quarta-feira, 7 de junho de 2017

"Canção Póstuma" - Poema de Cecília Meireles



Albert Chevallier Tayler (English painter, 1862–1925), "Not Lost but Gone Before", 1886.


Canção Póstuma


Fiz uma canção para dar-te;
porém tu já estavas morrendo.
A Morte é um poderoso vento.
E é um suspiro tão tímido, a Arte...

É um suspiro tímido e breve
como o da respiração diária.
Choro de pomba. E a Morte é uma águia
cujo grito ninguém descreve.

Vim cantar-te a canção do mundo,
mas estás de ouvidos fechados
para os meus lábios inexatos,
— atento a um canto mais profundo.

E estou como alguém que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a lágrima da sua face.

E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde.
E sofro sem saber de que Arte
se ocupam as pessoas mortas. 

Por isso é tão desesperada
a pequena, humana cantiga.
Talvez dure mais do que a vida. 
Mas à Morte não diz mais nada.


Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

terça-feira, 6 de junho de 2017

"Infante" - Poema de Luís de Montalvor



Franz von Lenbach (German painter, 1836–1904), 
Portrait of Adolf Friedrich von Schack, 1875, Schack Collection. 


Infante


Dá-me o sol a minha fronte. Doloridos 
e chagados meus pés descalços vão fugindo... 
- Memórias dos meus doidos passos incontidos! 
- Ó meu rumor do mundo em pétalas abrindo! 

Ó corças que correis pela tarde desferindo 
o balido ligeiro que alonga os ouvidos... 
- Tarde de écloga e mel silvestre reluzindo... 
- Minhas vinhas de vinhos de oiro não bebidos... 

Desfolham-se ilusões e vão-se sem apegos... 
Murchou a flor dos meus desejos com que pude 
a vida transformar em ócios e sossegos... 

Que lucrei, eu, Senhor! com horas execráveis 
dum sonho que perdeu meu corpo de virtude? 
- o pródigo que fui dos erros inefáveis! 


in 'Antologia Poética'


segunda-feira, 5 de junho de 2017

"Testamento do homem sensato" - Poema de Carlos Pena Filho



Testamento do homem sensato


Quando eu morrer, não faças disparates 
nem fiques a pensar: «Ele era assim...» 
mas senta-te num banco de jardim, 
calmamente comendo chocolates. 

Aceita o que te deixo, o quase nada 
destas palavras que te digo aqui: 
foi mais que longa a vida que eu vivi, 
para ser em lembranças prolongada. 

Porém, se, um dia, só, na tarde em queda, 
surgir uma lembrança desgarrada, 
ave que nasce e em voo se arremeda, 

deixa-a pousar em teu silêncio, leve 
como se apenas fosse imaginada, 
com uma luz, mais que distante, breve. 


Carlos Pena Filho, in 'Livro Geral', 1959

domingo, 4 de junho de 2017

"Matura Idade" - Poema de Lara de Lemos



Adélaïde Labille-Guiard (1749–1803), Self-Portrait with Two Pupils, 1785
(with Marie-Gabrielle Capet and Marie-Marguerite Carreaux de Rosemond)


Matura Idade


Já não receio 
meu avesso de medos. 

Distingo as coisas 
em sua proposta exata 
e sei — cada ser 
possui justa medida. 

Já não almejo 
o que me foi negado. 

Prossigo a caminhada 
colhendo o que 
me coube, consoante 
o chão lavrado. 


Lara de Lemos,
in 'Adaga Lavrada'


sábado, 3 de junho de 2017

"Depois" - Poema de Telmo Padilha



Marie-Gabrielle Capet (French Neoclassical painter, 1761–1818),
Self-portrait, 1783, National Museum of Western Art in Tokyo
 
 
Depois


O que perdeste 
voltará com as aves. 

Não será tão deserto 
teu deserto. 

Mas acostuma-te ao silêncio 
que virá depois. 

Folhas falarão pelas folhas. 

Aves falarão pelas aves.  


Telmo Padilha
(1930–1997), 
in
'Poesia Encontrada'


sexta-feira, 2 de junho de 2017

"Com uma criança nos braços" - Poema de Sidónio Muralha


 
Mary Cassatt (American painter and printmaker, 1844–1926),
'Woman in a red bodice and her child', c. 1896,  
Brooklyn Museum


Com uma criança nos braços


Vem, através de tudo vem,
com lentos, lentos mas implacáveis passos
aquela mulher que tem
uma criança nos braços.

Vem, através das páginas da história
que já não conseguimos apagar
- quem pudesse fechar a memória
e deitar a chave ao mar.

Vem, através de tudo avança.
E há pessoas que ficam ofendidas
porque aquela mulher a aquela criança
deveriam ser proibidas.

Deveriam ser mas para sê-lo
os pássaros não teriam asas
e seria preciso toneladas de gelo
para apagar biliões de brasas.

E ela vem. Como se tudo desenhasse
em lentos, lentos mas implacáveis passos
- como se de Hiroxima voltasse
com uma criança nos braços.


Sidónio Muralha, in 'Poemas', 
Porto, Editorial Inova Limitada, 1971



Émile Munier (French academic artist, 1840–1895),
'Portrait of a mother and daughter', 1885


"Se fosse possível descobrir o primeiro e verdadeiro germe de todos os afetos elevados e de todas as ações honestas e generosas de que nos orgulhamos, encontrá-lo-íamos quase sempre no coração da nossa mãe." 
 
 Edmundo De Amicis, 'La Vita Militare - La Madre'
 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

"Infância" - Poema de Casimiro de Abreu



Charles Webster Hawthorne (American painter and teacher,
 1872–1930), At the Seaside, 1920


Infância


Ó anjo da loura trança, 
Que esperança 
Nos traz a brisa do sul! 
– Correm brisas das montanhas... 
Vê se apanhas 
A borboleta de azul!...

Ó anjo da loura trança, 
És criança, 
A vida começa a rir. 
– Vive e folga descansada, 
Descuidada 
Das tristezas do porvir.

Ó anjo da loura trança, 
Não descansa 
A primavera inda em flor; 
Por isso aproveita a aurora 
Pois agora 
Tudo é riso e tudo amor.

Ó anjo da loura trança, 
A dor lança 
Em nossa alma agro descrer. 
– Que não encontres na vida 
Flor querida, 
Senão contínuo prazer.

Ó anjo da loura trança, 
A onda é mansa 
O céu é lindo dossel; 
E sobre o mar tão dormente, 
Docemente 
Deixa correr teu batel.

Ó anjo da loura trança, 
Que esperança 
Nos traz a brisa do sul!... 
– Correm brisas das montanhas... 
Vê se apanhas 
A borboleta de azul!...


in 'As Primaveras', 1859



Mary Cassatt (American painter and printmaker, 1844–1926), 
Children on the Beach, 1884


"Importa dar aos outros o amor de os ouvir. A criança ama quem for capaz de se partilhar com ela. De lhe dar o que é, sem cuidar de exigir nada em troca. Os nossos melhores amigos são sempre crianças." – José Luís Nunes Martins