quinta-feira, 26 de março de 2026

"Canção do Caminho" - Poema de Cecília Meireles


 
Albert Lynch (French painter of German and Peruvian ancestry, 1860–1950),
Portrait of a Young Woman, 1890.


Canção do Caminho


Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!

Ah! mas logo ali adiante
- tão perto! -
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.

(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)


Cecília Meireles
, in "Vaga música", 1942.


 
"Vaga Música" de Cecília Meireles.
 Editora Global

 
SINOPSE

Em Vaga música, traços que se tornariam emblemáticos da obra poética de Cecília Meireles atingem um importante ponto de amadurecimento. Aqui, a fugacidade do tempo e a precariedade da existência são tenazmente perseguidas. Cecília trilha um profundo percurso pelas inquietações humanas mais triviais, abalando em muitos momentos as nossas mais sólidas certezas. A profusão de interrogações em boa parte dos poemas insinua o caminho escolhido pela autora para tocar a complexa sinfonia da vida: é preciso indagar para se encontrar no mundo. Para tal exercício, a modinha, a canção e a cantiga são algumas das formas poéticas aqui magistralmente orquestradas. Com efeito, a musicalidade latente é um dos elementos deste livro que, publicado em 1942, é considerado um dos momentos mais altos da lírica brasileira.
Como se estivesse em vigília no espírito humano, a autora parece posicionar-se à espreita de qualquer vestígio de perenidade para desnudá-lo, a fim de revelar sua essência mutável. (daqui)
 

quarta-feira, 25 de março de 2026

"Fui criança, indo por um carreiro" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
By the Sea, 1864.

Fui criança, indo por um carreiro


Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insetos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insetos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "Cenas Vivas",
Relógio d’Água, 2000.


 
Claude Monet, On the Coast at Trouville, 1881.



"Os grandes artistas não têm pátria." 

Alfred de Musset
(Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857) 
 

"As Fontes" - Poema de Sebastião da Gama

 


André Derain (Peintre, graveur, illustrateur, sculpteur et écrivain français, 18801954),
Mountains at Collioure,
1905, National Gallery of Art.


As Fontes


Havia fontes na montanha.
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,...
beijavam só as veias da montanha.

Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia.

Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-se nesse momento claridade.

Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.

Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas...

Cantavam as minhas mãos, cantavam as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de Sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascia.

(Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai os que já perderam a coragem
de reclamar a sua conta de água!
Ai a mágoa
que lhes era meu hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)

Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo...

Mas a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha...


Sebastião da Gama (19241952) 



André Derain, View of Collioure, 1905.


"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis,
vales de silêncio e paraísos secretos."


Antoine de Saint-Exupéry
[Escritor, ilustrador e piloto francês (1900–1944), internacionalmente reconhecido pelo seu livro "O Principezinho"]
 
 
 
Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos.” — Antoine de Saint-Exupéry

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/580719-antoine-de-saint-exupery-em-cada-um-de-nos-ha-um-segredo-uma-paisagem-inte/

terça-feira, 24 de março de 2026

"O Gato" - Poema de Mário Quintana


 
Gertrude Abercrombie (American painter, 1909–1977), White Cat, c. 1938,
Smithsonian American Art Museum.


O Gato


O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... hesita... avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.


Mário Quintana (19061994),
in "Preparativos de Viagem", 1987.
 
 

Gertrude Abercrombie, Self-Reflection, 1953.

Gertrude Abercrombie (Austin, 17 de fevereiro de 1909 - Chicago, 3 de julho de 1977) foi uma pintora norte-americana radicada em Chicago. Chamada de "a rainha dos artistas boêmios", Abercrombie estava envolvida na cena jazzística de Chicago e era amiga de músicos como Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Sarah Vaughan, cuja música inspirou seu próprio trabalho criativo. (daqui)
 


Gertrude Abercrombie, "Doors And Two Cats", 1956.
 

"Os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões". 

Robertson Davies
(Escritor e jornalista canadiano, 19131995) (daqui)
 
 

Gertrude Abercrombie, "Demolition Doors", 1964, Illinois State Museum.


