quinta-feira, 5 de março de 2026

"A Visita" - Poema de Ana Luísa Amaral

 


L. A. Ring
(Danish painter, 1854–1933), The Artist's Wife by Lamplight, 1898,
68 x 87 cm, Statens Museum for Kunst, Copenhagen.


A Visita


As três desavisadas toutinegras,
as que hoje me chegaram de visita,
de capas e antenas cor de rosa,
sapatos de pelica,
trouxeram como prendas: rima ou não?,
decassílabo coxo ou refletido?,
e num passo de dança de salão
optaram por zumbido

de leve, imitação de chilrear,
afago sobre as penas ilustradas,
lustrosas e macias como livros
com trovões nas lombadas.
Falavam todas juntas (ou zumbiam),
coro anti-ominoso e sossegado,
e ajeitando-se em capas e antenas,
sentaram-se a meu lado.

Uma espreitava a cor, a outra, o branco,
a terceira passava-me a borracha,
mas era tudo feito tão discreto,
modulação tão baixa,
que os braços de morfeu na casa toda:
braços inertes tão adormecidos,
ignorantes da mesa de onde em roda
cresciam os zumbidos.

Por fim, em jeito leve de tourada,
uma lançou a capa pelo ar,
outra roubou-me lápis e isqueiro
e fugiu a dançar
pela varanda, de onde descolou,
como avião, em rasto incandescente.
Só a terceira se deixou ficar
sentada lentamente.

E ficou por aqui, e não partiu,
vigiando-me noite e sobressalto,
segurando-me as pálpebras com mão
segura de mar alto,
mantendo cheia a ânfora do espanto
onde se habita o vento e a monção,
de quando em vez, lançando-me um ditongo
ou golpe de escansão.

Foi a pior, das três a mais perigosa,
a mais desavisada sem parecer,
cujos sapatos de pelica preta
deixavam antever
umas meias às riscas de luar,
com enfeites de sol e tempestades,
e uma malha caída e alguns raios
que me lembravam hades.

Foi ela a responsável pelo estado
em que ficámos mesa, folha, eu,
num desalinho azul, verso molhado
pela jarra tombada por Morfeu
que entretanto acordara, em fúria ampla,
em ânfora de sono destruído,
e que em brado solene emudeceu
o dela, e meu, zumbido.

E se eu tremia, ela como estátua
sem pestanar sequer, sem um tremor:
se ficara ofendida, se assustada.
E, para meu terror,
levantou brevemente a capa preta,
tirou da meia às riscas: não pistola:
um baralho de cartas e navalha
sem ponta, mas de mola.

Que comecem os jogos! Começaram,
mas éramos só três. E ela então
chamou pelas irmãs, que regressaram
em passo de salão.
E as três desavisadas toutinegras
sentaram-se outra vez, e eu e morfeu,
a braços e nos braços de uma crise:
é que ou morfeu, ou eu.

Que quatro é conta certa, cinco, não,
urgindo eliminar alguém presente.
E foi então que a mais desavisada
teve ideia brilhante:
um concurso de quadras com o tema
"as três desavisadas toutinegras",
e ganharia a que de pior rima
a dar com "toutinegras".

Perdeu morfeu, que escolheu a mais óbvia,
e logo ali lhe foram oferecidos
três destinos possíveis, todos eles
de fins enaltecidos.
Ou voltar a dormir, muito enrolado
nos seus braços compridos de embalar,
ou instalar-se à musa, encarregado
de baralhar e dar.

Ou então (foi a escolha sugerida
por mim, que ele aceitou, aliviado):
fazer o meu papel, pegar no lápis,
e sentar-se a meu lado.
E enquanto as três jogavam, entretidas,
em muito incerta conta de jogar,
morfeu e eu zumbíamos por quadras
e canções de embalar.

No livro de registos desta noite,
ficou assim rimada uma visita
de três desavisadas toutinegras,
sapatos de pelica,
e um morfeu a quem elas inspiraram
a comprar capa preta,
e que eu, quase a dormir, vi transformado
em órfico poeta.


Ana Luísa Amaral
,
in "Entre Dois Rios e Outras Noites",
Campo das Letras, 2008.
 


L. A. Ring, Johanne; Seated full figure, 1884.


"Meditar, em filosofia, é encaminharmo-nos do conhecido para o desconhecido, e aqui defrontar o real."


