domingo, 4 de outubro de 2026

"A Liberdade o que é?" - Poema de José Jorge Letria

 

 
Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894–1978),
Young Love: Swinging, 1949, Part of the "Four Seasons" series.



A Liberdade o que é?


A liberdade
é um pássaro sem medo
a cantar dentro da boca.

A liberdade
é uma árvore
capaz de abraçar as estrelas.

A liberdade
é uma palavra límpida
no ramo mais alto da fala.

A liberdade
é um morango a dizer ao vermelho:
"Agora quero ser verde."

A liberdade
é um livro escrito com a tinta
de que são feitos os sonhos.

A liberdade
é a língua a soltar-se
para chamar a felicidade. 

A liberdade
é a rima esvoaçante
a beijar os namorados.

A liberdade
é a palavra nova
no ramo mais alto da fala.

A liberdade
é um livro sempre aberto
na página ainda por escrever.

A liberdade
é um quadro onde as tintas
sabem a fruta e a mar.

A liberdade
é um homem a escrever o livro
que conta o que ainda ninguém sabe.

A liberdade
é um trocadilho
para fazer rir um filho.

A liberdade
é um circo que torna livres
todos os bichos.

A liberdade
é um voz feita coro
para que todos possam cantar.

A liberdade
é uma onda imensa
a inundar a praia de gaivotas.

A liberdade
é uma letra apaixonada
por um número iluminado.

A liberdade
é um avô a gatinhar,
sem parar, atrás do neto.

A liberdade
é a poesia a matar em nós
a fome que temos de música.

A liberdade é azul
e tem meninos dentro
a sonhar e a brincar.

A liberdade
é um pequeno gesto
onde cabe tudo o resto.

A liberdade
é um ponto final
em tudo o que nos faz mal.

A liberdade
é a metade que falta
à nossa felicidade.

A liberdade
é um corvo a pintar de luz
o escuro da noite.

A liberdade
é um capitão a beijar
a alegria de um cravo.

A liberdade
é uma rua a desaguar,
ao luar, no infinito.

A liberdade
é um rio loucamente
apaixonado por uma cidade.

A liberdade
é um lágrima de súbito
transformada em diamante.

A liberdade
é ter tempo para dar
mais tempo aos outros.

A liberdade
é um menino
de todas as cores.

A liberdade
é uma andorinha
a desenhar a primavera.

A liberdade
é às vezes um verso
tão belo como o Universo.

A liberdade
é um poeta a dar nomes
aos sentimentos do mundo.

A liberdade
é um caracol
a brincar com o sol.

A liberdade
é um navio
de fio a pavio.

A liberdade
é um computador
a chorar de saudade.

A liberdade
é o dia, com fantasia,
de dar luz à noite.

A liberdade
é um comboio
a atravessar as nuvens.

A liberdade
é a última coisa
que se pode perder.

A liberdade
é o rumo que tem
a sabedoria do vento.

A liberdade
é um barco a sair
de dentro de uma garrafa.

A liberdade
é um guarda-chuva
a apanhar sol.

A liberdade
é uma borboleta
pousada no vidro dos dias.

A liberdade
é ter asas e saber
voar com elas, através das janelas.

A liberdade
é um malmequer
a perfumar a própria sombra.

A liberdade
é um poema a nascer
no meio das rosas.

A liberdade
podemos ser todos nós
com uma flor na voz.

A liberdade
é uma baía
onde mora a poesia.

A liberdade
é um desejo que nunca
ninguém conseguiu domar.

A liberdade
é um velho
para sempre criança.

A liberdade
é um vagar
que nunca teve pressa.

A liberdade
é um país sem medo
a tentar ser feliz.

A liberdade
é o sonho de uma noite
a durar a vida inteira.

A liberdade
é um peixe
com o luar nas escamas.

A liberdade
é a poesia
como pão para a boca.

A liberdade
é uma caneta a escrever, sozinha,
a própria vida.

A liberdade é
o último dos nomes
que um homem pode esquecer.

A liberdade é
a respiração de um pássaro
a confundir-de com o perfume da brisa.

A liberdade é
um lugar que não vem no mapa
e onde o vento se enamora.

A liberdade é
o nome que nos apetece dar
ao sonho quando abre portas.

A liberdade
é o nome que falta dar
àquilo que nos faz falta.