"Os gatos conseguem sem fadiga aquilo que continua a ser negado ao homem: atravessar a vida silenciosamente."

Atribuída a Ernest Hemingway (Escritor norte-americano, 18991961)
 
 
 
Gertrude Abercrombie, Blue Screen, 1945.


«A filosofia, que se faz passar por cura, é sintoma da perturbação que finge solucionar. Os outros animais não precisam de se distrair da sua condição. Nos humanos a felicidade é um estado artificial, nos gatos é sua condição natural. Os gatos nunca se aborrecem, a não ser que estejam confinados em ambientes que não lhes sejam naturais. O tédio é o medo de ficarmos sozinhos connosco. Os gatos sentem‑se felizes a ser gatos, os humanos tentam ser felizes a fugir de si.»

John Gray, in Filosofia Felina – Os Gatos e o Sentido da Vida. (daqui)



"Filosofia Felina — Os Gatos e o Sentido da Vida" de John Gray
Tradução de Nuno Quintas. Revisão de Helder Guégués.
Edição da Editorial Presença, 2021



SINOPSE

«Os seres humanos não se podem transformar em gatos. Contudo, se puserem de lado uma qualquer ideia que tenham da sua superioridade enquanto seres humanos, talvez consigam entender como os gatos prosperam sem andarem com interrogações agitadas sobre como viver.»

Nada prova que nós, humanos, tenhamos domesticado os gatos. Na verdade, tudo aponta para que tenham sido os gatos a perceber, em dado momento, o valor que os seres humanos podiam ter para eles. No seu novo livro, John Gray, um dos nomes maiores da filosofia atual, convida-nos a embarcar numa viagem pela história - filosófica e moral - da nossa relação com estes magníficos animais. A partir dos mais variados exemplos ao longo dos séculos, de Montaigne a Schopenhauer, Filosofia Felina revela-nos o fascínio e a complexidade por detrás dos nossos comportamentos e reações perante este inesperado animal de companhia.

É aos gatos, diz-nos John Gray, que devemos estar agradecidos, pois são talvez - e mais do que qualquer outra - a espécie que melhor traduz a nossa própria natureza animal. (daqui)
 
 

segunda-feira, 23 de março de 2026

"Março" - Poema de Alice Neto de Sousa

  

Rafał Olbiński (Polish illustrator, painter, and educator, living in the
United States, b. 1943), 'Interpretation of Habits', 2008.

 
Março


Caem chuvas de março sobre a cidade,
E digo este poema meio que sem vontade,
Porque me treme a voz em pensar em Liberdade.

Da janela, vejo os pássaros a arranhar os céus,
A cair em voos picados,
E percebo que mais vale falar do que silêncios entornados
Porque o silêncio, é como este entardecer
É como o início da dor, quando começa a doer
É uma liberdade tísica a querer gritar
E tudo quanto se ouve é oco
De tanto que nos ensinaram a calar
Quem é que ainda sabe falar?
Quem ressuscita um pássaro morto?

Sou livre, digo a rodopiar por baixo da chuva
A acender um maço,
A grafitar liberdade,
A tatuar um pássaro no meio do braço,

Porque as chuvas que me caem ainda são de março,
e algo me chove a mais dentro do peito,
como se os cravos se fossem murchar,
como se a liberdade fosse este vento,
como se nos quisessem calar,
como se nos faltasse sangue no peito.

Caem chuvas de março, sobre os meus pés descalços,
As pétalas que me mancham são de abril
Eu disse, as pedras que me mancham são de mil
Que a liberdade, que vejo da janela
É um estado líquido aquoso,
É mais um desempregado,
É mais um vento, ventoso,
São os sem abrigo parados no Chiado,
É pintar os lábios a vermelho
É vestir uma farda, mascarar um país inteiro,
É o som da colher a aquecer na esquina,
É mais o tacho a raspar de uma família,
A liberdade, é uma utopia
E, eu sei, sou poeta e tenho miopia,
Mas de onde vejo não somos todos iguais,
Que as chuvas que molham uns,
Silenciam todos os demais.

