terça-feira, 11 de outubro de 2016

"A Guerra" - Poema de David Mourão-Ferreira



Pieter Brueghel, o Velho (1525-1569), "A Triumph of Death", c. 1562, Museo del Prado, Madrid.


A Guerra


E tropeçavam todos nalgum vulto, 
quantos iam, febris, para morrer: 
era o passado, o seu passado — um vulto 
de esfinge ou de mulher. 

Caíam como heróis os que não o eram, 
pesados de infortúnio e solidão. 
(Arma secreta em cada coração: 
a tortura de tudo o que perderam.) 

Inimigos não tinham a não ser 
aquela nostalgia que era deles. 
Mas lutavam!, sonâmbulos, imbeles, 
só na esperança de ver, de ver e ter 
de novo aquele vulto 
— imponderável e oculto — 
de esfinge, ou de mulher. 


David Mourão-Ferreira,
in "Tempestade de Verão" 
 


Felix Nussbaum, "Triumph des Todes" (Die Gerippe spielen zum Tanz), 1944. 


"A História é um pesadelo do qual tentamos acordar."


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"O Inimigo" - Poema de Charles Baudelaire




O Inimigo


A mocidade foi-me um temporal bem triste, 
Onde raro brilhou a luz d'um claro dia; 
Tanta chuva caiu, que quase não existe 
Uma flor no jardim da minha fantasia. 

E agora, que alcancei o outono, alquebrantado, 
Que paciente labor não preciso — ai de mim! — 
Se quiser renovar o terreno encharcado, 
Cheio de boqueirões, que é hoje o meu jardim! 

E quem sabe se as flores ideais que ora cobiço 
Iriam encontrar no chão alagadiço 
O preciso alimento ao seu desabrochar? 

Corre o tempo veloz, num galope desfeito, 
E a Dor, a ingente Dor, que nos corrói o peito, 
Com nosso próprio sangue, a crescer, a medrar! 


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 
Tradução de Delfim Guimarães


Felix Nussbaum, 'Self-portrait', 1940


Felix Nussbaum (11 de Dezembro de 1904, Osnabrück - 2 de Agosto de 1944, Auschwitz) foi um pintor alemão de origem judaica, com várias obras que ilustram os horrores do Holocausto, do qual ele foi vítima. 
 
Estudou em Hamburgo e Berlim, arte, livre e aplicada (freie und angewandte Kunst). Nos anos 1920 e 30 as suas exposições em Berlim tiveram grande sucesso. Com a chegada ao poder dos Nazis em 1933, foi obrigado a viver no exílio, em Itália, França e finalmente na Bélgica (Bruxelas) com a sua mulher, a polaca Felka Platek, com quem casou em 1937. 
 
Com a ocupação pelos alemães e o regime de Vichy, foi internado num campo de concentração em França. Conseguiu no entanto fugir com a sua mulher e esconder-se na casa de um amigo, também um artista, em Bruxelas. Foi traído e denunciado em Junho de 1944 e imediatamente preso, juntamente com a sua mulher. Foi levado para campo de concentração de Malines (ou Mecheln) de onde foi levado para Auschwitz, onde foi assassinado em 2 de Agosto de 1944, presumivelmente com a sua mulher.
 
Em 1998 foi inaugurado em Osnabrueck o Museu Felix-Nussbaum (Felix-Nussbaum-Haus), no qual está exposta a totalidade das suas obras, mais de 160 quadros. Os planos do edifício couberam ao famoso arquitecto Daniel Libeskind.


Felix Nussbaum, 'Self-portrait with Jewish Identity Card', 1943


"Nada, na História, serve para ensinar aos Homens a possibilidade de viverem em paz.
 É o ensino oposto que dela se destaca - e se faz acreditar."

[Filósofo, escritor e poeta francês, 1871–1945]
 

domingo, 9 de outubro de 2016

"Véspera" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Véspera


Amor: em teu regaço as formas sonham 
o instante de existir: ainda é bem cedo 
para acordar, sofrer. Nem se conhecem 
os que se destruirão em teu bruxedo. 

Nem tu sabes, amor, que te aproximas 
a passo de veludo. És tão secreto, 
reticente e ardiloso, que semelhas 
uma casa fugindo ao arquiteto. 

Que presságios circulam pelo éter, 
que signos de paixão, que suspirália 
hesita em consumar-se, como flúor, 
se não a roça enfim tua sandália? 

Não queres morder célere nem forte. 
Evitas o clarão aberto em susto. 
Examinas cada alma. É fogo inerte? 
O sacrifício há de ser lento e augusto. 

Então, amor, escolhes o disfarce. 
Como brincas (e és sério) em cabriolas, 
em risadas sem modo, pés descalços, 
no círculo de luz que desenrolas! 

Contempla este jardim: os namorados, 
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo 
de teu capricho o hermético astrolábio, 
e perseguem o sol no dia findo. 

E se deitam na relva; e se enlaçando 
num desejo menor, ou na indecisa 
procura de si mesmos, que se expande, 
corpóreos, são mais leves do que brisa. 