Paul Valéry
(Filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, 1871–1945) 
 

quarta-feira, 4 de março de 2026

"Alexandra" - Poema de Joaquim Pessoa



Horatio Walker (Canadian painter, 1858–1938),
"Portrait of a Woman with a Purple Scarf", n.d.



Alexandra


Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se veem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor. 


Joaquim Pessoa, in "Guardar o Fogo"



"Guardar o Fogo" de Joaquim Pessoa
Editor: Edições Esgotadas
Edição: junho de 2013

RESUMO

«Os cento e quatro poemas que compõem "Guardar o Fogo" constituem um conjunto coeso, organizado em torno do eixo da criação literária. Se, em obras anteriores de Joaquim Pessoa, esta temática nunca deixou de estar presente, aqui, o processo da criatividade poética é o cerne, a espinha dorsal, o corpo do corpus.
Complexa na sua aparente simplicidade, jogando com a vertente ora lírica ora prosaica da linguagem, a poesia de "Guardar o Fogo", com profundas raízes na “Mãe-terra”, é impetuosa, apaixonada, intimista, luminosa, impregnada de sensualidade. Mas, em concomitância, é uma poesia de pendor existencialista, subtil e afavelmente irónica, terna e doce, com laivos de sombra, inquietação e anticonformismo, um vislumbre e anelo do “azul”, como o azur de Baudelaire ou o um pouco mais de azul de Mário de Sá-Carneiro. A obra deixa transparecer um poeta amadurecido, mais sereno, cujo crescimento no ofício continua a surpreender e a encantar.» 
 

In Prefácio, Maria da Conceição Andrade & Maria Fernanda Navarro (daqui)

 

terça-feira, 3 de março de 2026

"Cruzar a Margem" ("Crossing the Bar") - Poema de Alfred Tennyson



Joachim Patinir also called Patenier (Flemish Renaissance painter of history and landscape subjects,
c. 1480–1524), "Landscape with Charon Crossing the Styx", c. 1515–1524, Prado, Madrid.


Cruzar a Margem


Estrela do crepúsculo e da noite,
E um claro chamamento por mim!
Que da margem não me chegue pranto
Quando eu partir para o mar,

Que a maré pareça adormecida
Cheia de mais para sons e espumas
Quando quem saiu das funduras sem fim
De novo a casa regressar.

Sino do crepúsculo e da noitinha
E depois dele apenas as trevas!
Não haja qualquer tristeza da despedida
Quando eu embarcar;

Embora das nossas raias de Tempo e Lugar
Para longe possa a maré levar-me
Espero encontrar o meu Piloto cara a cara
Quando eu a margem cruzar.


Alfred Tennyson
(Tradução de Helena Barbas)



Joachim Patinir,
 "Passage du Styx", détail: 'Charon conduisant sa barque'.

 
 
Joachim Patinir,
 "Passage du Styx", détail: 'L'enfer'.

 
 
Joachim Patinir
"Passage du Styx", détail: 'Les limbes'
 

 
Joachim Patinir, "Passage du Styx",  détail: 'Le paradis'.

Crossing the Bar
(Original)


Sunset and evening star,
And one clear call for me!
And may there be no moaning of the bar,
When I put out to sea,

But such a tide as moving seems asleep,
Too full for sound and foam,
When that which drew from out the boundless deep
Turns again home.

Twilight and evening bell,
And after that the dark!
And may there be no sadness of farewell,
When I embark;

For tho' from out our bourne of Time and Place
The flood may bear me far,
I hope to see my Pilot face to face
When I have crost the bar.


Alfred Tennyson

["Crossing the Bar" is an 1889 elegiac poem by Alfred, Lord Tennyson. The narrator uses an extended metaphor to compare death with crossing the "sandbar" between the river of life, with its outgoing "flood", and the ocean that lies beyond death, the "boundless deep", to which we return.(daqui)

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

"Quando as crianças brincam" - Poema de Fernando Pessoa



Pieter Bruegel the Elder (Flemish Renaissance artist, c. 1525/1530–1569), "Children's Games", 1560.
[There are five boys playing a game of buck buck in the lower right-hand corner of the painting.]
Kunsthistorisches Museum, Vienna.


Quando as crianças brincam


Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração. 