A Liberdade,
É a trincheira dos meus dias,
É dispersar as multidões em continência,
É um chorar sinuoso como a calçada,
É abraçar as mães, os pais, os filhos, as filhas, a madrugada.
É um vai ficar tudo bem,
Com certeza de quase nada.
E não só de pão e água e se faz um continente,
É preciso terra, é preciso dar uma alma a toda a gente,
Que a liberdade é muito mais do que uma mensagem secreta,
Uma indireta, escondida no meio do poema,
E não é sobre política,
É sobre ser poeta, é sobre ser poeticamente correta.
Porque caem chuva de março sobre a cidade,
E algo me chove a mais dentro do peito,
O tempo é de cortar a respiração,
A apneia que sinto é a de pensar
As pétalas que me murcham são de abril
Eu disse, as pedras que me murcham são de mil
Caem chuvas de março sobre abril.

Com o tejo preso nos olhos,
Continuo a tentar entender,
Como o medo zigzagueia o passo,
Como se envelhecem as peles no cansaço,
É esta a mesma luta que começamos há anos atrás?
Ia jurar que estes marços me sabem a todos iguais.

Cai o maço, raso na janela,
Já se ouvem as canções,
Os pássaros da primavera,
Dá-me um cravo na boca para recomeçar,
Que mesmo com os corações desafinados,
Vamos marchar, marchar, marchar.


Alice Neto de Sousa, "Março".

[Poema original "Março" da autoria de Alice Neto de Sousa, escrito a propósito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, apresentado no dia 23 de março de 2022, no Pátio da Galé situado na Praça do Comércio (Terreiro do Paço) na Baixa de Lisboa.]
 


Rafał Olbiński, 'Violin and birds', 2019.



"A arte é uma forma de crescimento para a liberdade, um caminho para a vida."

Fayga Ostrower
Citado em "Arte é o que eu e você chamamos arte" - Página 42, de Frederico Morais
Publicado por Editora Record, 2002.

domingo, 22 de março de 2026

"Voz e Aroma" - Poema de Almeida Garrett


 
Carl Strathmann (German painter in the Art Nouveau and Symbolist styles,
 1866-1939), "The Farmhouse", 1912.


Voz e Aroma


A brisa voga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar...

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.


Almeida Garrett,
in "Folhas Caídas", 1853.
 
 
Carl Strathmann, "Frühling" (Primavera), 1906.


"A neve e a tempestade matam as flores, mas nada podem contra as sementes."


Khalil Gibran, Spirits rebellious - página 59,
Anthony Rizcallah Ferris, Martin L. Wolf - Philosophical Library, 1947.

 

sábado, 21 de março de 2026

"As Andorinhas" - Poema de Tomás da Fonseca




As Andorinhas


Chegaram as andorinhas,
foi-se a noite e veio o dia!
Ó aves, saudades minhas,
asas brancas, levezinhas,
há quanto que eu vos não via!

Foi-se do inverno a tristeza,
veio o sol da primavera…
Ter assim tanta leveza,
ver, voando, a natureza,
vida minha, quem te dera!

Viver alto em revoadas,
fazer ninho nos beirais,
e ir convosco, aves amadas,
bem longe d’encruzilhadas
onde não voltasse mais…

Ser pequenino também
e leve como uma asa!...
Não querer mal a ninguém,
viver como filho e mãe,
nesse ninho – a nossa casa…

Velar no céu como vela
a águia que as nuvens fende…
Ver a terra a fugir dela,
porque a vida só é bela
quando do chão se desprende!

Eu voando, elas voando,
entre nuvens nas alturas…
Onde terei, como e quando,
sonho que assim vá sonhando,
bem que assim me dê ventura?

Ó andorinha palreira,
alegria dos casais,
dava a minha vida inteira
para ser asa ligeira
e ir contigo onde tu vais…

Onde tu vais, andorinha,
Que me trouxeste a alegria!
Ó ave, saudade minha,
asa branca, levezinha,
que há tanto tempo não via!