A liberdade
é um gato
apaixonado pela lua.

A liberdade é
um menino a imaginar
que é um rio a correr para o mar.

A liberdade
é uma pérola
que se transforma em pão.

A liberdade
é o rosto mais belo que alguém vê
quando deixa a escuridão para trás.


José Jorge Letria,  
"A Liberdade o que é?" 
 
 

"A Liberdade o que é?" de José Jorge Letria.
Ilustrações de Catarina França.
1ª ed. - Porto: Ambar, 2007.



SINOPSE

Compilação de textos poéticos muito breves (tercetos) subordinados a um mote comum – a definição da liberdade –, o livro de José Jorge Letria conduz o leitor numa viagem pelas diferentes formas – muitas metafóricas – de olhar e experimentar a liberdade, aqui recriada como uma das maiores conquistas da Humanidade.
 

 
Norman Rockwell, "On Top of the World", also known as "Boy on Weather Vane"
or "Boy on Weathercock", 1934. Oil on canvas, 27.94 × 22.86 cm.
Cover illustration for The Saturday Evening Post, October 20, 1934.
 
 
"Quando perdemos o direito de ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres."

"When we lose the right to be different we lose the right to be free." 

Charles Evans Hughes
, citado em "Friends' intelligencer".
[Advogado, político e jurista norte-americano, 1862–1948]

sábado, 3 de outubro de 2026

"Desejar Ser – 8" - Poema de Manoel de Barros

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886–1973), A Cuca, 1923


Desejar Ser – 8


Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.


Manoel de Barros, in "Livro Sobre Nada"
Ed. Record, 3a. ed., Rio de Janeiro, 1996;
in Poesia Completa, São Paulo: Leya, 2011.

 

Tarsila do Amaral, O Sapo, 1928


"A arte desafia a derrota pela sua própria existência, representando a celebração da vida, 
apesar de todas as tentativas para degradá-la e destruí-la." 
 
 Nadine Gordimer
[Escritora sul-africana, 1923–2014. Nobel de Literatura em 1991.]
 
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

"O Outono" - Poema de Olavo Bilac

 

Andrea Johnson (American artist, born 1954), 
'Bluebirds and Persimmons', 2014.


O Outono

IV

Coro das quatro estações:

Há tantos frutos nos ramos, 
De tantas formas e cores! 
Irmãs! Enquanto dançamos, 
Saíram frutos das flores! 

O outono:

Sou a sazão mais rica: 
A árvore frutifica 
Durante esta estação; 
No tempo da colheita, 
A gente satisfeita 
Saúda a Criação.

Concede a Natureza 
O prémio da riqueza 
Ao bom trabalhador, 
E enche, contente e ufana, 
De júbilo a choupana 
De cada lavrador.

Vede como do galho, 
Molhado inda de orvalho, 
Maduro o fruto cai… 
Interrompendo as danças, 
Aproveitai, crianças! 
Os frutos apanhai!

 Coro das quatro estações: 

Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs! Enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!


Olavo Bilac,
Outono, da série Quatro Estações,
em Poesias Infantis, 1904.



Andrea Johnson
, "Mo on Windowsill", n.d.


"Há uma quietude de outono nas cores."

"Es gibt eine Stille des Herbstes bis in die Farben hinein."


Hugo von Hofmannsthal (Escritor austríaco, 1874
–1929),
'Buch der Freunde' (Livro dos Amigos) - p. 35,
Insel-Verlag, Leipzig, 1922.



quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Raridade" - Poema de José Paulo Paes

 

 
William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete,
1881–1941), Macaw and Sunflowers, 86.0 x 76.0 cm.


Raridade


A arara
é uma ave rara
pois o homem não para
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode
voar pelo céu.

E se o homem não para
de caçar arara,
hoje uma ave rara,
ou a arara some
ou então muda seu nome
para arrara. 


José Paulo Paes (1926–1998),
do livro "Olha o bicho", 1989
 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

"Cabra-cega" - Poema de Roseana Murray


 
Albert Roosenboom (Belgian painter, 1845–1893), Playing blindfold on the beach
(Jogo da cabra-cega)
, oil on panel, 30 x 40 cm, private collection.



