terça-feira, 31 de março de 2026

"O Tango" - Poema de Jorge Luis Borges



Marthe Donas (Belgian abstract and cubist painter, 1885–1967),
"Le Tango", 1920.
 

O Tango


Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, pra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Jorge Luis Borges, in Poemas Escolhidos
Edição bilingue. Seleção e Trad. de Ruy Belo.
Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47.

segunda-feira, 30 de março de 2026

"Interiorano" - Poema de Armindo Trevisan



Lars Lerin (Swedish artist, author, painter, television personality
and presenter, b. 1954), "At Home", 2011. Watercolor on Paper,
Private Collection.



Interiorano


Chorei a primeira vez
quando meu gato morreu
atropelado na rua fronteira
à minha casa.

Foi a primeira vez que chorei
com liberdade – não
infringindo hábitos
sociais.

Chorei porque meu gato
morreu e compreendi,
naquele instante sem futuro,
que qualquer ser vivo valia
mais do que a sabedoria
dos homens que legislam
sobre a vida.

Hoje, sinto-me solitário
na vastidão do planeta!

Parece-me que os gatos
desapareceram, ou foram adotados
por homens, que se converteram
em seus algozes
e, mais frequentemente,
em nossos algozes. 


Armindo Trevisan
,
in "O Relincho do Cavalo Adormecido"
L&PM Editores. Porto Alegre, 2013.
 

domingo, 29 de março de 2026

"Os Espelhos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955), Reflections, 1915.



Os Espelhos 
 

Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos refletem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo.


Sophia de Mello Breyner Andresen
 in Geografia, 1967.
 

"As raparigas lá de casa" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

 

 
Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917), 
The Two Sisters, 1895. Oil on canvas.

As raparigas lá de casa


Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa. 


Emanuel Félix Borges da Silva,
in "Habitação das Chuvas", 1997.


sábado, 28 de março de 2026

"Pax" - Poema de D. H. Lawrence

 


Ernest Biéler
(Swiss painter, draughtsman and printmaker, 1863–1948),
Portrait de l'ecrivain Édouard Rod (1857–1910), 1909.


Pax


Tudo o que importa é estar em paz com o Deus vivo,
ser uma criatura na morada do Deus da vida.

Como um gato dormindo na cadeira
em paz, tão em paz,
de bem com o dono da casa, com a dona,
em casa, à vontade, na casa dos vivos,
dormindo junto à lareira, bocejando ao pé do fogo.

Dormindo junto à lareira do mundo vivo,
bocejando no lar ao pé do fogo da vida,
sentindo a presença do Deus vivo
como uma imensa segurança,
profunda calma no coração,
uma presença,
como a do dono da casa, sentado à mesa
na plenitude de seu ser,
na morada da vida.


D. H. Lawrence (1885-1930), in "Last poems", 1932
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes


"Rumor de água" - Poema de Carlos de Oliveira



Túllio da Costa Victorino (Pintor naturalista português, 1896-1969),
Lavadeiras - Tomar, 1944.


 Rumor de água


Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refratada.

A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada.


Carlos de Oliveira, in "Colheita Perdida",
Casa Minerva, 1948.
 
 
Pinturas de Túllio da Costa Victorino

Túllio da Costa Victorino, Lavadeiras no regato, 1963.
 
 

Túllio da Costa Victorino, Paisagem, 1941.


Túllio da Costa Victorino, Casa com figuras, s.d.
 
 
Túllio da Costa Victorino, Ribeira do Porto, 1943. 


Perguntou-se a José Saramago:
– Como podem homens sem Deus serem bons?
Sua resposta foi:
– Como podem homens com Deus serem tão maus?


José Saramago, em Entrevista, 2009.
 

sexta-feira, 27 de março de 2026

"C..." - Poema de Júlio Dinis


(Spanish painter, 1848–1910), Dama en el parque, 1894.


C...


Não meças o amor pelo tempo que dura;
Ontem amei-te mais nessa hora tão ligeira,
Senti maior prazer, gozei maior ventura,
Do que se ao pé de ti passasse a vida inteira.

Deixa que esta paixão termine com o dia,
Efémera recém-nascida à madrugada,
E que ao cair do sol, nessa hora de poesia,
Deixou pender no chão a fronte desfolhada.

