segunda-feira, 6 de março de 2017

"A nuvem sobre a página" - Poema de António Ramos Rosa


Jarne Gissel (Danish, b. 1922 ), Woman reading, 1962


A nuvem sobre a página


Semelhante à imóvel 
transparência 
à inesgotável face 
à pedra larga onde o olhar repousa 

Água sombra e a figura 
azul quase um jardim por sob a sombra 
a iminência viva aérea 
de uma palavra suspensa 
na folhagem 

Semelhante ao disperso ao ínfimo 
chama-se agora aqui o sono da erva 
a ligeireza livre 
a nuvem sobre a página


in A Nuvem sobre a Página, 1978
Publicações Dom Quixote
 

sábado, 4 de março de 2017

"Pulsação" - Poema de António Barahona





Pulsação


Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d'árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sopro do seu sangue num coágulo.




sexta-feira, 3 de março de 2017

"Destino" - Poema de Almeida Garrett



Alexandre Cabanel (French painter, 1823–1889),
'Ruth gleaning in the field of Booz', 1868. 


Destino


Quem disse à estrela o caminho
Que ela há de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Floresce!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino.
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quarta-feira, 1 de março de 2017

"Poema de uma quarta-feira de cinzas" - Poema de Manuel Bandeira


Jean-Antoine Watteau (1684–1721), Arlequin, Pierrot and Scapin,  1716


Poema de uma quarta-feira de cinzas


Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça...

O seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa...
indiferente a tais ataques,

Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...


(do livro Carnaval, 1919)


Watteau's commedia dell'arte player of Pierrot, ca 1718–19, 
traditionally identified as "Gilles" (Louvre)


"Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se." 


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"Os Arlequins" (Sátira) - Poema de Machado de Assis


Paul Cézanne (Francês, 1839 - 1906), Arlequim, 1888-90,



Os Arlequins 
(Sátira)


Musa, depõe a lira! 
Cantos de amor, cantos de glória esquece! 
Novo assunto aparece 
Que o génio move e a indignação inspira. 
Esta esfera é mais vasta, 
E vence a letra nova a letra antiga! 
Musa, toma a vergasta, 
E os arlequins fustiga! 

Como aos olhos de Roma, 
— Cadáver do que foi, pávido império 
De Caio e de Tibério, — 
O filho de Agripina ousado assoma; 
E a lira sobraçando, 
Ante o povo idiota e amedrontado, 
Pedia, ameaçando, 
O aplauso acostumado; 

E o povo que beijava 
Outrora ao deus Calígula o vestido, 
De novo submetido 
Ao régio saltimbanco o aplauso dava. 
E tu, tu não te abrias, 
Ó céu de Roma, à cena degradante! 
E tu, tu não caías, 
Ó raio chamejante! 

Tal na história que passa 
Neste de luzes século famoso, 
O engenho portentoso 
Sabe iludir a néscia populaça; 
Não busca o mal tecido 
Canto de outrora; a moderna insolência 
Não encanta o ouvido, 
Fascina a consciência! 

Vede; o aspecto vistoso, 
O olhar seguro, altivo e penetrante, 
E certo ar arrogante 
Que impõe com aparências de assombroso; 
Não vacila, não tomba, 
Caminha sobre a corda firme e alerta: 
Tem consigo a maromba 
E a ovação é certa. 

Tamanha gentileza, 
Tal segurança, ostentação tão grande, 
A multidão expande 
Com ares de legítima grandeza. 
O gosto pervertido 
Acha o sublime neste abatimento, 
E dá-lhe agradecido 
O louro e o monumento. 

Do saber, da virtude, 
Logra fazer, em prémio dos trabalhos, 
Um manto de retalhos 
Que a consciência universal ilude. 
Não cora, não se peja 
Do papel, nem da máscara indecente, 
E ainda inspira inveja 
Esta glória insolente! 

Não são contrastes novos; 
Já vem de longe; e de remotos dias 
Tornam em cinzas frias 
O amor da pátria e as ilusões dos povos. 
Torpe ambição sem peias 
De mocidade em mocidade corre, 
E o culto das ideias 
Treme, convulsa e morre. 

Que sonho apetecido 
Leva o ânimo vil a tais empresas? 
O sonho das baixezas: 
Um fumo que se esvai e um vão ruído; 
Uma sombra ilusória 
Que a turba adora ignorante e rude; 
E a esta infausta glória 
Imola-se a virtude. 

A tão estranha liça 
Chega a hora por fim do encerramento, 
E lá soa o momento 
Em que reluz a espada da justiça. 
Então, musa da história, 
Abres o grande livro, e sem detença 
À envilecida glória 
Fulminas a sentença. 


 in 'Crisálidas', 1864


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"A canção das lágrimas de Pierrot" - Poema de Manuel Bandeira




A canção das lágrimas de Pierrot


A sala em espelhos brilha 
Com lustres de dez mil velas. 
Miríades de rodelas 
Multicores - maravilha! - 

Torvelinham no ar que alaga 
O cloretilo e se toma 
Daquele mesclado aroma 
De carnes e de bisnaga. 

