terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"A música, sim, a música" - Poema de Fernando Pessoa


Paul Cézanne, The Overture to Tannhäuser: The Artist's Mother and Sister, 1868 ,
Hermitage Museum, St. Petersburg



A música, sim, a música… 


A música, sim, a música…
Piano banal do outro andar…
A música em todo o caso, a música...
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda criatura humana,
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor…
A música… Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal
Mas é música…

Ah, quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas!
A música…
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música…
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música…!

19 de Julho de 1934

Fernando Pessoa,
In Poesia, Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.



Paul Cézanne, Jas de Bouffan, 1885-1887


"Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato. Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira. Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio. 
A escuridão não pode extinguir a escuridão. Só a luz o pode fazer."

Martin Luther King
, in Discurso, 1967
Fonte: Discurso "Where do we go from here?" http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/062.html (16 de agosto de 1967)

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2051632-martin-luther-king-junior-atraves-da-violencia-voce-pode-matar-um-assassino/
Fonte: Discurso "Where do we go from here?" http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/062.html (16 de agosto de 1967)

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2051632-martin-luther-king-junior-atraves-da-violencia-voce-pode-matar-um-assassino/
Discurso "Where do we go from here?" http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/062.html (16 de agosto de 1967)

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2051632-martin-luther-king-junior-atraves-da-violencia-voce-pode-matar-um-assassino/
Discurso "Where do we go from here?" http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/062.html (16 de agosto de 1967)

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2051632-martin-luther-king-junior-atraves-da-violencia-voce-pode-matar-um-assassino/


Adagio in G Minor (Tomaso Albinoni) 


Tomaso Giovanni Albinoni (Veneza, 8 de Junho de 1671 – Veneza, 17 de Janeiro de 1751) foi um compositor barroco italiano, nascido na República de Veneza. Famoso em sua época como compositor de óperas, atualmente é mais conhecido por sua música instrumental, parte da qual é regularmente regravada. Massificou sua música, mas graças a seu talento melódico e estilo pessoal foi tão popular na época quanto Arcangelo Corelli e Antonio Vivaldi.
Filho de um rico fabricante de papel, não pensava em seguir a carreira artística e muito menos em ganhar dinheiro com ela. Recusou-se a gerir a herança do pai e dedicou-se a compor para violino, passando a responsabilidade da fábrica para os seus dois irmãos mais novos. Estreou em Munique, em 1722, com muito sucesso. Grande parte do trabalho de Albinoni foi perdida na Segunda Guerra Mundial, com a destruição da Biblioteca Estadual da Saxónia, durante o bombardeio de Dresden, em fevereiro de 1945. Por isso, pouco se sabe sobre seu trabalho a partir de meados da década de 1720.


Paul Cezanne, Banks of the Marne, 1888–1890


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Ibéria" - Poema de Miguel Torga




Socalcos do Douro - Portugal
 
 

Rio Douro - Portugal 

 

Socalcos do Douro


Ibéria


Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.

Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...

Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).

Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.


Miguel Torga,
Poemas Ibéricos, 1952-1965

 
  

“Não se vê por que maneira, este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.” 
 
Miguel Torga, in Portugal
 
 

"Falavam-me de Amor" - Poema de Natália Correia



Henry Mosler (American artist, 1841–1920), "Christmas Morning", 1916


Falavam-me de Amor


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas, 

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado. 


Natália Correia, in "O Dilúvio e a Pomba" 
Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979




Henry Mosler, "The Chimney Corner", 1893 



"Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente."

(Érico Veríssimo)

"Natal" - Poema de Miguel Torga



Lorenzo Lotto (Italian Renaissance painter, draughtsman, and illustrator,
c. 1480–1556/57), 'Nativity', 1523, National Gallery of Art, United States.


Natal 


Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, atual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?


Miguel Torga
, 'Diário IX' 
 

sábado, 24 de dezembro de 2011

"Há palavras que nos beijam"- Poema de Alexandre O’Neill




Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas Inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.




Mariza - Há palavras que nos beijam


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

"Pequenas coisas" - Poema de Albano Martins



Paul Gauguin (French painter, sculptor, printmaker, ceramist, and writer, 1848–1903),
The Midday Nap, 1894, Metropolitan Museum of Art



Pequenas coisas

 
Falar do trigo e não dizer o joio.
Percorrer em voo raso os campos
sem pousar os pés no chão.
Abrir um fruto e sentir no ar
o cheiro a alfazema.