Cabra-cega 

 
Meninos e meninas correm 
pelo pátio, 
enquanto apenas um, 
ou uma, 
com um lenço amarrado nos olhos,
as mãos esticadas como se fossem 
aprisionar o vento,
busca um corpo em movimento, 
há que tocá-lo como um instrumento.
Sempre em fuga.
Um grito é a música. 


do livro "Brinquedos e Brincadeiras", 2014
 
 

Women playing blind man's buff (Jovens brincando de cabra-cega), 1803


Jogo da cabra-cega

Este jogo popular é já um clássico de gerações, e por muitas boas razões. Além de super divertido e estimular a atenção e os sentidos, permite ser jogado por vários amigos ao mesmo tempo, sendo ideal para dias de festa. O objetivo é que um jogador com os olhos vendados consiga agarrar e identificar um dos companheiros, através do toque e dentro de um espaço previamente definido. O jogador identificado passa a ser a “Cabra Cega”, e a dinâmica repete-se. 

Benefícios 

  • Cooperação/Oposição;
  • Desenvolvimento de habilidades motoras;
  • Capacidade de reação e de atenção;
  • Orientação espacial e perceção tátil e de olfato;
  • Desenvolvimento da perceção auditiva e eficiência cognitiva;
  • Tomada de decisão.
 
Descrição

  • Jogadores: no mínimo 4/5, de preferência com idade superior a 4/5 anos. Toda a família e amigos podem participar.
  • Material: um lenço ou venda para tapar os olhos.
  • Local: deve ser jogado em espaços interiores (casa/sala) ou exteriores (quintal, jardim, etc.).
  • Como se joga: depois de se escolher um lugar apropriado, em casa (sala) ou no exterior (quintal, jardim, etc.), os jogadores posicionam-se em círculo, seguram as mãos e escolhem por sorteio ou por outra forma de indicação a “cabra-cega” que ficará ao centro com os olhos vendados. Depois de dar três voltas sobre si mesma, a “cabra-cega” tentará agarrar algum dos outros jogadores que vão cantando “cabra-cega-cabra-cega”. O grupo poderá espalhar-se para impedir que a cabra agarre alguém. Quando conseguir identificar (adivinhar) algum jogador deve dizer o nome e trocar de lugar com ele. O importante é que a cabra-cega reconheça os seus amigos de jogo pelo tato (toque e contacto físico). 
Desenvolvido por Carlos Neto (daqui) 
  

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

"Vem de tudo" - Poema de Ricardo Azevedo



Florence Kate Upton
(American-born British cartoonist and author,
1873–1922), Little girl with a carrot man and tomato man, 1890s;
The Vege-men's revenge, children's book illustration.

[The Vege-Men's Revenge is a children's book, written by Bertha Upton (British writer, 1849–1912)
and illustrated by his daughter, Florence Kate Upton.]


Vem de tudo


Vem de uma voz lá de dentro
Brota feito luz no chão
É casa solta no vento
É verdade? Sim e não

Vem da infância tristonha
Vem da infância contente
Vem do jovem, vem do velho
Vem de toda e qualquer gente

Pode nascer da paisagem
Lá no campo ou na cidade
Das ruas, da natureza
Das flores, da sociedade

Ou brotar dentro de um quarto
Fechado com a luz acesa
Ou talvez sair da fruta
Morta num prato na mesa

Pode fazer feito o mar:
Molhar os olhos da gente
(Quero dizer que é capaz
De emocionar, de repente)

Vem de um dia de alegria
Vem do sangue, vem do corte
Vem de uma noite vazia
Vem do amor e vem da morte

Pode ser pura mentira
Pode ser mera verdade
Pode ser só fantasia
Pode ser realidade

Vem da raiva e da revolta
Do desejo de mudança
Vem de ver tanta injustiça
Vem da luta e da esperança

Vem de uma casa engraçada
De uma pedra no caminho
Vem do galo que não tece
Manhã nenhuma sozinho

Vem de um riso de criança
Vem do espanto sobretudo
Vem do sonho que não cansa
Vem de nada e vem de tudo

Vem porque a gente sente
Vem porque a gente tenta
Vem porque a gente sonha
Vem porque a gente inventa

É flor que não existia
Joia esculpida no nada
Estrela nova no céu
Fruta boa inesperada

Cresce no fundo da gente
Sai da vida noite e dia
Vem à toa ou do trabalho
De tudo nasce a poesia


Ricardo Azevedo,  
do livro "Aula de carnaval e outros poemas",
 Ática, 2006.


domingo, 27 de setembro de 2026

"O circo do contrário" - Poema de Pedro Bandeira

 


Ilustração de Regina Shadhan


O circo do contrário


Lá no circo do contrário,
o leão pega o chicote
e obriga o domador
a pular todo sem jeito
para cima do banquinho.

