segunda-feira, 21 de março de 2016

"A Bela Dama Sem Piedade" - Poema de John Keats


Walter Crane, La belle Dame Sans Merci (1865)



A Bela Dama Sem Piedade 



Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas,
Sozinho, pálido e vagarosamente passando?
As sebes tem secado às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas?
Sua face mostra sofrimento e dor.
A toca do esquilo está farta,
E a colheita está feita.

Eu vejo uma flor em sua fronte,
Húmida de angústia e de febril orvalho,
E em sua face uma rosa sem brilho e frescor
Rapidamente desvanescendo também.

Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda… uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.

Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,
E braceletes também, e perfumes em volta;
Ela olhou para mim como se amasse,
E suspirou docemente.

Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,
E nada mais vi durante todo o dia,
Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava
Uma canção de fadas.

Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,
mel selvagem e orvalho da manhã,
E em uma estranha linguagem ela disse…
“Verdadeiramente eu te amo.”

Ela me levou para sua caverna de fada,
E lá ela chorou e soluçou dolorosamente,
E lá eu fechei seus selvagens olhos
Com quatro beijos.

Ela cantou docemente para que eu dormisse
E lá eu sonhei…Ah! tão sofridamente!
O último dos sonhos que eu sempre sonhei
Nesta fria borda da colina.

Eu vi pálidos reis e também príncipes,
Pálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;
Eles gritaram…”A Bela Dama sem Piedade
Tem você escravizado!”

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.

E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
Sozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.



tradução de Izabella Drumond


domingo, 20 de março de 2016

"As rosas" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Vladimir de Leon Llaguno (Cuban painter, draughtsman, serigrapher,
engraver, and graphic designer, b. 1963), Regreso del bosque, 2015
 

As rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.


Lisboa, Edições Ática; 3.ª ed. 1974
 

sábado, 19 de março de 2016

"A Meus Filhos" - Poema de António Osório



Myrtille Henrion Picco (Artiste et peintre néo-surréaliste française, n. 1952),
'Lilybellul à 8 ans', 1989, huile sur toile, 61 x 50 cm.



A Meus Filhos


A meus filhos
desejo a curva do horizonte.

E todavia deles tudo em mim desejo:
o felino gosto de ver,
o brilho chuvoso da pele,
as mãos que desvendam e amam.

Marga,
meu fermento,
neles caminho e me procuro,
a corpo igual regresso: 

ao rápido besouro das lágrimas,
ao calor da boca dos cães,
à sua língua de faca afetuosa;

à seta que disparam os ibiscos,
à partida solene da cama de grades,
ao encontro, na praia, com as algas;

à alegria de dormir com um gato,
de ver sair das vacas o leite fumegante,
à chegada do amor aos quatro anos. 


António Osório (n. 1933),
in 'A Raiz Afectuosa', 1972



Myrtille Henrion Picco, 'L'Enfant et le Chat', 1989, huile sur toile, 50 x 61 cm.


"A caridade é a virtude predileta de Deus."

 
Os Gatos e os Provérbios
(Imagens retiradas da internet)


"A criança e o gatinho vão a quem lhes faz miminho."

(Provérbio)





"De noite, todos os gatos são pardos."

(Provérbio)





"Filho de gata, ratos mata."

(Provérbio)





"Bonitas palavras não engordam gatos."

(Provérbio)





"Em casa de vilão, nem gato, nem cão."

(Provérbio)





"Do gato pisado sai o miado."

(Provérbio)





"A casa que não tem gatos tem muitos ratos."

(Provérbio)





"A curiosidade matou o gato."

(Provérbio)





"A gato que rói, nunca faltaram farrapos." 

(Provérbio)





"A bom gato, bom rato."

(Provérbio)





"A língua do cão é benta e a do gato sebenta." 

(Provérbio)





"Bafo de gato, que nem chegue ao fato."
 
(Provérbio) 



quarta-feira, 16 de março de 2016

"Guardei-me para ti" - Poema de Lia Luft


Guardei-me para ti  


Guardei-me para ti como um segredo 
Que eu mesma não desvendei: 
Há notas nesta guitarra que não toquei, 
Há praias na minha ilha que nem andei.

É preciso que me tomes, além do riso e do olhar, 
Naquilo que não conheço e adivinhei; 
É preciso que me ensines a canção do que serei 
E me cries com teu gesto 
Que nem sonhei.




"Abaixo o mistério da poesia" - Poema de António Gedeão


'A descoberta da terra', 1941. Pintura mural de Candido Portinari no edifício da Biblioteca 
do Congresso, Washington, DC.



Abaixo o mistério da poesia


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: 

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA 


António Gedeão
, 
in 'Linhas de Força', 1967
 

terça-feira, 15 de março de 2016

"O Silêncio" - Poema de Eugénio de Andrade


Alberto Pisa, Reading



O Silêncio


Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora,

quando azuis irrompem 
os teus olhos

e procuram 
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


Eugénio de Andrade,
in "Obscuro Domínio"

"Este não-futuro que a gente vive" - Texto de Al Berto



Marcel Duchamp (French-American artist, 1887–1968),
Young Girl and Man in Spring, 1911


Este não-futuro que a gente vive


Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projetos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros. 

Al Berto, in "Entrevista à revista Ler", 1989

[Al Berto é o pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares. Nasceu em Coimbra, a 11 de Janeiro de 1948, e viveu parte da sua infância e adolescência em Sines. Em 1967 saiu de Portugal para residir em Bruxelas durante vários anos.
Inicialmente, a sua poesia revelou-se de inspiração surrealista, na linha de Herberto Hélder. Posteriormente, optou por agrupar poesia e prosa, numa escrita-deambulação. Em 1988, recebeu o prémio Pen Club de Poesia pela publicação de O Medo. Este título reuniu num único livro (posteriormente ampliado e reeditado) a obra poética de Al Berto. Faleceu a 13 de Junho de 1997, em Lisboa.]


GNR - "Quero Que Vá Tudo P'ró Inferno"