Tomás da Fonseca, in Musa pagã.
Lisboa, Livraria Portugália, 1920.



Tomás da Fonseca na biblioteca da sua casa de Mortágua, década de 50. (daqui)


Tomás da Fonseca  
[Laceiras, Mortágua, 1877 - Lisboa, 1968]  
«É o escritor anticlerical português de maior renome», conclui Lopes de Oliveira – como ele natural de Mortágua e seu companheiro, pelo menos desde a revista Risos e Lisos (Coimbra, 1897) – ao prefaciar-lhe um livro, em 1949.

Poeta, ficcionista, historiógrafo, jornalista, militante e panfletário republicano, deputado e professor, Tomás da Fonseca é conhecido sobretudo pelas suas obras de vincada feição anticlerical, sendo ignorada quase por completo toda a sua intervenção noutros domínios, nomeadamente a infatigável ação que desenvolveu em prol da instrução e da cultura ao longo de várias décadas.

Oriundo de uma família de pequenos proprietários rurais, mais rica em prole do que em fazenda (era o segundo entre sete irmãos), para frequentar a escola primária móvel, implantada havia pouco na sua região, era obrigado todos os dias a fazer uma caminhada de ida e volta de 10 quilómetros. Aos 17 anos, peito largo e musculatura rija adquiridos ao leme do arado e do alvião coube a Tomás da Fonseca ser o escolhido pelos progenitores, de entre os quatro filhos varões, para seguir a vida eclesiástica, assim se restabelecendo a tradição da linhagem de contar com um padre na família. Deste modo, entrou para o Seminário de Coimbra, o qual viria a abandonar em 1903, após um prolongado e doloroso debate no interior de uma consciência seduzida pela grandeza da doutrina mas revoltada com a perversidade e a mesquinhez da sua pátria quotidiana.

Seguindo, resolutamente, a exortação do geógrafo e racionalista Elisée Reclus, a quem se dirigirira para lhe expor o dilema religioso com que se debatia e a pedir-lhe conselho. T. da Fonseca renunciou por fim aos propósitos que então o animavam («ordenar-me e depois insurgir-me contra tudo quanto a Igreja tem de absurdo e revoltante, dando assim realidade ao personagem de Zola, o abade Pierre Frement», conforme logo após confessou no seu livro Evangelho dum Seminarista), assumindo como norma imperativa da sua vida o conselho recebido daquele sábio e libertário francês: «Sois um homem do povo, ficai com os homens do povo, combatei ao seu lado, camarada sem título nem insígnia, um igual e um livre, ao lado dos iguais e dos livres.»

Participante ativo – pela pena e pela palavra, nos jornais, nos comícios e em conferências – na ininterrupta ação política que iria conduzir alguns anos depois ao derrube da Monarquia portuguesa; deputado e mais tarde senador pelo distrito de Viseu, desde as Constituintes até 1917; chefe de gabinete do ministro do Fomento do Governo Provisório, Dr. António Luís Gomes; preso político na Penitenciária de Coimbra durante dois meses, em consequência das posições tomadas por si e por outros republicanos de Santa Comba Dão contra o consulado sidonista; resistente até ao final da vida ao regime do Estado Novo, que, em 1947, o encarcerou na prisão do Aljube, em Lisboa, por ter protestado contra a continuidade do Campo do Tarrafal – nada disto impediu, porém, o seu constante labor de paladino da instrução e da cultura do povo português, durante anos a fio, desde que à instrução e à educação decidiu dedicar a maior parte da sua longa vida.

