quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

"Aceitarás o amor como eu o encaro?" - Poema de Mário de Andrade


Alberto da Veiga Guignard, 'Vaso de Flores', 1930



Aceitarás o amor como eu o encaro?


Aceitarás o amor como eu o encaro?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.


 

"Vida da minha alma" - Poema de Hilda Hilst


Baptista Gariglio Filho, Vista de Ouro Preto com Igreja do Pilar, 2011



Vida da minha alma

I

Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças

Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias

E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.

II

Que dor desses calendários
Sumidiços, fatos, datas
O tempo envolto em visgo
Minha cara buscando
Teu rosto reversivo.

Que dor no branco e negro
Desses negativos
Lisura congelada do papel
Fatos roídos
E teus dedos buscando
A carnação da vida.

Que dor de abraços
Que dor de transparência
E gestos nulos
Derretidos retratos
Fotos fitas

Que rolo sinistroso
Nas gavetas.

Que gosto esse do Tempo
De estancar o jorro de umas vidas.

III

Se a tua vida se estender
Mais do que a minha
Lembra-te, meu ódio-amor,
Das cores que vivíamos
Quando o tempo do amor nos envolvia.
Do ouro. Do vermelho das carícias.
Das tintas de um ciúme antigo
Derramado
Sobre o meu corpo suspeito de conquistas.
Do castanho de luz do teu olhar
Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores:
Estrias de um verde-cinza que tocávamos.

E folhas da cor das tempestades
contornando o espaço
De dor e afastamento.

Tempo turquesa e prata
Meu ódio-amor, senhor da minha vida.
Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade.


In: Cantares de perda e predileção, 1983


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

"Ai dos que vivem, se não fora o sono!" - Poema de Alphonsus de Guimaraens


Rosalba Carriera, Spring, c. 1725


Ai dos que vivem, se não fora o sono!

VIII

Ai dos que vivem, se não fora o sono!
O sol, brilhando em pleno espaço, cai
Em cascatas de luz; desce do trono
E beija a terra inquieta, como um pai.

E surge a primavera. O áureo patrono
Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai
Da primavera, se não fora o outono,
Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.

Ao níveo luar que vaga nos outeiros
Sucedem sombras. Sempre a lua tem
A escuridão dos sonhos agoureiros.

Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte…
Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.
Mas ai da vida, se não fora a morte!


em “Obra completa”


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"Mediocridade" - Poema de Jules Laforgue


Johan Christian Dahl, View of St. Olav’s Church at Avaldsnes, 1820


Mediocridade 


No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saudam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o seu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.


em "Litanias da lua. Jules Laforgue"
Tradução de Régis Bonvicino.


Johan Christian Dahl, Copenhagen Harbour by Moonlight, 1846


"Só o amor, e não a razão, é mais forte do que a morte."

domingo, 4 de fevereiro de 2018

"O cavalo e a estrela" - Poema de Matilde Rosa Araújo



Edgar Degas (French Impressionist artist, 1834–1917),
'At the Stables, Horse and Dog', c. 1862



O cavalo e a estrela


Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também. 

Era uma vez um pastor
No abrigo de uma serra,
Chamada Serra da Estrela
Quase no cabo da terra. 

No Inverno a neve branca
O chão da serra cobria
E naquela solidão
O pastor assim vivia. 

As ovelhas em seu redor
Faziam uma roda mansa:
Eram mantas de ternura
Numa roda que não cansa.

Para as ovelhas guardar
- Que os lobos matam rebanhos!
O pastor tinha um cão
De meigos olhos castanhos.

Havia silêncio na serra,
Tudo na serra dormia,
Quando apareceu um cavalo
A correr na noite fria.

Caía o luar na serra
Tudo na serra luzia,
Quando apareceu o cavalo
A correr na serra fria.

Foi acordado o pastor,
Ladrou o seu cão fiel,
E ali parou o cavalo,
Castanho da cor do mel.

Caía o luar na serra
E o cavalo ali parado:
Não era um lobo feroz,
Não era um lobo esfaimado.

Caiu uma estrela ardente
Na sua cabeça tão fina:
Eram os olhos mais azuis
Como a água de uma mina.

Brilhava de mansidão
O seu olhar sem sossego
E à lembrança do pastor
Vem a água do Mondego.