Lá no circo do contrário,
tem a bola colorida
que joga os malabaristas
para cima, para o alto,
sem deixar cair nenhum.

Lá no circo do contrário,
o espetáculo é maluco,
pois de dentro da cartola
o coelho tira o mágico!

Lá no circo do contrário,
os palhaços batem palmas
pois quem faz as palhaçadas
é um menino como eu!

Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna

♥♥♥

 
Ilustração de Regina Shadhan
 
 
"É divertido fazer o impossível." 

Walt Disney, citado em "Walt Disney's Disneyland",
Martin A. Sklar - Walt Disney Productions, 1965.


 
Ilustração de Regina Shadhan


"Eu prefiro entreter e esperar que as pessoas aprendam, 
do que ensinar e esperar que as pessoas se divirtam."

Walt Disney
 
 
 
Ilustração de Regina Shadhan
 

"O riso é atemporal. A imaginação não tem idade. E os sonhos são para sempre."

Walt Disney
 
 
 
 
"Eu tento construir um tipo de felicidade que se torne permanente."
 
Walt Disney

[Walt Disney (1901–1966) foi um cineasta norte-americano, que revolucionou o cinema de animação.
Utilizou novas técnicas e inventou novas personagens. Os primeiros desenhos animados do Rato Mickey apareceram em 1928. Mais tarde surgiram as longas metragens Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Fantasia (1940), Pinóquio (1940), Dumbo (1941) e Peter Pan (1953).
A Disneylândia foi fundada por Walt Disney em 1955
.] (daqui)


sábado, 26 de setembro de 2026

"Polvo" - Poema de José Jorge Letria



Jody Keen
(Australian artist), 'Octupus deep blue sea',
Acrylic, 50 x 40 cm. 


Polvo


Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Eu sei que não tem tentáculos a medir
e que sem sair do mesmo sítio
parece que está sempre a partir.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Eu sei que é veloz e inteligente
e que até usa para escrever
a mais negra tinta permanente.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Com o seu olhar penetrante,
agitando os braços todos
parece mesmo um gigante.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Se quiser tornar-se escritor
terá pela certa muito para contar
nas páginas feitas de algas
que cobrem as sereias no fundo do mar. 


José Jorge Letria,
em "O Alfabeto dos Bichos"
 
 
 
 O Alfabeto dos Bichos de José Jorge Letria (n. 1951),
Ilustrações de André Letria (n. 1973),
Oficina do Livro, 2005.
 

SINOPSE 


O Alfabeto dos Bichos de José Jorge Letria e André Letria

Idade recomendada: 6 a 9 anos

Da águia à zebra, sem esquecer o macaco, o tubarão e até o quivi, este livro ajuda as crianças a conhecer melhor uma série de animais, ao mesmo tempo que lhes relembra o alfabeto.
Os textos, pequenos poemas em rima a apresentar os diferentes bichos, são da autoria de José Jorge Letria e as ilustrações, duas para cada animal, do seu filho, André Letria. (daqui)
 
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Onde está o Gato? - Poema de Luísa Ducla Soares



Shawn Braley
(American illustrator, b. 1972), 'Magic carpet ride'
 

Onde está o Gato?


Os burros tocam viola.
Os ratos varrem a rua,
As meninas usam barba,
Eu vivo sempre na lua.

Os carapaus têm lã,
As galinhas têm espinhas,
As vacas coca-cola
E chocolates as vinhas.

Os gatos calçam sapatos,
Olha a trança das serpentes,
As moscas falam francês,
Os galos lavam os dentes.

As casas voam no ar,
As nuvens dormem no chão,
Os olhos fazem chichi
E crescem rosas na mão.

Miúdo que estás a ouvir-me,
Pois tens orelhas de rã,
Diz lá o que está errado
Ou faço queixa à mamã.


Luísa Ducla Soares, in Conto estrelas em ti;
17 poetas escrevem para a infância.



