
L. A. Ring (Danish painter, 1854–1933), The Artist's Wife by Lamplight, 1898,
68 x 87 cm, Statens Museum for Kunst, Copenhagen.
A Visita
As três desavisadas toutinegras,
as que hoje me chegaram de visita,
de capas e antenas cor de rosa,
sapatos de pelica,
trouxeram como prendas: rima ou não?,
decassílabo coxo ou refletido?,
e num passo de dança de salão
optaram por zumbido
de leve, imitação de chilrear,
afago sobre as penas ilustradas,
lustrosas e macias como livros
com trovões nas lombadas.
Falavam todas juntas (ou zumbiam),
coro anti-ominoso e sossegado,
e ajeitando-se em capas e antenas,
sentaram-se a meu lado.
Uma espreitava a cor, a outra, o branco,
a terceira passava-me a borracha,
mas era tudo feito tão discreto,
modulação tão baixa,
que os braços de morfeu na casa toda:
braços inertes tão adormecidos,
ignorantes da mesa de onde em roda
cresciam os zumbidos.
Por fim, em jeito leve de tourada,
uma lançou a capa pelo ar,
outra roubou-me lápis e isqueiro
e fugiu a dançar
pela varanda, de onde descolou,
como avião, em rasto incandescente.
Só a terceira se deixou ficar
sentada lentamente.
E ficou por aqui, e não partiu,
vigiando-me noite e sobressalto,
segurando-me as pálpebras com mão
segura de mar alto,
mantendo cheia a ânfora do espanto
onde se habita o vento e a monção,
de quando em vez, lançando-me um ditongo
ou golpe de escansão.
Foi a pior, das três a mais perigosa,
a mais desavisada sem parecer,
cujos sapatos de pelica preta
deixavam antever
umas meias às riscas de luar,
com enfeites de sol e tempestades,
e uma malha caída e alguns raios
que me lembravam hades.
Foi ela a responsável pelo estado
em que ficámos mesa, folha, eu,
num desalinho azul, verso molhado
pela jarra tombada por Morfeu
que entretanto acordara, em fúria ampla,
em ânfora de sono destruído,
e que em brado solene emudeceu
o dela, e meu, zumbido.
E se eu tremia, ela como estátua
sem pestanar sequer, sem um tremor:
se ficara ofendida, se assustada.
E, para meu terror,
levantou brevemente a capa preta,
tirou da meia às riscas: não pistola:
um baralho de cartas e navalha
sem ponta, mas de mola.
Que comecem os jogos! Começaram,
mas éramos só três. E ela então
chamou pelas irmãs, que regressaram
em passo de salão.
E as três desavisadas toutinegras
sentaram-se outra vez, e eu e morfeu,
a braços e nos braços de uma crise:
é que ou morfeu, ou eu.
Que quatro é conta certa, cinco, não,
urgindo eliminar alguém presente.
E foi então que a mais desavisada
teve ideia brilhante:
um concurso de quadras com o tema
"as três desavisadas toutinegras",
e ganharia a que de pior rima
a dar com "toutinegras".
Perdeu morfeu, que escolheu a mais óbvia,
e logo ali lhe foram oferecidos
três destinos possíveis, todos eles
de fins enaltecidos.
Ou voltar a dormir, muito enrolado
nos seus braços compridos de embalar,
ou instalar-se à musa, encarregado
de baralhar e dar.
Ou então (foi a escolha sugerida
por mim, que ele aceitou, aliviado):
fazer o meu papel, pegar no lápis,
e sentar-se a meu lado.
E enquanto as três jogavam, entretidas,
em muito incerta conta de jogar,
morfeu e eu zumbíamos por quadras
e canções de embalar.
No livro de registos desta noite,
ficou assim rimada uma visita
de três desavisadas toutinegras,
sapatos de pelica,
e um morfeu a quem elas inspiraram
a comprar capa preta,
e que eu, quase a dormir, vi transformado
em órfico poeta.
Ana Luísa Amaral,
in "Entre Dois Rios e Outras Noites",
Campo das Letras, 2008.
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L. A. Ring, Johanne; Seated full figure, 1884.
"Meditar, em filosofia, é encaminharmo-nos do conhecido para o desconhecido, e aqui defrontar o real."
(Filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, 1871–1945)








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