Fiquemos sempre assim, um ao outro ignorados
Nestas vagas regiões duma paixão nascente.
Sigamos cada um caminhos separados;
Com uma hora de amor a alma é já contente.

Lisboa, 1869.

Júlio Dinis, Poesias, 6º volume das "Obras Completas",
Lisboa, Círculo de Leitores, 1992.

 
Lady with a Parasol, 1880/8. Fundación Banco Santander.


O teu amor era falso,
Teve pouca duração.
Mas deixou mágoas eternas
No meu pobre coração.


Júlio Dinis, 
in "Justiça da sua Majestade", 1858.
 
 

"A Mocidade" - Poema de Olavo Bilac

 


Viggo Johansen
(Danish painter, 1851-1935), Children Painting Spring Flowers, 1894.
Skagens Museum


A Mocidade 


A mocidade é como a primavera!
A alma, cheia de flores resplandece,
Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,
E a desventura facilmente esquece.

É a idade da força e da beleza:
Olha o futuro, e inda não tem passado:
E, encarando de frente a Natureza,
Não tem receio do trabalho ousado.

Ama a vigília, aborrecendo o sono;
Tem projetos de glória, ama a Quimera;
E ainda não dá frutos como o outono,
Pois só dá flores como a primavera!


Olavo Bilac
, em Poesias Infantis, 1904.
 

quinta-feira, 26 de março de 2026

"O mar e o canavial" - Poema de João Cabral de Melo Neto



Sir Arthur Streeton (Australian landscape painter and a leading member of the Heidelberg School,
1867-1943), Ariadne, 1895, National Gallery of Australia.


O mar e o canavial


O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial sim aprende do mar;
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.


João Cabral de Melo Neto
in "A educação pela pedra", 1966.


Sir Arthur Streeton, Oblivion, 1892, Private collection.
 
 
"Eu não sei o que o amanhã trará." 

"I know not what tomorrow will bring."


Fernando Pessoa (Lisboa, 13/06/1888 — Lisboa, 30/11/1935)



A curiosa e inquietante última frase escrita por Fernando Pessoa (daqui)
 

Fernando Pessoa morre no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, de uma crise hepática. Era o início de uma noite de sábado.

Dá entrada no hospital na véspera da partida. E são dessa data (29 de novembro) as suas últimas palavras escritas: 

«I know not what tomorrow will bring.» [não sei o que o amanhã trará.] 

Tinha 47 anos.

Quando morreu Fernando Pessoa deixou publicada uma décima parte da sua obra: 35 Sonnets (1918), Antinous (1918), English Poems (1921), O Interregno: defeza e justificação da dictadura militar em Portugal (1928), Mensagem (1934) e uma série de escritos dispersos por algumas revistas, como a Orpheu — da qual foi o fundador.

Só mais tarde se descobriu que Fernando Pessoa deixou uma herança inestimável para o país e, sobretudo, para a Língua Portuguesa: uma arca com mais de 27 000 manuscritos inéditos.

A vasta obra, deixada inédita, só começou a ser editada em 1942, por iniciativas de Luís de Montalvor e de João Gaspar Simões.

Apenas em 1968 começou o inventário da sua famosa arca. Portugal começava então a aperceber-se da dimensão e da magnitude da obra pessoana. O mundo descobriu isso depois. E pasmou-se.

Em 1985, por ocasião dos 50 anos da morte do poeta, a sua obra entra em domínio público. Nesse ano, e nos seguintes, o mercado do livreiro (nacional e internacional) mostrou um verdadeiro interesse pelo poeta. Porém, em 1997, ao abrigo da diretiva da União Europeia (que fixava em 70 anos após a morte, o período de vigência dos direitos de autor) a editora Assírio e Alvim comprou aos herdeiros os direitos de edição — medida que viria a causar celeuma entre os editores de todo o mundo.

Em 2005, cumpridos os 70 anos da morte do poeta, a sua obra entra definitivamente em domínio público. Fernando Pessoa passou a ser livre outra vez e consagrou-se como um dos nomes maiores da literatura universal.