5-9-1933 

Fernando Pessoa,
in "Poesias", Ática, 1942 (15ª ed. 1995);
in "Poesia do Eu", edição de Richard Zenith
Assírio & Alvim, 2ª ed. 2008, 510 p.



Pieter Bruegel the Elder, "The Fight Between Carnival and Lent", 1559,
Kunsthistorisches Museum, Vienna.
 

"A arte tem que nos revelar ideias, essências espirituais amorfas. A suprema questão para uma obra de arte é a profundidade da vida de onde ela brota."
 

James Joyce, in "Ulysses", Shakespeare and Company, 1922.
Tradução de Caetano Galindo
 (daqui)



James Joyce  fotografado em Zurique, Suíça, em 6 de nov. de 1918.


James Joyce


James Augustine Aloysius Joyce nasceu em 1882, em Rathmines, e morreu em 1941, em Zurique.
Escritor irlandês nascido nos subúrbios de Dublin, numa época em que o nacionalismo irlandês se aproximava da sua fase mais intensa.
Filho mais velho de John Stanislaus Joyce (1849–1931), que o influenciou decisivamente, Joyce teve uma educação católica; frequentou uma escola de Jesuítas e continuou a sua formação na universidade de Dublin (1898-1902). Afastada a perspetiva do sacerdócio, renunciou à religião católica.

Em 1902 viajou para Paris para estudar medicina, onde permaneceu durante um ano a escrever poesia e a desenvolver a sua reflexão estética. Durante essa estadia em Paris conheceu John Millington Synge (1871–1909).
Regressou à Irlanda por ocasião da morte da mãe em abril de 1903; durante algum tempo deu aulas numa escola privada irlandesa, facto que evocou no segundo capítulo de Ulysses (1922). 
Em 1904 deixou a Irlanda com Nora Barnacle (1884–1951), sua companheira até ao fim da vida. O seu encontro em 16 de junho de 1904 ficou registado no seu longo romance Ulysses, cuja ação decorre precisamente naquele dia. Apesar do longo exílio de Joyce, Dublin permaneceu o cenário privilegiado das suas obras. Deu aulas de inglês em Trieste, onde viveu com grandes dificuldades económicas até 1915. 

A coletânea de contos Dubliners, terminada (à exceção de um conto) em 1905, só foi publicada em 1914. Naquela obra Joyce combinou um estilo realista objetivo com efeitos simbólicos e miméticos para traduzir num tom coloquial os dramas da vida quotidiana de Dublin. Os contos transmitem a convicção do autor de que o conhecimento profundo das vivências humanas se revela frequentemente nos seus aspetos mais triviais. Dubliners valeu a Joyce o elogio de Ezra Pound (1885–1972). Joyce começou entretanto a escrever Stephen Hero, um extenso romance autobiográfico interrompido e posteriormente abreviado. 
Composto entre 1904 e 1914, o romance só foi publicado em 1916 com o título A Portrait of the Artist as a Young Man.

Primeira Guerra Mundial (1914–1918) levou o escritor a abandonar
 Trieste em 1915 e a fixar-se em Zurique, onde viveu com a mulher e os dois filhos. Durante esse período Joyce trabalhou no seu romance Ulysses, publicado em Paris em 2 de fevereiro de 1922. A obra desencadeou reações violentas; as 1000 cópias da primeira edição venderam-se rapidamente mas a condenação de Ulysses foi igualmente intensa. 
O romance só voltou a ter uma edição legal nos Estados Unidos em 1934 e só foi publicado novamente no Reino Unido em 1936.

A originalidade de Ulysses revela-se sobretudo ao nível das inovações linguísticas e no modo de representação da experiência humana. 
A obra relata um dia na vida de três habitantes de Dublin; as personagens correspondem a figuras centrais da Odisseia de Homero (928 a.C. – 898 a.C.) e os 18 capítulos do romance são análogos aos episódios da epopeia de Homero, embora a sequência narrativa não seja idêntica.
O protagonista do romance de Joyce é Leopold Bloom, um judeu de origem húngara, que vive em Dublin, e o dia é 16 de junho de 1904.

A elaboração formal de Ulysses visava a criação imaginativa de um indivíduo cujas experiências Joyce considerava irredutíveis aos modos convencionais de representação literária. O escritor tentou reproduzir diretamente a corrente de consciência formada pelos pensamentos das personagens, uma técnica inspirada no romancista francês Édouard Dujardin (1861–1949). O monólogo interior traduzia a complexa vivência do sujeito pela aproximação da linguagem ao pensamento e à experiência humana. A dimensão universal do protagonista é reforçada pela analogia com Ulisses, herói lendário da Odisseia de Homero.
 
