segunda-feira, 19 de agosto de 2019

"Entre a cidade Sim e a cidade Não" - Poema de Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko



Carlos Botelho (Pintor, ilustrador e caricaturista português, 1899–1982),
Nova York, Rua 53, 1939.


Entre a cidade Sim e a cidade Não


Sou um comboio rápido
que há muitos anos vai e vem
entre a cidade Sim
e a cidade Não.
Os meus nervos estão tensos
como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim.

Tudo está morto e assustado na cidade Não.
É como um embrulho feito de tristeza.
Dentro dela todas as coisas franzem a testa.
Há medo nos olhos de todos os retratos.
De manhã enceram com bílis o soalho.
Os sofás são de falsidade, as paredes de miséria.
Nunca te darão nessa cidade um bom conselho,
nem um ramo de flores, nem um simples aceno.
As máquinas de escrever batem, com cópia,
a resposta:
"Não-não-não... não-não-não... não-não-não..."
E quando enfim se apagam as luzes
os fantasmas iniciam o seu lúgubre bailado.
Nunca, ainda que rebentes, arranjarás bilhete
para fugir da negra cidade. Não.

Ah, mas a vida na cidade Sim é um canto de ave.
Não tem paredes a cidade, é como um ninho.
As estrelas dizem que as acolhas nos teus braços.
E sem vergonha seus lábios pedem teus lábios,
num brando murmúrio: "São tudo tolices..."
A flor provocante implora que a cortes,
os rebanhos oferecem o leite com seus mugidos,
ninguém tem ponta de medo.
E aonde queiras ir te levam num instante comboios,
barcos, aviões,
e com um rumor antigo vai a água murmurando:
"Sim-sim-sim... sim-sim-sim... sim-sim-sim..."
Mas às vezes é certo que aborrece
ser-me dado, afinal, tudo sem esforço
nesta cidade Sim, deslumbrante de cor.

É melhor ir e vir até ao fim da minha vida
entre a cidade Sim
e a cidade Não!
É melhor ter os nervos tensos como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim! 


 Trad. de J. Seabra-Dinis



Carlos Botelho, Noturno - Nova Iorque, 1940.


"Ter uma vida tranquila é um objetivo difícil." 

"A life of ease a difficult pursuit."
 
William Cowper, "Retirement" in: The works of William Cowper: His life and letters -
 vol. 6, pág. 210, de William Cowper, William Hayley, John William Cunningham, 
Thomas Shuttleworth Grimshawe - Saunders & Otley, 1835.
 
 

domingo, 18 de agosto de 2019

"Ato de Contrição" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


  
José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
"As Promessas", 1933, Museu José Malhoa, Caldas da Rainha


Ato de Contrição


Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!


Adolfo Casais Monteiro

[Poeta, tradutor, crítico e novelista português, 1908–1972]
 



"Quem não ama o seu semelhante vive uma vida estéril 
e prepara um túmulo triste para a sua velhice."


Percy Bysshe Shelley,
Alastor, or The Spirit of Solitude, 1815



sábado, 17 de agosto de 2019

"Flores" - Poema de Bella Akhmadulina


Vasily Perov (Russian, 1834-1882), A Governess Arriving at a Merchant's House, 1866



Flores


Elas cresceram dentro de uma casa quente,
sob a orientação de uma célula,
as suas raízes foram afundadas em gordura e nutrição,
e pétalas - sempre magras e boas.

Quente era a casa que elas fizeram sentar-se dentro
Deram-lhes água, solo e luz:
não pela razão de pena
ou pelo desejo de uma longa vida.

Elas são os alegres presentes - de lembrar.
Mas um mau destino espera-as,
porque elas nunca serão capazes
de cheirar como os seus parentes jardins.

Elas não iriam ficar meio lábios vermelhos,
não iriam influenciar a abelha de ouro,
que não iria nunca resolver o enigma
qualquer que fosse a terra molhada.


Bella Akhmadulina




sexta-feira, 16 de agosto de 2019

"Doido Varrido" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


Peder Mørk Mønsted (1859 - 1941), Self-portrait, 1895 



(born 1859 - died 1941)
Per più informazioni leggi qui: https://www.tuttartpitturasculturapoesiamusica.com/2017/04/Peder-mork-Monsted.html
© Tutt'Art@ | Pittura * Scultura * Poesia * Musica |
Doido Varrido


O Poeta passa frio,
passa frio e passa fome.
No entanto, os dias consome
a cantar ao desafio,
ao desafio consigo,
sentado no botequim.
A conversa não tem fim,
não tem fim e não tem nome,
decorre sem alarido...
O Poeta é doido varrido
doido varrido isso sim!

Tantas vezes que ele morre
e outras tantas ressuscita!
Mas ressuscita pior.
Como um menino travesso,
volta as coisas do avesso
para as conhecer melhor.
E às vezes, tomba no chão
porque um intenso clarão
o assombrou de repente.
No meio da multidão
fica só, indiferente.

Indiferente com todos,
quer estranhos ou amigos.
Indiferente aos perigos
leva a vida sem maus modos.
Mas por que estranho desígnio
ele tem a pretensão
de aquele intenso clarão
ser um sinal lá dos céus,
e de, no meio do assombro,
pressentir a mão de Deus
tocar-lhe amiga, no ombro?


Saúl Dias, in "Essência"
(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

"Nuvem Branca" - Poema de Raimundo Correia


Laurits Tuxen (Danish, 1853–1927), Portrait of a bride, 1904

 

Nuvem Branca


Dizei-me: é ela a noiva casta e pura,
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, nesse instante,
Turbilhões de translúcida brancura;

Colar, broches de pérolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...

Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?

É ela a noiva? É mesto, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?

É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...

Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...


Raimundo Correia
,
in Aleluias, 1891

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"Aço" - Poema de Adolfo Casais Monteiro



Thomas Eakins (American realist painter, photographer, sculptor,
and fine arts educator, 1844–1916), "The Chess Players", 1876,
Metropolitan Museum of Art, New York



Aço
 

Quebre-se de encontro à dureza das arestas
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!


Adolfo Casais Monteiro
 

"Os passos da Poesia" - Poema de Eduarda Chiote



Simon Glücklich (Austrian painter, 1863–1943), "Paar im Gespräch"
 
 
Os passos da Poesia


Deslizas pela delicadeza
com teus pés magoados.
Por que caminhas agora sobre vidros,
por que exiges de ti essa aguda cautela?
Os céus teriam sido a morada, as areias finas
do nosso desencontro?
Soubera-o eu e ter-te-ia ajudado a não descalçar os sapatos.
As meias também.
Deixar-te ficar com elas, durante o amor,
tem sido (foi sempre) um motivo de deleite.
De carinho.
Uma inclinação natural
de proteger-te.
Se te pintara, numa imensa e clara tela, começaria
por essa mancha: estremecida.
Estremecida!
Ia jurar que nunca te apercebeste de como posso,
em discrição, exceder-lhe os pormenores
– convocar o fascínio,
a cor, a textura; pressagiar-lhe os passos de um suor doloroso.
Por que permiti, então, o caminhares por lugares
penosos?
Não mo perdoo.
Agora que os aperfeiçoas na fuga, espero bem poder acolhê-los
como pombas,
lavar-tos com a imaginação perfumada
das nuvens,
o olhar atento ao delicado equilíbrio, no quadro,
da moldura.
Anunciavam já, no tempo em que ao meu encontro
corriam, esse enredo de minuciosas
dores? – Quais? As de viver? O competente espaço
onde os acolho para a frescura da relva
por nascer?