quarta-feira, 19 de outubro de 2016

"Poema da Eterna Presença" - António Gedeão



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
'Moonlight', 1874, Arkell Museum.



Poema da Eterna Presença


Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,
que as dimensões do infinito não me perturbam.
(O infinito!
Essa incomensurável distância de meio metro
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!)

O que me perturba é que o todo possa caber na parte,
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote.

O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna.

Se eu tivesse a memória das pedras
que logo entram em queda assim que se largam no espaço
sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair;
se eu tivesse a memória da luz
que mal começa, na sua origem, logo se propaga,
sem que nenhuma se esquecesse de propagar;
os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram
continentes,
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a
Terra.

Mas não esqueci tudo.
Guardei a memória da treva, do medo espavorido
do homem da caverna
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;
guardei a memória da fome;
da fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo;
guardei a memória do amor,
dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez desejar a mulher do próximo e do distante;
guardei a memória do infinito,
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado,
à formação do Universo.

Tudo se passou defronte de partes de mim.
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam.
Estão.
E estarão.


António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'



Winslow Homer, 'Summer Night', 1890, Musée d'Orsay. 


Navegação


Distância da distância derivada 
Aparição do mundo: a terra escorre 
Pelos olhos que a veem revelada. 
E atrás um outro longe imenso morre.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
 Obra Poética I (2ª Ed.), Editorial Caminho.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

"Confissão" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Valentín Thibon de Libian (Artista plástico argentino, 1889–1931),
'En el café' ('El café de las midinettes'), c. 1919



Confissão


É certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra-e-sai de um minuto.

É certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito
atiro à cesta o absoluto
como inútil papelito.

É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflito
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.

É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.


Carlos Drummond de Andrade (1902–1987),
in 'As Impurezas do Branco', 1973



Valentín Thibon de Libian, 'El ocaso', 1930
 

"Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo." – Carlos Drummond de Andrade
 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"Já não vivo, só penso" - Poema de Fernanda de Castro


Pablo Picasso, 1917-18, Portrait d'Olga Khokhlova dans un fauteuil (Olga in an Armchair), 
oil on canvas, 130 x 88.8 cm, Musée Picasso, Paris, France



Já não vivo, só penso


Já não vivo, só penso. E o pensamento 
é uma teia confusa, complicada, 
uma renda subtil feita de nada: 
de nuvens, de crepúsculos, de vento. 

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento, 
e eu cada vez mais vaga, mais alheada. 
Percorro o céu e a terra aqui sentada, 
sem uma voz, um olhar, um movimento. 

Terei morrido já sem o saber? 
Seria bom mas não, não pode ser, 
ainda me sinto presa por mil laços, 

ainda sinto na pele o sol e a lua, 
ouço a chuva cair na minha rua, 
e a vida ainda me aperta nos seus braços. 


 in "E Eu, Saudosa, Saudosa"

domingo, 16 de outubro de 2016

"Não queiras ser" - Poema de Cecília Meireles



Florine Stettheimer (American modernist painter, feminist, theatrical designer,
 poet, and salonnière, 1871–1944), Self-Portrait with Paradise Birds, c. 1900 


Não queiras ser


Não queiras ser.
Não ambiciones.
Não marques limites ao teu caminho.
A Eternidade é muito longe.
E dentro dele tu te moves, eterno.
Sê o que vem e o que vai.
Sem forma.
Sem termo.
Como uma grande luz difusa.
Filha de nenhum sol.


Cecília Meireles, in Cânticos, 1982


 
Florine Stettheimer, Heat, c.1919, Brooklyn Museum


"O prazer dos grandes homens consiste em fazer os outros felizes."

Blaise Pascal
[Matemático, físico, inventor, escritor, filósofo e teólogo francês, 1623–1662]



Florine Stettheimer, Picnic at Bedford Hills, 1918



"Claro que te farei mal. Claro que me farás mal. Claro que podemos, mas essa é a condição 
da existência. Receber a Primavera significa correr os riscos do Inverno. 
Se desistir agora será correr o risco do desaparecimento. Amo-te."