Em setembro de 2009, pelo Decreto n.º 21/2009, de 14 de setembro, o espólio documental de Fernando Pessoa foi classificado como «bem de interesse nacional», passando a designar-se o espólio do escritor como «tesouro nacional».

Entre outros títulos a Imprensa Nacional dedica-lhe a coleção «Edição Crítica de Fernando Pessoa», sob a coordenação do Professor Ivo Castro, a coleção de ensaios «Pessoana» e o primeiro volume da coleção infantojuvenil «Grandes Vidas Portuguesas». (daqui)

"Canção do Caminho" - Poema de Cecília Meireles


 
Albert Lynch (French painter of German and Peruvian ancestry, 1860–1950),
Portrait of a Young Woman, 1890.


Canção do Caminho


Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!

Ah! mas logo ali adiante
- tão perto! -
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.

(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)


Cecília Meireles
, in "Vaga música", 1942.


 
"Vaga Música" de Cecília Meireles.
 Editora Global

 
SINOPSE

Em Vaga música, traços que se tornariam emblemáticos da obra poética de Cecília Meireles atingem um importante ponto de amadurecimento. Aqui, a fugacidade do tempo e a precariedade da existência são tenazmente perseguidas. Cecília trilha um profundo percurso pelas inquietações humanas mais triviais, abalando em muitos momentos as nossas mais sólidas certezas. A profusão de interrogações em boa parte dos poemas insinua o caminho escolhido pela autora para tocar a complexa sinfonia da vida: é preciso indagar para se encontrar no mundo. Para tal exercício, a modinha, a canção e a cantiga são algumas das formas poéticas aqui magistralmente orquestradas. Com efeito, a musicalidade latente é um dos elementos deste livro que, publicado em 1942, é considerado um dos momentos mais altos da lírica brasileira.
Como se estivesse em vigília no espírito humano, a autora parece posicionar-se à espreita de qualquer vestígio de perenidade para desnudá-lo, a fim de revelar sua essência mutável. (daqui)
 

quarta-feira, 25 de março de 2026

"Fui criança, indo por um carreiro" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
By the Sea, 1864.

Fui criança, indo por um carreiro


Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insetos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insetos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "Cenas Vivas",
Relógio d’Água, 2000.


 
Claude Monet, On the Coast at Trouville, 1881.



"Os grandes artistas não têm pátria." 

Alfred de Musset
(Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857) 
 

"As Fontes" - Poema de Sebastião da Gama

 


André Derain (Peintre, graveur, illustrateur, sculpteur et écrivain français, 18801954),
Mountains at Collioure,
1905, National Gallery of Art.


As Fontes


Havia fontes na montanha.
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,...
beijavam só as veias da montanha.

Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia.

Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-se nesse momento claridade.

Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.

Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas...

Cantavam as minhas mãos, cantavam as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de Sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascia.

(Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai os que já perderam a coragem
de reclamar a sua conta de água!
Ai a mágoa
que lhes era meu hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)

Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo...

Mas a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha...


Sebastião da Gama (19241952) 



André Derain, View of Collioure, 1905.


"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis,
vales de silêncio e paraísos secretos."


Antoine de Saint-Exupéry
[Escritor, ilustrador e piloto francês (1900–1944), internacionalmente reconhecido pelo seu livro "O Principezinho"]
 
 
 
Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos.” — Antoine de Saint-Exupéry

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/580719-antoine-de-saint-exupery-em-cada-um-de-nos-ha-um-segredo-uma-paisagem-inte/

terça-feira, 24 de março de 2026

"O Gato" - Poema de Mário Quintana


 
Gertrude Abercrombie (American painter, 1909–1977), White Cat, c. 1938,
Smithsonian American Art Museum.


O Gato


O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... hesita... avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.


Mário Quintana (19061994),
in "Preparativos de Viagem", 1987.
 
 

Gertrude Abercrombie, Self-Reflection, 1953.

Gertrude Abercrombie (Austin, 17 de fevereiro de 1909 - Chicago, 3 de julho de 1977) foi uma pintora norte-americana radicada em Chicago. Chamada de "a rainha dos artistas boêmios", Abercrombie estava envolvida na cena jazzística de Chicago e era amiga de músicos como Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Sarah Vaughan, cuja música inspirou seu próprio trabalho criativo. (daqui)
 


Gertrude Abercrombie, "Doors And Two Cats", 1956.
 