E rodam mais que confete, 
Em farândolas quebradas, 
cabeças desassisadas 
Por Colombina ou Pierrete 

II 

Pierrot entra em salto súbito. 
Upa! Que força o levanta? 
E enquanto a turba se espanta, 
Ei-lo se roja em decúbito. 

A tez, antes melancólica, 
Brilha. A cara careteia. 
Canta. Toca. E com tal veia, 
com tanta paixão diabólica, 

Tanta, que se lhe ensanguentam 
Os dedos. Fibra por fibra, 
Toda a sua essência vibra 
Nas cordas que se arrebentam. 

III 

Seu alaúde de plátano 
Milagre é que não se quebre. 
E a sua fronte arde em febre, 
Ai dele! e os cuidados matam-no. 

Ai dele! e essa alegria, 
Aquelas canções, aquele 
Surto não é mais, ai dele! 
Do que uma imensa ironia. 

Fazendo à cantiga louca 
Dolorido contracanto, 
Por dentro borbulha o pranto 
Como outra voz de outra boca: 

IV 

- "Negaste a pele macia 
À minha linda paixão 
E irás entregá-la um dia 
Aos feios vermes do chão... 

"Fiz por ver se te podia 
Amolecer - e não pude! 
Em vão pela noite fria 
Devasto o meu alaúde... 

"Minha paz, minha alegria, 
Minha coragem, roubaste-mas... 
E hoje a minh'alma sombria 
É como um poço de lástimas..." 


Corre após a amada esquiva. 
Procura o precário ensejo 
De matar o seu desejo 
Numa carícia furtiva. 

E encontrando-o Colombina, 
Se lhe dá, lesta, à socapa, 
Em vez de beijo um tapa, 
O pobre rosto ilumina-se-lhe! 

Ele que estava de rastros, 
Pula, e tão alto se eleva, 
Como se fosse na treva 
Romper a esfera dos astros!...


in Carnaval, 1919



Frank Xavier Leyendecker (American, 1877-1924), Arlequim e Colombina



O Carnaval 

O Carnaval é uma festa de origem católica. Entre os egípcios havia as festas de Ísis e do boi Ápis; entre os hebreus, a festa das sortes; entre os gregos, as bacanais; em Roma, as lupercais, as saturnais. Festins, músicas estridentes, danças, disfarces e licenciosidade formavam o fundo destes regozijos. Pelo seu lado, os gauleses tinham festas análogas, especialmente a grande festa do inverno a que é marcada pelo adeus à carne que a partir dela se fazia um grande período de abstinência e jejum, como o seu próprio nome em latim "carnis levale" o indica. Para a sua preparação havia uma grande concentração de festejos populares. Cada lugar e região brincava a seu modo, geralmente de uma forma propositadamente extravagante, de acordo com seus costumes.

Pensa-se que terá tido a sua origem na Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C, através da qual os gregos realizavam seus cultos em agradecimento aos deuses. Passou a ser uma comemoração adotada pela Igreja Católica em 590 d.C. antes da Quaresma.

É um período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo da Idade Média. O Carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo. Cidades como Nice, Santa Cruz de Tenerife, Nova Orleans, Toronto e Rio de Janeiro se inspiraram no Carnaval parisiense para implantar suas novas festas carnavalescas. Já o Rio de Janeiro criou e exportou o estilo de fazer carnaval com desfiles de escolas de samba para outras cidades do mundo, como São Paulo, Tóquio e Helsínquia.

O Carnaval do Rio está atualmente no Guinness Book como o maior Carnaval do mundo, com um número estimado de 2,5 milhões de pessoas por dia nos blocos de rua da cidade. Em 1995, o Guinness Book declarou o Galo da Madrugada, da cidade do Recife, como o maior bloco de carnaval do mundo. (Daqui)


Hieronymus Francken I (1540-1610), Carnaval em Veneza1565


domingo, 26 de fevereiro de 2017

"As Máscaras" - Poema de Menotti Del Picchia


André Derain (França, 1880-1954), Arlequim e Pierrot, 1924


As Máscaras 


— O teu beijo é tão quente, Arlequim
— O teu sonho é tão manso, Pierrot 

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo…
e a Pierrot a minha alma! 

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrot tristonho,
pois um dá-me o prazer,
o outro dá-me o sonho! 

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
um me fala do céu… outro fala da terra! 

Eu amo, porque amar é variar,
e em verdade, toda a razão do amor
está na variedade… 

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente. 

Porque a história do amor
só pode escrever-se assim:
um sonho de Pierrot…
e um beijo de Arlequim! 


(O poema é baseado na fala final de Colombina em 'Máscaras', 1920)


André Derain'Danse bachique', 1906


“O carnaval. A festa onde os tabus perdem força e as permissões tornam-se hiperbólicas.”