'Conto estrelas em ti' - 17 poetas escrevem para a infância.
Coordenação: José António Gomes; Ilustração: 
João Caetano 
Porto: Campo das Letras, 2000.

 

SINOPSE

Conto estrelas em ti
dezassete vozes,
dezassete modos
de escrever poesia
para crianças e jovens.

Autores: Albano Martins, Álvaro Magalhães, Ana Saldanha, António Mota, António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Francisco Duarte Mangas, João Pedro Mésseder, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Mário Castrim, Papiniano Carlos, Raul Malaquias Marques, Teresa Guedes, Vergílio Alberto Vieira e Violeta Figueiredo.
Coordenação: José António Gomes. 
 
 
 Ilustrações de Shawn Braley

Shawn Braley, 'Watchful'
 
 

Shawn Braley, 'Lean on me'
 
 

Shawn Braley, 'Best Friends'
 
 

Shawn Braley, 'Osmosi'
 
 

Shawn Braley, 'Thinking Outside the Box'


"A inteligência no gato é menosprezada."

"Intelligence in the cat is underrated."

Louis Wain,
in "The Quotable Feline"‎, de Jim Dratfield - Chronicle Books Llc, 1997.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Chegou o Outono" - Poema de Alice Gomes

 


Albert Anker (Swiss painter and illustrator, 1831–1910),
 "Under the Umbrella"
("Enfants allant à l'école sous un parapluie"), 1884.


Chegou o Outono


Chega o Outono!
As andorinhas
despedem-se das outras avezinhas
e vão pelos ares fora
vão-se embora
embora?
Não!
Que voltam, voltarão…
Quando a bela estação
da Primavera
que antecede ao Verão
oferecer melhor vida.
Não têm agasalhos nem comida,
vão para terras quentes
à procura do sol que as consola
Mas nós, crianças, 
nós, 
todos contentes
partimos para a escola.


Alice Gomes, in 'Bichinho Poeta', 1970;
in 'Poesia portuguesa para crianças - Antologia'

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

"Mistérios da Escrita" - Poema de Álvaro Magalhães



Georgia O'Keeffe (American modernist painter and draftswoman,
1887–1986), "Sunflower", 1921

 

Mistérios da Escrita


Escrevi a palavra flor.
Um girassol nasceu,
No deserto de papel.
Era um girassol
como é um girassol.
Endireitou o caule,
sacudiu as pétalas
e perfumou o ar.
Voltou a cabeça
à procura do Sol.
E deixou cair dois grãos de pólen
sobre a mesa.
Depois cresceu até ficar
com a ponta de uma pétala
fora da Natureza.


Álvaro Magalhães
in "O Limpa-Palavras e outros poemas", 
Porto, Edições Asa, 2000.



Georgia O'Keeffe, "Sunflower", 1940–1942. Oil on canvas, 
 Private Collection.


Sol no girassol.
Sombra desenha outra flor
no corpo dourado.


Aníbal Beça (1946–2009) 
 
 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Fim de Verão" - Poema de Paulo Henriques Britto



Jim Daly (American painter, born 1940), Summer’s End



Fim de Verão

XIV

A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.

É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco

porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza

com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,

proporcionando às retinas
já habituadas à rotina

de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória

uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.

Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.


Paulo Henriques Britto
,
Fim de Verão, 2022
 
 

Jim Daly, The Immigrant Spirit, 1992 

At the 1904 St. Louis World's Fair, a concessionaire who was selling ice cream ran out of cups. The concessionaire next to him was selling crisp, wafer-like pastry baked on a flat waffle iron. It was his idea to roll one of his wafers into a cornucopia, let it cool, and put a scoop of ice cream into it. 
The idea was an immediate hit and the "World's Fair Cornucopia", or ice cream cone, was born. Both the concessionaires were immigrants, and in my painting, The Immigrant Spirit, I wanted to show that spirit of enterprise and innovation. 
The same spirit brought the immigrants through Ellis Island and carried them through the new land. Thy were truly "pillars of a nation." —
 Jim Daly
 
 
 
Jim Daly, Her Secret Place, 1991


⁠"Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças."

Manoel de Barros,
Trecho do poema Exercícios de ser criança.
in Poesia completa, São Paulo: LeYa, 2010.
 

sábado, 12 de setembro de 2026

"Desaparecido" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro

 


Ryan Mutter
 (Scottish artist, b. 1978), 'Crail', 2021.
Oil on Canvas, 50 × 40 cm, Private Collection.