"Os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões". 

Robertson Davies
(Escritor e jornalista canadiano, 19131995) (daqui)
 
 

Gertrude Abercrombie, "Demolition Doors", 1964, Illinois State Museum.


"Os gatos conseguem sem fadiga aquilo que continua a ser negado ao homem: atravessar a vida silenciosamente."

Atribuída a Ernest Hemingway (Escritor norte-americano, 18991961)
 
 
 
Gertrude Abercrombie, Blue Screen, 1945.


«A filosofia, que se faz passar por cura, é sintoma da perturbação que finge solucionar. Os outros animais não precisam de se distrair da sua condição. Nos humanos a felicidade é um estado artificial, nos gatos é sua condição natural. Os gatos nunca se aborrecem, a não ser que estejam confinados em ambientes que não lhes sejam naturais. O tédio é o medo de ficarmos sozinhos connosco. Os gatos sentem‑se felizes a ser gatos, os humanos tentam ser felizes a fugir de si.»

John Gray, in Filosofia Felina – Os Gatos e o Sentido da Vida. (daqui)



"Filosofia Felina — Os Gatos e o Sentido da Vida" de John Gray
Tradução de Nuno Quintas. Revisão de Helder Guégués.
Edição da Editorial Presença, 2021



SINOPSE

«Os seres humanos não se podem transformar em gatos. Contudo, se puserem de lado uma qualquer ideia que tenham da sua superioridade enquanto seres humanos, talvez consigam entender como os gatos prosperam sem andarem com interrogações agitadas sobre como viver.»

Nada prova que nós, humanos, tenhamos domesticado os gatos. Na verdade, tudo aponta para que tenham sido os gatos a perceber, em dado momento, o valor que os seres humanos podiam ter para eles. No seu novo livro, John Gray, um dos nomes maiores da filosofia atual, convida-nos a embarcar numa viagem pela história - filosófica e moral - da nossa relação com estes magníficos animais. A partir dos mais variados exemplos ao longo dos séculos, de Montaigne a Schopenhauer, Filosofia Felina revela-nos o fascínio e a complexidade por detrás dos nossos comportamentos e reações perante este inesperado animal de companhia.

É aos gatos, diz-nos John Gray, que devemos estar agradecidos, pois são talvez - e mais do que qualquer outra - a espécie que melhor traduz a nossa própria natureza animal. (daqui)
 
 

segunda-feira, 23 de março de 2026

"Março" - Poema de Alice Neto de Sousa

  

Rafał Olbiński (Polish illustrator, painter, and educator, living in the
United States, b. 1943), 'Interpretation of Habits', 2008.

 
Março


Caem chuvas de março sobre a cidade,
E digo este poema meio que sem vontade,
Porque me treme a voz em pensar em Liberdade.

Da janela, vejo os pássaros a arranhar os céus,
A cair em voos picados,
E percebo que mais vale falar do que silêncios entornados
Porque o silêncio, é como este entardecer
É como o início da dor, quando começa a doer
É uma liberdade tísica a querer gritar
E tudo quanto se ouve é oco
De tanto que nos ensinaram a calar
Quem é que ainda sabe falar?
Quem ressuscita um pássaro morto?

Sou livre, digo a rodopiar por baixo da chuva
A acender um maço,
A grafitar liberdade,
A tatuar um pássaro no meio do braço,

Porque as chuvas que me caem ainda são de março,
e algo me chove a mais dentro do peito,
como se os cravos se fossem murchar,
como se a liberdade fosse este vento,
como se nos quisessem calar,
como se nos faltasse sangue no peito.

Caem chuvas de março, sobre os meus pés descalços,
As pétalas que me mancham são de abril
Eu disse, as pedras que me mancham são de mil
Que a liberdade, que vejo da janela
É um estado líquido aquoso,
É mais um desempregado,
É mais um vento, ventoso,
São os sem abrigo parados no Chiado,
É pintar os lábios a vermelho
É vestir uma farda, mascarar um país inteiro,
É o som da colher a aquecer na esquina,
É mais o tacho a raspar de uma família,
A liberdade, é uma utopia
E, eu sei, sou poeta e tenho miopia,
Mas de onde vejo não somos todos iguais,
Que as chuvas que molham uns,
Silenciam todos os demais.