Começa o filho a falar:
- Sou filho da Primavera
E eu vim anunciar
Que ela está na serra à espera. 

Esta estrela, sobre a testa,
Queima meu corpo de mel,
Cega meus olhos azuis
Numa fogueira cruel.

Adeus pastor, meu amigo,
Fica com o teu cão, teu gato,
Já podes sair do abrigo,
Eu já te dei o recado.

O pastor tinha uma flauta
Onde seu sonhar dormia
E tocou-a de madrugada
Com cristais de neve fria. 

E o cavalo correu, voou,
Ganhou asas a arder:
O cavalo cor de mel
Era a manhã a nascer.

Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.


Matilde Rosa de Araújo
[Escritora portuguesa, especializada em literatura infantil, 1921–2010]
 
 
Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.

Era uma vez um pastor
No abrigo de uma serra,
Chamada Serra da Estrela
Quase no cabo da terra.

No Inverno a neve branca
O chão da serra cobria
E naquela solidão
O pastor assim vivia.

As ovelhas em seu redor
Faziam uma roda mansa:
Eram mantas de ternura
Numa roda que não cansa.

Para as ovelhas guardar
- Que os lobos matam rebanhos!
O pastor tinha um cão
De meigos olhos castanhos.

Havia silêncio na serra,
Tudo na serra dormia,
Quando apareceu um cavalo
A correr na noite fria.

Caía o luar na serra
Tudo na serra luzia,
Quando apareceu o cavalo
A correr na serra fria.

Foi acordado o pastor,
Ladrou o seu cão fiel,
E ali parou o cavalo,
Castanho da cor do mel.

Caía o luar na serra
E o cavalo ali parado:
Não era um lobo feroz,
Não era um lobo esfaimado.

Caiu uma estrela ardente
Na sua cabeça tão fina:
Eram os olhos mais azuis
Como a água de uma mina.

Brilhava de mansidão
O seu olhar sem sossego
E à lembrança do pastor
Vem a água do Mondego.

Começa o filho a falar:
- Sou filho da Primavera
E eu vim anunciar
Que ela está na serra à espera.

Esta estrela, sobre a testa,
Queima meu corpo de mel,
Cega meus olhos azuis
Numa fogueira cruel.

Adeus pastor, meu amigo,
Fica com o teu cão, teu gato,
Já pode ssair do abrigo,
Eu já te dei o recado.

O pastor tinha uma flauta
Onde seu sonhar dormia
E tocou-a de madrugada
Com cristais de neve fria.

E o cavalo correu, voou,
Ganhou asas a arder:
O cavalo cor de mel
Era a manhã a nascer.

Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.


Ler mais: http://poesia-portguesa-no-feminino.webnode.pt/products/o-cavalo-e-a-estrela/

"Sabedoria" - Poema de Yeda Prates Bernis



Charles Courtney Curran (American impressionist painter, 1861–1942),
The Cabbage Field, 1914.



Sabedoria

Aborrecem-me as mulheres de lantejoulas
e as coroadas com tiaras de diamantes.
Nem mesmo invejo as que muito leram
e extraíram dos livros o sumo
da desesperança
ou as que misturaram palavras,
pincéis e pautas
às linhas de suas vidas.

Fascinam-me as mulheres do campo
que acordam de madrugada,
coam café com rapadura
para os maridos e lavram a terra
com enxada, suor e amor,
ou as lavadeiras de beira-rio
quarando suas roupas com canções
e coração:
sábias, não meditam sobre a fugacidade
das horas, fazem de cada instante
a doação perfeita, a morte é sua
verdade sem temência
e suas vidas são plenas
como árvore absorvendo o sol das manhãs.




Charles Courtney Curran, After the Storm, c. 1916-1919, Private collection


"A arte do descanso é uma parte da arte de trabalhar."


(John Steinbeck)


sábado, 3 de fevereiro de 2018

"A fruta aberta" - Poema de Thiago de Mello


Jacobus Hendrik Pierneef, Hardkoolbome - Bosveld, 1945



A fruta aberta


Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore 
plantada bem alta no meio da minha vida.

Agora sei as coisas como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.

Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.

Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi 
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.


(Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962).
 em "Faz escuro mas eu canto