Desaparecido


Sempre que leio nos jornais:
"De casa de seus pais desapareceu..."
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
— Livre o instinto, em vez de coagido,
"De casa de seus pais desapareceu..."
Eu, o feliz desaparecido! 


Carlos Queirós Ribeiro (1907–1949), 
in 'Desaparecido', 1935



Desaparecido: poemas de Carlos Queiroz, 1935.
Contém dedicatória autógrafa a Fernando Pessoa 
datado de 31-10-1935 oferecendo propositadamente
o exemplar com o nº 13.
 (daqui)


Sobre Desaparecido, de Carlos Queiroz
por Fernando Pessoa


A beleza do livro começa pelo livro. A edição é lindíssima. A beleza do livro continua pelo livro fora: os poemas são admiráveis.
Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem: — que é uma bela promessa. O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização. Cumpriu, sem ter prometido, sem ter tido que prometer. 
Assim se deveria fazer sempre, ou quase sempre. Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte. Não escrevia Milton um soneto sem que o fizesse como se desse soneto dependesse toda a sua fama futura.
E que prazer o de se poder escrever isto sem que a amizade que tenho pelo poeta, que é muita, uma só palavra me dite; sem o que o gosto de incitar quem é jovem, e tenho esse gosto, me faça sublinhar uma só frase; de poder escrever isto sem mais entendimentos que com a justiça, sem mais combinações que com a verdade.

1935

Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980. 
1ª publ. in Revista de Portugal, nº 2. Coimbra: Jan. 1938
.

 


Ryan Mutter (Scottish artist, b. 1978), 'Dockland Life'.
Oil on Canvas, 
 60 × 60 cm, Private Collection.
 

"O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação."
 [Escritor, poeta e dramaturgo irlandês, 1854–1900]
 
 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"Brincávamos a cair nos braços um do outro" - Poema de Valter Hugo Mãe



Félix Vallotton (Swiss and French painter and printmaker, 1865–1925),

"The Lie" ("Le Mensonge"), 1898. Baltimore Museum of Art 
(Cloisonnism)

brincávamos a cair nos braços um do outro


brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as atrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade


Valter Hugo Mãe, in 'contabilidade', 2010



Félix Vallotton
(Swiss and French painter and printmaker, 1865–1925),
"Intimacy" or "Interior with Couple and Screen", 1898 (Cloisonnism),
Private collection



Cloisonnisme

O Cloisonnisme é um estilo da pintura pós-impressionista caracterizado por cores lisas delimitadas por contornos escuros. O termo foi utilizado pelo crítico Édouard Dujardin por ocasião do Salão dos Independentes em Março de 1888. Os artistas Émile Bernard, Louis Anquetin, Paul Gauguin, Paul Sérusier, e outros, começaram a pintar com este estilo no final do século XIX. O nome remete para a técnica de cloisonné, onde arames (cloisons ou "compartimentos") são soldados ao corpo da peça, enchidos com pó de vidro e, em seguida, colocados no meio de chamas a altas temperaturas, numa técnica semelhante ao do vitral. Muitos daqueles pintores descrevem os seus trabalhos como sintetismo, um movimento com algumas semelhanças.

No O Cristo Amarelo (1889), muito citado como o melhor exemplo de cloisonnisme, Gauguin reduz a imagem a áreas de uma única cor separadas por linhas escuras muito carregadas. Nestes trabalhos, ele deixa de lado a perspetiva clássica, e elimina as transições de cores (as gradações cromáticas como o degradê ou as técnicas de sensação de volume como o sfumato) — duas das principais características da pintura pós-renascentista.

Uma forte influência na técnica de representação usada (não nos temas representados mas na forma de pintar) foram as estampas japonesas Ukiyo-e que cativaram a sociedade francesa daquela altura pela sua novidade, no chamado japonismo. Escreveu Paul Gauguin:

"Olhe para os excelentes artistas japoneses, e verá a vida retratada no ar livre e ao sol sem sombras, a cor a ser usada apenas como combinação de tons, diversas harmonias, dando a impressão de calor etc."

A separação das cores no cloisonnisme, reflete um desejo de descontinuidade que é uma característica do modernismo. (daqui)