A Liberdade,
É a trincheira dos meus dias,
É dispersar as multidões em continência,
É um chorar sinuoso como a calçada,
É abraçar as mães, os pais, os filhos, as filhas, a madrugada.
É um vai ficar tudo bem,
Com certeza de quase nada.
E não só de pão e água e se faz um continente,
É preciso terra, é preciso dar uma alma a toda a gente,
Que a liberdade é muito mais do que uma mensagem secreta,
Uma indireta, escondida no meio do poema,
E não é sobre política,
É sobre ser poeta, é sobre ser poeticamente correta.
Porque caem chuva de março sobre a cidade,
E algo me chove a mais dentro do peito,
O tempo é de cortar a respiração,
A apneia que sinto é a de pensar
As pétalas que me murcham são de abril
Eu disse, as pedras que me murcham são de mil
Caem chuvas de março sobre abril.

Com o tejo preso nos olhos,
Continuo a tentar entender,
Como o medo zigzagueia o passo,
Como se envelhecem as peles no cansaço,
É esta a mesma luta que começamos há anos atrás?
Ia jurar que estes marços me sabem a todos iguais.

Cai o maço, raso na janela,
Já se ouvem as canções,
Os pássaros da primavera,
Dá-me um cravo na boca para recomeçar,
Que mesmo com os corações desafinados,
Vamos marchar, marchar, marchar.


Alice Neto de Sousa, "Março".

[Poema original "Março" da autoria de Alice Neto de Sousa, escrito a propósito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, apresentado no dia 23 de março de 2022, no Pátio da Galé situado na Praça do Comércio (Terreiro do Paço) na Baixa de Lisboa.]
 


Rafał Olbiński, 'Violin and birds', 2019.



"A arte é uma forma de crescimento para a liberdade, um caminho para a vida."

Fayga Ostrower
Citado em "Arte é o que eu e você chamamos arte" - Página 42, de Frederico Morais
Publicado por Editora Record, 2002.

domingo, 22 de março de 2026

"Voz e Aroma" - Poema de Almeida Garrett


 
Carl Strathmann (German painter in the Art Nouveau and Symbolist styles,
 1866-1939), "The Farmhouse", 1912.


Voz e Aroma


A brisa voga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar...

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.


Almeida Garrett,
in "Folhas Caídas", 1853.
 
 
Carl Strathmann, "Frühling" (Primavera), 1906.


"A neve e a tempestade matam as flores, mas nada podem contra as sementes."


Khalil Gibran, Spirits rebellious - página 59,
Anthony Rizcallah Ferris, Martin L. Wolf - Philosophical Library, 1947.

 

sábado, 21 de março de 2026

"As Andorinhas" - Poema de Tomás da Fonseca




As Andorinhas


Chegaram as andorinhas,
foi-se a noite e veio o dia!
Ó aves, saudades minhas,
asas brancas, levezinhas,
há quanto que eu vos não via!

Foi-se do inverno a tristeza,
veio o sol da primavera…
Ter assim tanta leveza,
ver, voando, a natureza,
vida minha, quem te dera!

Viver alto em revoadas,
fazer ninho nos beirais,
e ir convosco, aves amadas,
bem longe d’encruzilhadas
onde não voltasse mais…

Ser pequenino também
e leve como uma asa!...
Não querer mal a ninguém,
viver como filho e mãe,
nesse ninho – a nossa casa…

Velar no céu como vela
a águia que as nuvens fende…
Ver a terra a fugir dela,
porque a vida só é bela
quando do chão se desprende!

Eu voando, elas voando,
entre nuvens nas alturas…
Onde terei, como e quando,
sonho que assim vá sonhando,
bem que assim me dê ventura?

Ó andorinha palreira,
alegria dos casais,
dava a minha vida inteira
para ser asa ligeira
e ir contigo onde tu vais…

Onde tu vais, andorinha,
Que me trouxeste a alegria!
Ó ave, saudade minha,
asa branca, levezinha,
que há tanto tempo não via!