O modo inovador de representar a experiência moderna na cidade moderna culminou com
 Finnegans Wake (1939), onde Joyce multiplicou as complexidades do seu romance anterior. Esta obra relata uma noite na vida de H. C. Earwicker, que dorme ao longo de todo o romance. A experiência do protagonista é transmitida ao leitor através da sua vivência onírica reproduzida ao nível da linguagem pelas associações livres da sua consciência, pela fusão de palavras e ainda pelo cruzamento do Inglês com outras línguas europeias. A musicalidade narrativa do romance tem sido atribuída pelos críticos à sensibilidade auditiva de Joyce, que compensava os seus problemas de visão causados por um glaucoma.
 
A sobreposição de níveis de sentido em 
Finnegans Wake reproduz a técnica de Lewis Carroll (1832–1898) no poema "Jabberwocky", inserido na obra Through the Looking-Glass (1871). 
Joyce escreveu uma peça, Exiles (1918) e publicou três volumes de poesia: Chamber Music (1907), Gas from a Burner (1912) e Pomes Penyeach (1927). Os seus Collected Poems foram publicados em 1936.
 
Em 1920 James Joyce mudou-se novamente para Paris, onde viveu até à invasão da França pelas tropas alemãs em 1940 (Segunda Guerra Mundial, 1939–1945). Deixou Paris e voltou a Zurique, quase cego, em 1940. No começo do ano seguinte, morre de úlcera duodenal perfurada e peritonite generalizada, durante uma operação para salvar sua vida. Está enterrado no Cemitério Fluntern, naquela cidade, junto com Nora Barnacle.
A obra de Joyce, e especialmente Ulysses, ocupa um lugar decisivo na evolução da literatura moderna. (daqui)

domingo, 1 de março de 2026

"O ovo de galinha" - Poema de João Cabral de Melo Neto



Diego Velázquez (Spanish painter, 1599 –1660), Old Woman Frying Eggs
(Vieja friendo huevos)
, c. 1618. National Gallery of Scotland, Edinburgh.


O ovo de galinha

I

Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

II

O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.

III

A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.

IV

Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspeta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.


João Cabral de Melo Neto
, in "Serial", 1959-1961;
in  "Obra completa", Nova Aguilar, 1995.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Inseto" - Poema de Alice Gomes

 
 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626
1679),
"Study of Butterfly and Insects", c. 1655. National Gallery of Art.
 
 

Inseto


A lagarta comia
comeu
comerá
a polpa doce de uma bela pera.

Já farta de comer, de digerir
Procurou uma fresta para dormir. 

E dorme
dormirá
dormiria
Tanto de noite como em pleno dia.

Durante o sono mudou forma e cor
Já não parece bicho mas flor.


Alice Gomes, em "Bichinho Poeta"


 
Jan van Kessel, the Elder, "Insects and Fruit", Rijksmuseum.


"A marca de sua ignorância é a profundidade da sua crença na injustiça e na tragédia. O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta."


"The mark of your ignorance is the depth of your belief in injustice and tragedy. What the caterpillar calls the end of the world, the master calls a butterfly."

Richard Bach, "Illusions: The Adventures of a Reluctant Messiah" - Página 134;
Publicado por Delacorte Press, 1977. 
 

 
 Jan van Kessel, the Elder, "Insects"Fitzwilliam Museum  



"Se todos os insetos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos toda a vida na Terra acabaria. Se todos os seres humanos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos todas as formas de vida floresceriam."

Jonas Salk

(Médico, virologista e epidemiologista norte-americano (1914–1995), mais conhecido como o inventor da primeira vacina antipólio, que, em sua homenagem, ficou conhecida como Vacina Salk.)




Jan van Kessel, the Elder, "Insects" (A Sprig of redcurrants with an elephant hawk moth,
a ladybird, a millipede and other insects)
, 1657.



Artefato nipônico


A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.