E na montanha-russa o grito unânime 
é medo e gozo ingénuo, repartido 
em casais que se fundem, mas sem flama, 
que só mais tarde o peito é consumido. 

Olha, amor, o que fazes desses jovens 
(ou velhos) debruçados na água mansa, 
relendo a sem-palavra das estórias 
que nosso entendimento não alcança. 

Na pressa dos comboios, entre silvos, 
carregadores e campainhas, rouca 
explosão de viagem, como é lírico 
o batom a fugir de uma a outra boca. 

Assim teus namorados se prospectam: 
um é mina do outro; e não se esgota 
esse ouro surpreendido nas cavernas 
de que o instinto possui a esquiva rota. 

Serão cegos, autómatos, escravos 
de um deus sem caridade e sem presença? 
Mas sorriem os olhos, e que claros 
gestos de integração, na noite densa! 

Não ensaies de mais as tuas vítimas, 
ó amor, deixa em paz os namorados 
Eles guardam em si, coral sem ritmo, 
os infernos futuros e passados. 


in 'A Vida Passada a Limpo'


sábado, 8 de outubro de 2016

"A Rua das Rimas" - Poema de Guilherme de Almeida


Évariste Carpentier (1845-1922), Villégiature, 1890-95



A Rua das Rimas


A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: Rua da Felicidade...




sexta-feira, 7 de outubro de 2016

"Solitário" - Poema de Augusto dos Anjos



Frederik Sødring (Danish landscape painter, 1809–1862), 
 'Hohenschwangau Castle', 1843.


Solitário


Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-Velho caixão a carregar destroços

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!


Augusto dos Anjos, 
in 'Eu e outras poesias', 1912.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

"A minha família é a minha casa" - Texto de José Luís Nunes Martins



Johan Krouthén (Swedish artist, 1858–1932), Beach with bathing boys, 1906


A minha família é a minha casa


A solidão absoluta é não ter ninguém a quem dizer um simples: “tenho vontade de chorar”. Não precisamos de muito para viver bem – para ser feliz basta uma família e pouco mais.

A família é a casa e a paz. O refúgio onde uma vontade de chorar não é motivo de julgamento, apenas e só uma necessidade súbita de... família. De um equilíbrio para o qual o outro é essencial... assim também se passa com a vontade de sorrir que, em família, se contagia apenas pelo olhar.

Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais difícil encontrar gente capaz de ser família. Os egoísmos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se não houvesse espaço para o amor. Dizem que amar é arriscado, que é coisa de loucos...

Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de nós é uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos também está, de alguma forma, connosco. O amor é o que existe entre nós e nos enlaça os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar é um sinal de que há algo em mim que é maior do que eu... por vezes, nem preciso de chorar.... apenas a vontade me indica o caminho da humildade e do amor. Sozinho não consigo chegar a ser eu...

Uma verdadeira família é simples. É o lugar onde todos amam e protegem a intimidade de cada um. Ninguém é de uma família à qual não se entrega. Mas não é fácil, nunca. É preciso ser forte o suficiente para dizer não a um conjunto enorme de coisas que parecem muito valiosas, mas que não passam de ocas aparências de valor.

Há muita gente que gosta de complicar para fugir ao que é simples. Para que me serve um palácio se nele a minha solidão se faz ainda maior? Quantos desistem de lutar pelo amor com a desculpa de que o preço é alto e o prémio pode afinal não valer o esforço? Quantas vezes a falta de amor é vista como paz? 
A família é algo simples – puro – mas muitíssimo difícil de alcançar. Implica a renúncia constante aos artifícios do fácil e do imediato. Exige que nos concentremos num caminho longo que acreditamos (sem grandes provas) que é o único que nos pode elevar e levar ao céu.

Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama.

A paz resulta de um equilíbrio de elementos diferentes, com talentos e perspetivas distintos. Não através de um esforço de anulação do que é único de cada um, mas precisamente pela riqueza de o orientar rumo a um fim conjunto e harmonioso. Uma espécie de enriquecimento recíproco dos contrários. Promover o bem do outro não é fazer com que se torne semelhante a mim.

A minha casa é o lugar onde eu sou o outro a quem alguém pode expressar o seu “tenho vontade de chorar” sem que eu trace juízos de qualquer espécie, e que lhe faça sentir com o meu silêncio, dedicação e presença que a sua vontade já não é só sua... mas minha também.

A minha família é a minha casa. Até podemos ser apenas dois... mas é aí, e só aí, que posso ser feliz. Longe de casa estou sempre a caminho. O meu coração não descansa senão nos braços de quem tem vontade de sorrir e de chorar comigo. 

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"Letreiro" - Poema de Miguel Torga



James Taylor Harwood (American artist, engraver and art teacher, 1860–1940),
All the World's a Stage, Liberty Park, 1893


Letreiro


Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


Miguel Torga,
Orfeu Rebelde, 1958



James Taylor Harwood, Boys fishing on a summer day


"Algo só é impossível até que alguém duvida e acaba provando o contrário." 

Albert Einstein (1879–1955), Nobel de Física, 1921