Tomás da Fonseca, in Musa pagã.
Lisboa, Livraria Portugália, 1920.



Tomás da Fonseca na biblioteca da sua casa de Mortágua, década de 50. (daqui)


Tomás da Fonseca  
[Laceiras, Mortágua, 1877 - Lisboa, 1968]  
«É o escritor anticlerical português de maior renome», conclui Lopes de Oliveira – como ele natural de Mortágua e seu companheiro, pelo menos desde a revista Risos e Lisos (Coimbra, 1897) – ao prefaciar-lhe um livro, em 1949.

Poeta, ficcionista, historiógrafo, jornalista, militante e panfletário republicano, deputado e professor, Tomás da Fonseca é conhecido sobretudo pelas suas obras de vincada feição anticlerical, sendo ignorada quase por completo toda a sua intervenção noutros domínios, nomeadamente a infatigável ação que desenvolveu em prol da instrução e da cultura ao longo de várias décadas.

Oriundo de uma família de pequenos proprietários rurais, mais rica em prole do que em fazenda (era o segundo entre sete irmãos), para frequentar a escola primária móvel, implantada havia pouco na sua região, era obrigado todos os dias a fazer uma caminhada de ida e volta de 10 quilómetros. Aos 17 anos, peito largo e musculatura rija adquiridos ao leme do arado e do alvião coube a Tomás da Fonseca ser o escolhido pelos progenitores, de entre os quatro filhos varões, para seguir a vida eclesiástica, assim se restabelecendo a tradição da linhagem de contar com um padre na família. Deste modo, entrou para o Seminário de Coimbra, o qual viria a abandonar em 1903, após um prolongado e doloroso debate no interior de uma consciência seduzida pela grandeza da doutrina mas revoltada com a perversidade e a mesquinhez da sua pátria quotidiana.

Seguindo, resolutamente, a exortação do geógrafo e racionalista Elisée Reclus, a quem se dirigirira para lhe expor o dilema religioso com que se debatia e a pedir-lhe conselho. T. da Fonseca renunciou por fim aos propósitos que então o animavam («ordenar-me e depois insurgir-me contra tudo quanto a Igreja tem de absurdo e revoltante, dando assim realidade ao personagem de Zola, o abade Pierre Frement», conforme logo após confessou no seu livro Evangelho dum Seminarista), assumindo como norma imperativa da sua vida o conselho recebido daquele sábio e libertário francês: «Sois um homem do povo, ficai com os homens do povo, combatei ao seu lado, camarada sem título nem insígnia, um igual e um livre, ao lado dos iguais e dos livres.»

Participante ativo – pela pena e pela palavra, nos jornais, nos comícios e em conferências – na ininterrupta ação política que iria conduzir alguns anos depois ao derrube da Monarquia portuguesa; deputado e mais tarde senador pelo distrito de Viseu, desde as Constituintes até 1917; chefe de gabinete do ministro do Fomento do Governo Provisório, Dr. António Luís Gomes; preso político na Penitenciária de Coimbra durante dois meses, em consequência das posições tomadas por si e por outros republicanos de Santa Comba Dão contra o consulado sidonista; resistente até ao final da vida ao regime do Estado Novo, que, em 1947, o encarcerou na prisão do Aljube, em Lisboa, por ter protestado contra a continuidade do Campo do Tarrafal – nada disto impediu, porém, o seu constante labor de paladino da instrução e da cultura do povo português, durante anos a fio, desde que à instrução e à educação decidiu dedicar a maior parte da sua longa vida.

