domingo, 8 de outubro de 2017

"Ave-Maria" - Poema de Fernando Pessoa



Enguerrand Quarton ou Charonton (French painter and manuscript illuminator,
c.1410– c.1466)), 'Coronation of the Virgin', 1452
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Ave-Maria

À minha mãe 
 
Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura.

Vós que sois cheia de graça,
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa.

O Senhor, que é vosso filho
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho. 

Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra;
A vossa alma só encerra
Doce imagem de alegria.

Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe,
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!

Gloriosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus,
Velai por mim cada dia.

Rogai por nós pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores.

Rogai, agora, oh Mãe querida
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida.

Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura.

12-4-1902

Fernando Pessoa, in 'Poesias', 1942;
Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa.
Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.
 

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