A par dos seus escritos sobre a educação e o ensino, das visitas de estudo que empreendeu a escolas, museus e bibliotecas francesas, belgas e inglesas e da polémica travada no jornal O Mundo com João de Deus Ramos (1917) acerca do ensino religioso nas escolas, a par disto, Tomás da Fonseca consagrou-se com idêntico ardor à ação pedagógica direta. Na verdade, grande impulsionador do movimento das escolas móveis, percorreu o distrito do Viseu a pregar a boa nova da alfabetização pelo método de João de Deus (Cartilha Maternal); interveio na reforma do ensino primário e normal empreendida pelos governos republicanos (1912); apresentou ao Parlamento em 1916 um projeto de lei sobre a instrução primária (Lei nº. 429); incentivou e dinamizou, no âmbito das suas funções de deputado, a criação das comissões «Amigos da Escola», nomeadamente no seu distrito, cujos concelhos de Mortágua e Tondela percorreu em 1914, deslocando-se a todas as escolas móveis para instalar as referidas comissões; elaborou, em 1922, a instâncias do ministro da Instrução Pública, Dr. Augusto Nobre, o livro História da Civilização Relacionada com a História de Portugal; exerceu o magistério, primeiro como professor e depois como diretor da Escola Normal de Lisboa (dela foi demitido em 1918, pelo sidonismo, por visitar presos políticos na Penitenciária de Lisboa) e, tempos depois, da Escola Normal de Coimbra, da qual viria a ser afastado compulsivamente em 1934.

A sua ação pedagógica não se confinou, no entanto, ao ensino oficial; em 1925 fundou em Coimbra, com outros mestres (Álvaro Viana de Lemos, Aurélio Quintanilha, Joaquim de Carvalho e Manuel dos Reis) e alguns estudantes e trabalhadores manuais, a Universidade Livre.

É vasta e permanece dispersa a sua colaboração em jornais e em revistas. Escreveu, entre outros, nos seguintes periódicos: A Pátria (do Porto), O Mundo, A Vanguarda, Voz Pública, O Norte, República, O Povo, A Batalha, Lanterna (do Brasil), Luz e Vida, Alma Nacional, Arquivo Democrático (de que foi diretor), O Diabo e a República Portuguesa, um periódico por si fundado e de que era proprietário. Colaborou também no Guia de Portugal, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e ainda na obra dirigida por Lopes de Oliveira As Grandes Figuras da História da Humanidade: História Geral da Civilização. Há vários prefácios seus a livros de outros autores.
Pai do escritor «presencista», 
Branquinho da Fonseca (1905-1974).
 
Biografia de Tomás da Fonseca, in "Dicionário Cronológico de Autores Portugueses", Vol. III, Lisboa, 1994. (daqui)
  

 
Katsushika Hokusai (Japanese ukiyo-e artist of the Edo period, active as a painter
and printmaker, 1760–1849), "Hydrangea and Swallow", n.d.

 
Ukiyo-e

Ukiyo-e, ukiyo-ye ou ukiyo-ê ("retratos do mundo flutuante", em sentido literal), vulgarmente também conhecido como estampa japonesa, é um género de xilogravura e pintura que prosperou no Japão entre os séculos XVII e XIX. Destinava-se inicialmente ao consumo pela classe mercante do período Edo (1603 – 1867). Entre as mais populares temáticas abordadas, estão a beleza feminina; o teatro kabuki; os lutadores de sumo; cenas históricas e lendas populares; cenas de viagem e paisagens; fauna e flora; e erótica. (continua)

Autoproclamado "pintor louco" Katsushika Hokusai (1760–1849) desfrutou de longa e variada carreira. Seu trabalho é marcado pela falta do sentimentalismo usualmente comum ao ukiyo-e e pelo foco no formalismo de influência ocidental. Entre seus feitos, estão ilustrações para trabalhos literários de Takizawa Bakin, séries de sketchbooks — a mais famosa delas chamada Hokusai Manga (北斎漫画, esboços de Hokusai) — e sua popularização da paisagem enquanto vertente, sobretudo com a série "Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji", que inclui seu mais conhecido trabalho, A Grande Onda de Kanagawa, que também é uma das mais famosas peças de arte japonesa de todos os tempos.
Em contraste ao trabalho dos velhos mestres, as cores de Hokusai eram arrojadas, lisas e abstratas, e suas temáticas não tinham relação com as zonas de meretrício, mas dialogavam com vida comum e o ambiente da classe trabalhadora.
Mestres consagrados, como Keisai Eisen, Utagawa Kuniyoshi e Utagawa Kunisada também seguiram os passos de Hokusai rumo às paisagens na década de 1830, produzindo trabalhados de composição ousada e impressionantes efeitos. 
(daqui)

sexta-feira, 20 de março de 2026

"Primavera" - Poema de Maria da Saudade Cortesão



Edwin Blashfield (American painter and muralist, 1848– 1936),
"Spring Scattering Stars", 1927, Private collection.
 

