sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"Há momentos" - Poema de António Mendes Cardoso




Há momentos


Há momentos na vida de um Homem
Em que sabe que acordou diferente
E que já não é o mesmo para ele,
Mesmo que o seja para toda a gente...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Aquela que lhe trouxer
A flor do sexo
Desenhada a vermelho no ventre
E nada lhe perguntar...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma mulher
Aquela que lhe trouxer,
Num abraço total,
A ilusão da vida inteira...
E, depois, partir
Com a esperança de vida que ele semeou...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Para todo o Mundo se resumir
À flor vermelha
Como um bocado de sol
Que desponta numa telha!


António Cardoso,
em "Poemas de circunstâncias" 
 (1949-1960)


"Só sei cantar" - Poema de Thiago de Mello


Jacobus Hendrik Pierneef (South African, 1886–1957), Dar-es-Salaam, 1926



Só sei cantar


Sou simplesmente um cantor. 
Já disse que nada invento 
nem produzo formatos diferentes. 
Minha terra tem palmeiras 
onde canta o sabiá. 
Canto a luz da primavera, 
canto a chuva da floresta, 
canto a dor dos deserdados, 
e a alvorada da justiça. 
Canto o olhar da minha amada 
e as pernas dela também. 
Canto a plumagem celeste 
do tucano que me acorda 
e canto o peito encarnado 
do rouxinol que chegou 
dos altos do Rio Negro 
para ver de perto o vôo 
das pipiras azuladas. 
(Alguns, da arte só pela arte, 
me torcem a cara quando 
canto em nome do meu povo 
a aurora da liberdade.) 
Canto o que suja e o que lava, 
canto o que dói e o que abranda, 
canto a rosa e seu espinho 
e a cantiga de ciranda 
que se faz de fogo e neve, 
canto o amor, de novo canto, 
só para aprender a amar. 
Mas não canto o que bem quero 
pelo gosto de cantar 
que às vezes sabe a desgosto. 
Canto o que a vida me pede, 
imperiosa ou macia, 
porque sabe que cantar 
é um modo de repartir. 
Sou poeta, só sei cantar. 
em "De uma vez por todas", 1996


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

"Poema conformista" - Poema de Torquato Neto


Claude Monet, The Studio Boat, 1876


Poema conformista


Nunca escorreu pelo meu corpo a aurora,
nunca senti na minha boca o traspassar de noites,
nunca dormi ao lado das estrelas – que isto
são coisas absolutamente sem importância
que, de resto, outros sonhadores
já tiveram o cuidado de sonhar.
Eu em mim
incrivelmente existo e me basto.

O temer e o esperar passaram por completo.
E a vontade de ver o invisível
e tocar o intocável
e calcular o necessariamente incalculável
também passaram e não prossigo nisto.
Sou exatamente o que me basto para continuar
sendo.
E nisto me basto.

Quando não pude alcançar o lado oposto
e me perdi e não voltei atrás,
eu prossegui pelo caminho e não parei.
Quando na volta preferi vir só
eu me bastei com meus distensos músculos
e não cortei demais a minha carne
em pedaços inúteis.

Minha incerteza quando dói a afasto
e não me engano em pensar o que não posso
nem me abandono a construir filosofias que a
encharquem.
Se não componho as sinfonias que escuto
ninguém o sabe: eu não sou músico.
Quando não sei se devo ou se não devo prosseguir
em escrever poemas e asneiras,
eu nada faço e me recolho: o poeta que não sou
pode nascer ainda.

Como o dedo apagaria o sol
congelaria a aurora no meu corpo
e afastaria estrelas – mas não quero,
outros sonhadores já sonharam isso.
Como eu disse, sou exatamente o que me basto
para prosseguir,
e não quero mais.
 em "O Fato e A Coisa"


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

"Rios" - Poema de Viviane Mosé


 
Charles Courtney Curran (American impressionist painter, 1861–1942),
Lotus Lilies, 1888


Rios


Rios, quando ainda são rios,
Conservam vegetação nas margens.
Córregos são águas geralmente claras
Que correm rasas entre as pedras.

Algumas vezes árvores chegam a cobrir um rio por inteiro:
Suas copas vão tecendo um véu verde sobre as águas
(em geral muito limpas) que correm.

As margens de um rio são plantas e terra molhada.
Terra e água em convivência pacífica.
Que não é lama, é terra e água,
Em sua diferença.

O leito se sabe leito daquele fluxo líquido inserido no chão. 
Eu poderia chorar de coisas assim:
Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.

Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber. 

Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso pensei
Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,
Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.

Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,
Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados
Em minha pele.

Meu rosto tem muita simpatia por ventos,
Reconhece certos humores próprios a vento.
Gosto de coisas que se movem.

Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.
E árvores.
Se bem que tenho enorme ternura por bois
Fincados no pasto como palavras no papel.

Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.


Viviane Mosé, em "Toda palavra"


Charles Courtney Curran, Dans le Jardin du Luxembourg, 1889


"Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer."

(Marguerite Yourcenar)


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

"Metanáutica" - Poema de Geir Nuffer Campos



David Botha (South African painter and a graphic artist, 1921–1995),
'Wet street scene, Paarl', 1982. 


Metanáutica


Deixa-te ser viável como um bosque
ou jardim ou pomar por onde possa
ir passando a pessoa pela sombra
ou pela flor ou pelo fruto ou pela
singular vocação ambulatória:
deixa-te ser viável como um rio
ou lago ou mar por onde possa ir
passando o navegante ou nadador
pelo afã de chegar ou pelo puro
sentir-se em ti flutuante ou imerso:
deixa-te ser viável como um ar
por onde possa ir passando a asa
que como tal se procure ou encontre
firme ou frágil... Mas bosque ou jardim ou
pomar ou rio ou lago ou mar ou ar,
deixa em ti lecionar-se o transeunte
que viver são instâncias de passar.


Geir Nuffer Campos (1924–1999),
in 'Metanáutica', 1970



David Botha, 'Cecilia Street after the Rain', 1978.



"Os acasos só favorecem os espíritos preparados."

(Louis Pasteur)

"A mais perfeita imagem" - Poema de Ana Luísa Amaral



Robert Frederick Blum (American artist, 1857–1903), Courtyard, 1883, 
Cincinnati Art Museum
 

A mais perfeita imagem


Se eu varresse todas as manhãs as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o chão
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurónio meu, unia memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus. 
in 'A Arte de Ser Tigre', Gótica, 2003
 
 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

"Toda palavra" - Poema de Viviane Mosé


Alexander Calder (American, 1898-1976), Red Nose, 1969, lithograph, edition 75



Toda palavra 


Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida. 
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda.


Viviane Mosé, em "Toda palavra"


Alexander Calder, Papoose, 1969, lithograph, edition 75


"Desenhar é como fazer um gesto expressivo mas com a vantagem da permanência."

Alexander Calder, Copeaux de couleurs, 1969, lithograph