quarta-feira, 7 de agosto de 2024

"A Fábrica" - Poema de Teixeira de Pascoaes

Peder Severin Krøyer (Danish painter, 1851–1909), 'Fra Burmeister og Wain's Iron Foundry', 1885.
 Statens Museum for Kunst


A Fábrica


As negras chaminés, quais bocas tenebrosas,
Cospem no azul negros escarros pestilentos
Dum fumo que envenena as paisagens nervosas
E que os lúcidos céus nos torna nevoentos...

A fábrica trabalha, e silvos estridentes
Cortam, como uma espada, a trágica atmosfera.
Há rodas a girar, grandes fornos ardentes,
Terríveis como o olhar sangrento da Quimera!

Lívidos rostos, como lágrimas, orvalham
Os vapores que vão mover as engrenagens.
Há negros vultos revoltados que trabalham.
Enquanto o sol fecunda o ventre das paisagens!

Vem visitar, ó Dante, este medonho inferno,
Os negros antros do Trabalho e da Miséria...
Cavernas onde geme o sofrimento eterno
Que tem no rosto magro a palidez funérea!

Anda ver, ó Poeta, os antros do Martírio,
Os modernos Titãs que hão de escalar os céus...
E nas forjas, a arder, as chamas em delírio,
Que, porventura, anima a cólera de Deus!..,

E a bigorna onde forja a Dor o raio ardente
Que há de o mundo imperfeito e injusto fulminar!
Mas nesta escuridão eu vejo claramente
O brando alvorecer dum místico luar...

E da Fábrica cruel, cheia de fumo e treva,
De grandes corações amargos, sofredores.
Um grande sonho, ó Deus, fantástico se eleva,
E envolvem a oficina estranhos esplendores!...


Teixeira de Pascoaes
, "Para a luz", 1904.
 
 

terça-feira, 6 de agosto de 2024

"Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia" - Poema de Ricardo Reis / Fernando Pessoa



Johann Erdmann Hummel
(German painter, 1769 - 1852), "Chess Players", c. 1818 / 1819. 
 
[The persons in the painting are: architect Hans Christian Genelli (with a pipe); archeologist Aloys Hirt (making a move on the chess board); Gustav Adolf von Ingenheim (son of King Friedrich Wilhelm II and countess Voss); painter Friedrich Bury (the other chess opponent); the artist himself (at the window). Count Friedrich Wilhelm von Brandenburg (son of King Friedrich Wilhelm II and countess Doenhoff).]


Ouvi contar que outrora

 
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao refletir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho. 

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?

Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predileto
Dos grandes indiferentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulsa dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória; a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...

O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem querer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença. 

1-6-1916 

Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 57.
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

"A voz das coisas" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


Léon Spilliaert (Belgian symbolist painter and graphic artist, 1881 - 1946),
The Gust of Wind, 1904. Mu.ZEE - Kunstmuseum aan Zee. 
 


A voz das coisas


Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "As Fábulas"
Edições Quasi, 2002.
 
[Poemas escritos por Fiama Hasse Pais Brandão durante os anos 90 integram "As Fábulas". Conjunto de poemas onde a autora mostra a sensibilidade que a tornou uma figura de destaque na literatura deste país. Referem-se a uma realidade visualmente assumida, a qual fica a oscilar entre um lugar campestre, rural, e outro que é citadino (há várias referências a Lisboa), fazendo com que haja em tais poemas um sentido especial.]
 

Léon Spilliaert
 
Léon Spilliaert, Self-Portrait, 1907, Metropolitan Museum of Art.

[León Spilliaert (Oostende, 1882 - Bruxelas, 1946) foi um pintor simbolista belga e um artista gráfico.
Seu estilo se caracterizava pelo tenebrismo e simplicidade das formas, junto à expressão amargurada e misteriosa dos personagens e paisagens presentes nas obras.]
 
 
 
Léon Spilliaert, The Window of-the Studio on the Visserskaai, 1908–09.
 
 
Léon Spilliaert, Untitled (3 dark figures)
 
 
Léon Spilliaert, Attente, c. 1902-03.
 
 
Léon Spilliaert, The Absinthe Drinker (La Buveuse d’Absinthe), 1907.


Léon Spilliaert, Dike at night. Reflected lights, 1908, Musee d 'Orsay.
 
 
Léon Spilliaert, Vertigo, 1908, Mu.ZEE - Kunstmuseum aan Zee.
 