Primavera 


A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.


Maria da Saudade Cortesão, 
em Literatura & Arte (Suplemento),
Jornal de São Paulo Nº 60/1950.




Murilo Mendes e Maria da Saudade Cortesão em Bruxelas, 1954.
 (daqui)
 
 
Maria da Saudade Cortesão Mendes (Porto, 1913 - Lisboa, 2010), poeta e tradutora, filha de Jaime Cortesão viveu grande parte da vida no estrangeiro acompanhando seu pai no exílio, primeiro em Paris (1927), depois em Madrid e, por fim, no Rio de Janeiro, onde conheceu o poeta Murilo Mendes  com quem veio a casar-se em 1947. 
Entre 1952 e 1956 viajou pela Europa acompanhando o marido em missões culturais de difusão da literatura brasileira. 
Em 1957 fixaram-se em Roma, onde, durante 18 anos, a sua casa se tornou lugar de referência para escritores e artistas plásticos. Foi amiga de Albert Camus, René Char, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Luciana Stegagno Picchio, Sophia de Mello Breyner e Maria Helena Vieira da Silva, entre outros.
O seu livro de estreia Dançado Destino, foi Prémio Fábio Prado de Poesia. 
Traduziu Murder in the Cathedral, de T. S. Eliot, A Midsummer Night's Dream, de Shakespeare, e Calígula, de Albert Camus. 
Publicou também traduções do italiano e poemas em revistas e antologias no Brasil e na Itália. (daqui)

quinta-feira, 19 de março de 2026

"Para ser lido mais tarde" - Poema de Mário Dionísio



Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894-1978),
"Facts of Life", 1956.



Para ser lido mais tarde

 
Um dia
quando já não vieres dizer-me vem
jantar
quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando
já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres
quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho
para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda
 
Hás de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde
E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara

(1953)

Mário Dionísio, in 'Poesia Completa
Imprensa Nacional, 2016, p. 168. 
 
 

Norman Rockwell, "Breaking Home Ties", 1954.


"Não há amor que mais facilmente perdoe, e mais benignamente interprete e dissimule defeitos, que o amor de pai."


António Vieira (1608–1697), in "Sermões"


quarta-feira, 18 de março de 2026

"Quando tornar a vir a Primavera" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup (Spanish painter, 1848–1910),
The Spring (La Primavera), 1896.
 

Quando tornar a vir a Primavera


Quando tornar a vir a Primavera 
Talvez já não me encontre no mundo. 
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente 
Para poder supor que ela choraria, 
Vendo que perdera o seu único amigo. 
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa: 
É uma maneira de dizer. 
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes. 
Há novas flores, novas folhas verdes. 
Há outros dias suaves. 
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real. 

7-11-1915

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos",
in "Poemas de Alberto Caeiro". Fernando Pessoa.
 
 
 
Francisco Miralles y Galup, Paseo de domingo en carruaje, c. 1901.
 
 
Leve, leve, muito leve, 
Um vento muito leve passa, 
E vai-se, sempre muito leve. 
E eu não sei o que penso 
Nem procuro sabê-lo.

s.d. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos",
in "Poemas de Alberto Caeiro" - Fernando Pessoa

terça-feira, 17 de março de 2026

"Canção para meus velhos" - Poema de Maya Angelou

 

Winslow Homer (American painter, 1836–1910), A Visit from the Old Mistress, 1876.
Smithsonian Museum of American Art, Washington, DC.



Canção para meus velhos


Meus Pais se sentam em bancos
suas carnes contam cada paulada
as ripas deixam entalhos escuros
bem fundo nos seus flancos murchos.