Antoine de Saint-Exupéry, Parte de uma carta escrita a Natalie Paley 
citada no livro "Sept lettres à Natalie Paley (1942–1943)"


sábado, 15 de outubro de 2016

"Lugares da Infância" - Poema de Manuel António Pina


 
Évariste Carpentier (Belgian painter, 1845–1922), 'Les enfants endormis', s.d.
 

Lugares da Infância


Lugares da infância onde 
sem palavras e sem memória 
alguém, talvez eu, brincou 
já lá não estão nem lá estou. 

Onde? Diante 
de que mistério 
em que, como num espelho hesitante, 
o meu rosto, outro rosto, se reflete? 

Venderam a casa, as flores 
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas 
e geladas, e sob os meus passos 
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações. 

O quarto eu não o via 
porque era ele os meus olhos; 
e eu não o sabia 
e essa era a sabedoria. 

Agora sei estas coisas 
de um modo que não me pertence, 
como se as tivesse roubado. 

A casa já não cresce 
à volta da sala, 
puseram a mesa para quatro 
e o coração só para três. 

Falta alguém, não sei quem, 
foi cortar o cabelo e só voltou 
oito dias depois, 
já o jantar tinha arrefecido. 

E fico de novo sozinho, 
na cama vazia, no quarto vazio. 
Lá fora é de noite, ladram os cães; 
e eu cubro a cabeça com os lençóis. 


in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'


  Évariste Carpentier, 'L'ami farouche', c. 1893-95


"Há momentos, e você chega a esses momentos, em que de repente o tempo para e acontece a eternidade."

(Fiódor Dostoiévski)


  Évariste Carpentier, 'Le petit étang', Musée des beaux-arts de Verviers


"Ame os animais, ame as plantas, ame tudo. Se amar tudo, perceberá o divino mistério em cada ser. Ao perceber isso, começará a compreender melhor as coisas a cada dia. Então, será capaz de amar o mundo todo da mesma forma, um amor sem distinção." 
 
 (Fiódor Dostoiévski)



Retrato de Fiódor Dostoiévski, 1872, por Vasily Perov


Fiódor Dostoiévski (Moscovo, 15 de Novembro de 1821 — São Petersburgo, 9 de Fevereiro de 1881), foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos. É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para existencialismo já escrita."


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Anoitecer" - Poema de Raimundo Correia


Robert Zünd (Swiss landscape painter, 1826 –1909), Evening Atmosphere by the Lakeside



Anoitecer


Esbraseia o Ocidente na agonia 
O sol... Aves, em bandos destacados, 
Por céus de ouro e púrpura raiados, 
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se além da serrania 
Os vértices de chamas aureolados, 
E em tudo, em torno, esbatem derramados 
Uns tons suaves de melancolia.

Um mudo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa avulta e cresce 
A sombra, à proporção que a luz recua.

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua 
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.


in 'Sinfonias, 1883'


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

"Finda" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes




Finda


A conclusão de tudo é só a morte
e não há mais epílogo nem finda.
Não se termina o verso nem o curso
mudamos à conversa interrompida.

Não findamos o verso nem acaba
o desfazer-se o mar contra esta praia.
A conclusão de tudo é só a morte,
nem o silêncio quebra a sua amarra.

Sequer há conclusão? Sequer há morte
nas palavras deixadas pelos recantos
mais sujos e perdidos do seu norte?

Amor que nos moveu no desalento,
a pátria destes versos foi só pura
imaginação por dentro da memória.

(Mas já outras canções nos estremecem:
longe do coração começa a História.)


in “Outras Canções”


Fernand Léger, 1912, Nude Model in the Studio 
(Le modèle nu dans l'atelier)


"Um escritor chega à velhice quando suspeita que o artigo que está a escrever 
já tinha sido escrito por ele no passado."