A par dos seus escritos sobre a educação e o ensino, das visitas de estudo que empreendeu a escolas, museus e bibliotecas francesas, belgas e inglesas e da polémica travada no jornal O Mundo com João de Deus Ramos (1917) acerca do ensino religioso nas escolas, a par disto, Tomás da Fonseca consagrou-se com idêntico ardor à ação pedagógica direta. Na verdade, grande impulsionador do movimento das escolas móveis, percorreu o distrito do Viseu a pregar a boa nova da alfabetização pelo método de João de Deus (Cartilha Maternal); interveio na reforma do ensino primário e normal empreendida pelos governos republicanos (1912); apresentou ao Parlamento em 1916 um projeto de lei sobre a instrução primária (Lei nº. 429); incentivou e dinamizou, no âmbito das suas funções de deputado, a criação das comissões «Amigos da Escola», nomeadamente no seu distrito, cujos concelhos de Mortágua e Tondela percorreu em 1914, deslocando-se a todas as escolas móveis para instalar as referidas comissões; elaborou, em 1922, a instâncias do ministro da Instrução Pública, Dr. Augusto Nobre, o livro História da Civilização Relacionada com a História de Portugal; exerceu o magistério, primeiro como professor e depois como diretor da Escola Normal de Lisboa (dela foi demitido em 1918, pelo sidonismo, por visitar presos políticos na Penitenciária de Lisboa) e, tempos depois, da Escola Normal de Coimbra, da qual viria a ser afastado compulsivamente em 1934.

A sua ação pedagógica não se confinou, no entanto, ao ensino oficial; em 1925 fundou em Coimbra, com outros mestres (Álvaro Viana de Lemos, Aurélio Quintanilha, Joaquim de Carvalho e Manuel dos Reis) e alguns estudantes e trabalhadores manuais, a Universidade Livre.

É vasta e permanece dispersa a sua colaboração em jornais e em revistas. Escreveu, entre outros, nos seguintes periódicos: A Pátria (do Porto), O Mundo, A Vanguarda, Voz Pública, O Norte, República, O Povo, A Batalha, Lanterna (do Brasil), Luz e Vida, Alma Nacional, Arquivo Democrático (de que foi diretor), O Diabo e a República Portuguesa, um periódico por si fundado e de que era proprietário. Colaborou também no Guia de Portugal, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e ainda na obra dirigida por Lopes de Oliveira As Grandes Figuras da História da Humanidade: História Geral da Civilização. Há vários prefácios seus a livros de outros autores.
Pai do escritor «presencista», 
Branquinho da Fonseca (1905-1974).
 
Biografia de Tomás da Fonseca, in "Dicionário Cronológico de Autores Portugueses", Vol. III, Lisboa, 1994. (daqui)
  

 
Katsushika Hokusai (Japanese ukiyo-e artist of the Edo period, active as a painter
and printmaker, 1760–1849), "Hydrangea and Swallow", n.d.

 
Ukiyo-e

Ukiyo-e, ukiyo-ye ou ukiyo-ê ("retratos do mundo flutuante", em sentido literal), vulgarmente também conhecido como estampa japonesa, é um género de xilogravura e pintura que prosperou no Japão entre os séculos XVII e XIX. Destinava-se inicialmente ao consumo pela classe mercante do período Edo (1603 – 1867). Entre as mais populares temáticas abordadas, estão a beleza feminina; o teatro kabuki; os lutadores de sumo; cenas históricas e lendas populares; cenas de viagem e paisagens; fauna e flora; e erótica. (continua)

Autoproclamado "pintor louco" Katsushika Hokusai (1760–1849) desfrutou de longa e variada carreira. Seu trabalho é marcado pela falta do sentimentalismo usualmente comum ao ukiyo-e e pelo foco no formalismo de influência ocidental. Entre seus feitos, estão ilustrações para trabalhos literários de Takizawa Bakin, séries de sketchbooks — a mais famosa delas chamada Hokusai Manga (北斎漫画, esboços de Hokusai) — e sua popularização da paisagem enquanto vertente, sobretudo com a série "Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji", que inclui seu mais conhecido trabalho, A Grande Onda de Kanagawa, que também é uma das mais famosas peças de arte japonesa de todos os tempos.
Em contraste ao trabalho dos velhos mestres, as cores de Hokusai eram arrojadas, lisas e abstratas, e suas temáticas não tinham relação com as zonas de meretrício, mas dialogavam com vida comum e o ambiente da classe trabalhadora.
Mestres consagrados, como Keisai Eisen, Utagawa Kuniyoshi e Utagawa Kunisada também seguiram os passos de Hokusai rumo às paisagens na década de 1830, produzindo trabalhados de composição ousada e impressionantes efeitos. 
(daqui)