Eles acenam como velas quebradas
encerados e queimados profundamente
e dizem “É a compreensão
que faz o mundo girar.”

Nos seus rostos enrugados
eu vejo o palanque do leilão
as correntes e as filas de escravos
o chicote, o açoite e o tronco.

Meus pais falam em vozes que
trituram minha verdade e
dizem “É a nossa submissão
que faz o mundo girar.”

Eles usaram a maior astúcia
inteligência e artimanha
a humildade do Tio Tomming
e os sorrisos da Tia Jemima.

Eles riam para esconder o choro
abreviaram os seus sonhos
e carregaram um país no lombo
para escrever o blues com gritos.

Eu entendo o significado
poderia vir e vem
de viver à beira da morte
Eles mantiveram minha raça viva.

Tradução de Lubi Prates. Astral Cultural, 2020. 
 
 

"Canção do negrinho do pastoreio" - Poema de Augusto Meyer



Aldo Locatelli (Pintor ítalo-brasileiro, 1915-1962), Mural do Ciclo do "Negrinho do Pastoreio",
1951-1955, Palácio Piratini.



Canção do negrinho do pastoreio


Negrinho do Pastoreio,
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.

A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.

Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.

Negrinho do Pastoreio
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.

Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite...
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.

Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.

Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.

Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela d'alva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)

Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.

Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.


 
 
 
Jakared (Ilustrador e caricaturista),
"Negrinho do Pastoreio em seu Cavalo Baio"
 

A Lenda do Negrinho do Pastoreio


O Negrinho do Pastoreio é um personagem do folclore brasileiro conhecido na região sul do Brasil. De origem africana e cristã, a lenda surgiu em meados do século 19 e conta a história de um menino escravo que recebeu um milagre de Nossa Senhora por ser um inocente que sofre com castigos de um fazendeiro.

Como boa parte das histórias populares, apresenta várias versões. Uma delas conta que o Negrinho, ao perder uma corrida apostada pelo estanceiro, recebeu um castigo: ficar pastoreando durante trinta dias uma tropilha de 30 tordilhos negros. Por duas vezes os cavalos se dispersaram, mas, após acender uma vela para Nossa Senhora, o Negrinho reencontrou os cavalos perdidos.

Em outra versão da lenda, um determinado dia o fazendeiro ordenou ao Negrinho que cuidasse de alguns cavalos, porém um deles fugiu. Quando retornou, o senhor sentiu falta do cavalo baio e mandou o Negrinho procurar o animal. Ele chegou a encontrá-lo, mas não conseguiu capturá-lo. Dessa maneira, o senhor resolveu castigar o escravo com muitas chibatadas e lançá-lo num formigueiro. O fazendeiro resolveu deixar o Negrinho lá, certo de que já estava morto. Mas, no dia seguinte, ficou perplexo ao deparar com o Negrinho ileso, montado no cavalo perdido, e ao seu lado estava a Virgem Maria, padroeira do pequeno escravo. Arrependido, o fazendeiro pediu perdão, mas o Negrinho saiu galopando feliz e livre no cavalo baio.

Negrinho do Pastoreio é considerado santo das causas perdidas. Por isso, conforme a tradição popular, quem perde algo e tem dificuldade de encontrar acende uma vela e pede ajuda ao Negrinho para encontrar o que perdeu. (daqui)
 

segunda-feira, 16 de março de 2026

"Vaidade, tudo vaidade!" - Poema de António Nobre

 


Martin Ferdinand Quadal (Czech-Austrian painter and engraver, 1736–1809),
Self-Portrait at the easel with his pet dog, 1788, Cincinnati Art Museum.


 
Vaidade, tudo vaidade!


Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a glória, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, vê lá! Eu volto-lhes o rosto…
E isto em mim não será uma vaidade?


Júlio Dinis (1839–1871), in "Só"



Martin Ferdinand Quadal, Self-Portrait with his dog, sitting at his easle, 1787.


"Por que desejar outro universo se este tem cachorros?"
 
  Matt Haig, in "A Biblioteca da Meia-Noite",
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021.
(Tradução de Adriana Fidalgo)