Pequenas coisas, dirás,
que nada significam perante esta outra,
maior: dizer o indizível.
Ou esta: entrar sem bússola na floresta
e não perder o rumo.
Ou essa outra, maior que todas
e cujo nome por precaução omites.
Que é preciso, às vezes,
não acordar o silêncio.


Albano Martins, Escrito a vermelho
Campo das Letras, 1999, 1ª edição


Hector Berlioz - Symphonie Fantastique - part 1


Louis-Hector Berlioz

Compositor, crítico e maestro francês do período Romântico, nasceu em 1803, em La Côte-Saint-André, em França, e morreu em 1869, em Paris. Ficou conhecido pela Symphonie Fantastique (1830) e pela peça dramática La Damnation de Faust (1846).
Foi enviado pelo seu pai para estudar medicina, mas acabou por ingressar no Conservatório de Música e, algum tempo depois, compôs Sinfonia Fantástica (Symphonie Fantastique), que se tornou num dos trabalhos mais importantes do século XIX. A seguir, revelou-se um excelente chefe de orquestra, na mesma altura em que se estreou como ensaísta e crítico musical. No entanto, o seu génio criador, e desconcertante para a época, foi mais reconhecido no estrangeiro do que em França. Só depois de morrer é que foi reconhecido como um dos maiores românticos e inovadores, especialmente a nível da instrumentação.
Os seus trabalhos mais significativos incluem as óperas Benvenuto Cellini (1838), Les Troyens (1855-58) e Béatrice et Bénédict (1862); as composições corais Huits Scènes de Faust (1829), Lélio ou le Retour à la Vie (1831), Requiem (Grande Messe des Morts (1837), Roméo et Juliette (1839), Grande Symphonie funèbre et Triomphale (1840), La Damnation de Faust (1846) e L'Enfance du Christ (1854); e os trabalhos orquestrais Waverly (1823), Les Francs-Juges (1827), Symphonie Fantastique (1830), Le Roi Lear (1831), Le Corsaire (1831-52), Harold en Italie (1834) e Le Carnaval Romain (1844).  (daqui)



Paul Gauguin, Girl with a Fan, 1902


"O que se faz agora com as crianças é o que elas farão depois com a sociedade."

Karl Mannheim


Sociólogo de origem húngara, Karl Mannheim nasceu na Hungria em 1893, onde viveu até 1919, quando se mudou para a Alemanha. O início da sua carreira foi desenvolvido neste país, do qual se viu forçado a sair em 1933. A partir desta data passa a viver na Grã-Bretanha, onde lecionou na London School of Economics. 
O reconhecimento internacional deste autor derivou do seu trabalho na área da sociologia do conhecimento. Mannheim denunciou a existência de uma relação entre as formas de conhecimento e a estrutura social e tentou resolver o problema daquilo a que chamou as implicações relativistas da sociologia do conhecimento, apontando soluções para o princípio que postula que, se todas as crenças podem ser socialmente localizadas, é impossível qualquer critério de verdade socialmente independente. Segundo este autor, os intelectuais teriam um importante papel face a esta relatividade da verdade, já que deverão ter as competências necessárias para analisar os problemas sob mais do que uma perspetiva. Crítico de Marx, Mannheim distingue utopias de ideologias dizendo que estas últimas apenas ajudam a preservar a ordem social estabelecida enquanto as primeiras se esforçam por transformar sonhos em realidades efetivas, o que fez delas, historicamente, fontes influentes de ação. 
Mannheim também teorizou acerca da necessidade de reconstrução social da atual sociedade massificada. Faleceu em 1947. 
As suas obras principais são as seguintes: Ideology and Utopia (1936); Man and Society in an Age of Social Reconstruction (1940); Diagnosis of Our Time (1943); Freedom, Power and Democratic Planning (1951); Essays on the Sociology of Knowledge (1952); Essays on Sociology and Social Psychology (1953); Essays on the Sociology of Culture (1956).

Karl Mannheim. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-12-23].


"Paisagem" - Poema de David Mourão-Ferreira



Edward Robert Hughes
(British painter, 1851–1914), 'Heart of Snow', 1907.
Watercolour and gouache on paper, 57 x 113 cm, Private collection.


Paisagem


Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exato.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.) 


David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem",

 

David Mourão-Ferreira, "A Secreta Viagem",
1ª ed., Ed. Távola Redonda, 1950