Adélia Prado, "A Faca no Peito", 1988;
"Poesia Reunida", 1991, p. 381,

São Paulo: editora Siciliano



Jan van Kessel, the Elder, "Butterflies, other insects and flowers", 1659, High Museum of Art.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

"Peixe no aquário" - Poema de Maria Rosa Colaço



Lovis Corinth (German painter, sculptor, university teacher, graphic artist, drawer
and lithographer, 1858–1925), Lady at the Goldfish Basin, 1911.
Österreichische Galerie Belvedere



Peixe no aquário


Que saudades do vento!
Que saudades do mar!
Que saudades do sol,
da água a cantar.

Que tristeza a vida,
na casa fechada,
com búzios fingidos,
com areia pintada.

Que raiva ser peixe
em sala de gente:
Tudo o que é igual
deixa-me doente.

Era melhor um anzol!
Era melhor uma rede!
Os dias sem aventura
não matam fome nem sede.

Partam a caixa de vidro!
Tirem a postiça paisagem!
Deixem-me ao menos espaço
para a última viagem.


Maria Rosa Colaço (1935–2004),
in "Versos Diversos para Meninos Travessos".
 


Maria Rosa Colaço, "Versos Diversos para Meninos Travessos".
Editor: Europress, abril de 1994.

 
SINOPSE

Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 3º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada


Poemas para a infância onde a sensibilidade da autora se espraia pelos caminhos da palavra e do sonho como um ato mágico de alegria de viver.
“Mas no ano em que eu nasci o melhor que aconteceu fui eu! Fui eu! Fui eu! Fui eu!” (daqui)
 
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

"Queres ser feliz?" - Poema de Ramos Feirense



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), 
"Listening to the birds", before 1879. Watercolor painting.
 
 

 Queres ser feliz?


Planta uma flor
Reza uma oração
Esboça um sorriso
Canta uma canção
Lê um bom livro
Ajuda teu irmão
Consola um triste
Dá teu perdão
Ama a teu próximo
Segue a lição
Dos que ao BEM dizem SIM
Dos que ao MAL dizem NÃO.


Ramos Feirense
(Antônio Ramos da Silva)

(daqui)


Winslow Homer, Boys in a Pasture, 1874, Museum of Fine Arts Boston.
 

"Felicidade é estar absorvido por algo completo e maravilhoso."


Willa Cather, in "My Ántonia", 1948, Book I, Ch. Livro I, Ch. 2.
 
  

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

"Meus errinhos" - Poema de Pedro Bandeira



Jacques-Laurent Agasse
(Animal and landscape painter from Switzerland, 1767–1849),
The Hard Word (Le mot difficile), c. 1820.



Meus errinhos

 
Está bem, eu confesso que errei.
Eu errei, está bem, me dê zero!
Me dê bronca, castigo, conselho.
Mas eu tenho o direito de errar.

Só o que eu peço é que saibam
Que eu necessito errar.
Se eu não errar vez por outra
Como é que eu vou aprender
Como se faz pra acertar?

Pais, professores, adultos
Também já erraram à vontade,
Já fizeram sujeira e borrão.
Ou vai dizer que a borracha
Surgiu só nesta geração?

Vocês que errando aprenderam,
Ouçam o que eu tenho a falar:
Se até hoje cometem seus erros,
Só as crianças não podem errar?

Concordem, eu estou aprendendo.
Comparem meus erros com os seus,
Se já cometeram os seus erros,
Deixem-me agora com os meus!


Pedro Bandeira
,
"Mais respeito, eu sou criança!"
Ed. Moderna
 
 

Pedro Bandeira, "Mais respeito, eu sou criança!"
Ilustração: Odilon Moraes
Editora: Moderna 
 
 
 RESUMO

Mais respeito, eu sou criança é a reunião de poeminhas que eu gostaria de ter escrito quando tinha oito anos, por aí. Isso porque estes versos são uma espécie de desforra de tudo o que eu queria palpitar na infância e que os adultos não me deixavam falar ou não quiseram ouvir. Explico: todo mundo diz que as crianças devem respeitar os adultos. E os adultos? Não têm de respeitar as crianças? Este é um assunto sério mesmo... E, toda vez que um assunto é sério mesmo, o jeito é pensar nele através da poesia. Por meio dela, a gente consegue dizer melhor o que sente, o que sonha e o que nos incomoda. A poesia é uma maneira gostosa de tirar o retrato dos nossos sentimentos. Por isso, com essa estranha câmara fotográfica nas mãos, escrevi este livro para você, lembrando-me do tempo em que eu só ouvia: "Cala a boca, menino!", "Pare quieto, menino!", "Vá pro seu quarto, menino, que isso não é conversa pra criança!". E coisas do tipo... Ah, que desforra gostosa! (daqui)
  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

"Da minha janela" - Poema de Sebastião da Gama



Henri Matisse (French visual artist, 1869–1954), The Open Window
(Fenêtre ouverte, Collioure),
1905 (Fauvism). National Gallery of Art.
 


