina "elementos de progénie simbolista com certas experiências surrealistas", e que, na opinião do mesmo estudioso, prolongam, "na geração presencista, o vanguardismo de Orpheu, de que no setor dramatúrgico Almada Negreiros foi o mais lídimo representante".

Revelou-se, em 1926, com Poemas, coletânea que estabelece a continuidade com o modernismo "tanto pela aguda desconfiança a alternar com a crença desmedida nos poderes da palavra, como pelo reiterado pendor para a visão alucinatória do concreto e para a expressão aparentemente cândida do insólito." (MOURÃO-FERREIRA, David - posfácio a O Barão, Lisboa, 1969, p. 119). 

Mas é sobretudo na ficção que o escritor atinge a sua maturidade, através de uma escrita espessa, que se presta a interpretações psicológicas, sociais, simbólicas, numa hábil capacidade de misturar o real e o imaginário, o fantástico e o concreto, e de que a famosa novela O Barão - amplamente traduzida - constitui um dos exemplos mais significativos. (daqui) 

 
Tomás da Fonseca com Clotilde Madeira e os filhos Branquinho da Fonseca
e Tomás Branquinho (Coimbra, cerca de 1923).
 (daqui)

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"Presente vivo" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna



Louise Catherine Breslau (German-born Swiss painter, 1856–1927),
 "Fleur d'hiver" (Jeune femme et jeune fille devant une fenêtre), 1892.


Presente vivo


Viver
é conjugação diária
do presente.

Viver
é presentear.
Mais do que um jeito de doer
é um modo de doar.

E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.

Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.


Affonso Romano de Sant'Anna,
Poesia reunida: 1965-1999.
 
 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

"Canto místico" - Poema de Helena Kolody

 


Vittorio Matteo Corcos (Italian painter, 1859–1933), 
Conversation in the Jardin du Luxembourg, Paris, 1892.
 
 
Canto místico

 
Aqui estou, Senhor, no meio desta nave
Para cantar em teu louvor.
Minha voz é prisioneira da garganta:
Conhece a gama dos sons e não pode cantar.

Há vibrações sonoras em meus nervos.
Mas a voz ausentou-se de meu ser.

Teu mundo é uma ciclópica poesia
Que brilha no céu e brota no chão
E ruge e ri, e canta e chora.
Não encontro, porém, as palavras exatas
Dessa canção.

Se eu pudesse, ao menos,
Cantar a plenitude singela
De um momento feliz.
Dizer a inocência de uns olhos de criança,
Olhando serenos nos olhos da mãe...

A música das esferas
Sinto fremir, ouço vibrar
E não posso cantar.

Aqui estou, prisioneira de minha mudez,
Aflita em pranto, no silêncio grave
Da iluminada imensidão de tua nave.


Helena Kolody
in "Paisagem interior", 1949.
 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

"Espera" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 


Bertha Wegmann (Danish portrait painter of Swiss ancestry, 1847–1926),
"Pondering the Scriptures", 1900's.
 
 
Espera 

 
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene
  
 
 in Geografia, 1967.