Da minha janela


Da minha janela
vê-se a Poesia.
Não te digo, não,
se é bonita ou feia,
se é azul ou branca,
nem que formas tem.
Queres conhecê-la?
Deixa o teu bordado,
vem para o meu lado,
que já podes vê-la
com teus próprios olhos.

Da minha janela
vê-se a Poesia...
Outro que te diga
se é bonita ou feia.


Sebastião da Gama, "Cabo da Boa Esperança"
Lisboa: Portugália Editora, 1947.
 
 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

"Sim" - Poema de António Ramos Rosa



Édouard Manet (Peintre et graveur français, précurseur de la peinture moderne, 1832–1883),
Claude Monet peignant dans son atelier à Argenteuil, 1874, Neue Pinakothek.


Sim


Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitetura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.


António Ramos Rosa,
"No calcanhar do vento", 1987.
 
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Sumário Lírico" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

 
Henri Lebasque (French Post-Impressionist painter, 1865–1937),
 "In Front of the Window, Ile d'Yeu", 1919.
 
 
 Sumário Lírico 


Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes consubstancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspetiva, ponto.


Fiama Hasse Pais Brandão
 
 
 
Henri Lebasque, "The Quay at St Pierre in Cannes" 
(
also known as "Open Window in Antibes"), Unknown date.



"Uma boa recordação talvez seja cá na Terra mais autêntica do que a felicidade."

(Alfred de Musset)


sábado, 21 de fevereiro de 2026

"Lê, são estes os nomes das coisas que deixaste" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Georg Schrimpf
(German painter and graphic artist, 1889–1938),
"Martha", 1925, Pinakothek der Moderne, Munique.



Lê, são estes os nomes das coisas


Lê, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.


Maria do Rosário Pedreira,
in "Nenhum Nome Depois", Gótica, 2004;

in "Poesia Reunida", Quetzal, 2012.
 


Georg Schrimpf, Girl with mirror, 1930. Watercolor, 29 x 25 cm,
Private collection.
 

"O rosto é o espelho da alma." 

Cícero
(106 – 43 a.C.), in "De Oratore"

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"A França!" - Poema de António Nobre

 

Fitz Henry Lane
(American painter and printmaker of a style that would later be called Luminism,
for its use of pervasive light, 1804–1865), "Lumber Schooners at Evening on Penobscot Bay", 1863,
National Gallery of Art.

 

A França!


Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz…

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela…)
Na minha Nau Catarineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!… 

Oceano Atlântico, 1890.



António Nobre (1867–1900), in "Só", 1892.




Fitz Henry Lane, "The Ships 'Winged Arrow' and 'Southern Cross' in Boston Harbor", 1853,
Cincinnati Art Museum.



"O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo."

 António Vieira, in "Sermões"

 

Fitz Henry Lane, "Salem Harbor", 1853. Oil on canvas, Museum of Fine Arts, Boston.

"No homem o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite."


António Vieira, in "Sermões"


"Citações e Pensamentos de Padre António Vieira"
de Paulo Neves da Silva e Padre António Vieira
Editor: Casa das Letras, 2010
 

SINOPSE

 "Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa."

António Vieira (1608-1697) foi um grande pensador e visionário, atual na forma como nos mostra o mundo e nos ensina, numa escrita sedutora de grandes efeitos, a reconhecermos a nossa parcialidade e cegueira na relação que mantemos com a realidade e os vícios pelos quais nos deixamos enredar e conduzir por ela.
A partir de uma vasta obra de mais duzentos sermões, setecentas e cinquenta cartas e muitos outros escritos, este livro apresenta os textos chave de Pe. António Vieira e que permitem ao leitor usufruir do melhor de uma sabedoria acessível a todos, pertinente como nunca, num caminho de maior desprendimento do acessório da vida e a concentração no seu essencial - viver.
 (daqui)