 
Léon Spilliaert, Young man with red scarf, 1908.
 

"A grandeza de uma obra de arte está fundamentalmente no seu caráter ambíguo, que deixa ao espectador decidir sobre o seu significado."

(Theodor W. Adorno)

domingo, 4 de agosto de 2024

"Deus e o domingo" - Poema de Eunice Arruda


Leonard Campbell Taylor (British painter, 1874 –1969), Priscilla, s.d.



Deus e o domingo


Eu ia ser feliz
domingo
naquele tempo bastava pouco

Não sabia que no
domingo
é fácil chover
e muito difícil viver

Ah, eu ia ser feliz!...
Mas
domingo Deus descansa
e a gente sofre mais


Eunice Arruda
, in "O Chão Batido", 1963

sábado, 3 de agosto de 2024

"Port Wine" - Poema de Joaquim Namorado



Aguarela de Real Bordalo (Artista plástico português, 1925–2017), 'Vista do Douro' (Rio Douro).


Port Wine


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova Iorque e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos do cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlinos
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres, os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! — ou morre.


Joaquim Namorado,
in "A Poesia Necessária", 1966. 


Artur Real Chaves Bordalo da Silva

Artur Real Chaves Bordalo da Silva, pintor e aguarelista, nasceu em Lisboa em 1925 e faleceu na mesma cidade em 28 de Junho de 2017. 
Estudou desenho na Sociedade Nacional de Belas-Artes e o trabalho artístico destaca-se em aguarela e óleo, sobretudo paisagens urbanas, em particular edifícios e locais históricos da capital. 
Ainda adolescente trabalhou com João Rosa Rodrigues, Francisco Branco e, mais tarde, com Leitão de Barros em cenografia, na Tobis e na Lisboa Filme. Foi pintor na Fábrica da Cerâmica Constância Faiança Bastitini, desenhador técnico, retocador de rotogravura e desenhador maquetista no Diário de Notícias.
Entre 1948 e 1950 recebeu três prémios, entre eles a menção honrosa em aguarela na Sociedade Nacional de Belas-Artes. Em 1952, com 27 anos, inaugurou a primeira exposição individual com trabalhos em aguarela e pastel no Casino da Figueira da Foz.
A obra de Real Bordalo encontra-se representada no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, em museus municipais de cidades como Lisboa, Lagos, Porto e Santarém, e em coleções particulares de França, Japão, Itália, Estados Unidos e Alemanha.
 Ref. Biog. Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses. [pág. 22]
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

"Adormecida" - Poema de Castro Alves


Madeleine Lemaire (Peintre, illustratrice et salonnière française, 1845-1928),
Jeune femme à la robe de satin allongée sur une méridienne,
s.d.
 
 
Adormecida

Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témaigner qu'elle a fait sa prière.
Et qu'elle va la faire en s'éveiliant demain.

A. DE MUSSET

Uma noite eu me lembro… Ela dormia
Numa rede encostada molemente…
Quase aberto o roupão… solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
 
Estava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina…
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trémulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!… A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia…
Quando ela serenava… a flor beijava-a…
Quando ela ia beijar-lhe… a flor fugia…

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças…
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava, ora afastava-se…
Mas quando a via despeitada a meio,
Pra não zangá-la… sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio…

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
 “Virgem! — tu és a flor da minha vida!…” 

São Paulo, Novembro de 1868

Castro Alves, in "Espumas Flutuantes", 1870.
 
 
Madeleine Lemaire, Portrait de jeune femme, s.d. 


"Na Primavera, a imaginação de um jovem volta-se, ligeira, para pensamentos de amor."
 
"In the Spring a young man's fancy lightly turns to thoughts of love."
 
Tradução conforme citado em Revista Caras, edição 674.
 

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

"Para alguém que toca" - Poema de Alexander Search (Heterónimo de Fernando Pessoa)


 


Para alguém que toca 


Não pares essa música isolada
Que, como brisa, por mim vem passar
Perdida na calma do anoitecer,
Melodia só a meio escutada
Tal como o som do imenso mar
Que, no movimento, encontra prazer.

Pois em teu ritmo suave e repetido,
Tu, nessa canção em metro desigual,
Em mim acordas a espiritualidade,
Num alargar e morrer do sentido
Que aparece à consciência natural,
Como para o Tempo a Eternidade. 


Alexander Search, in "Poesia", 1999.
 Assírio & Alvim, edição e tradução de Luisa Freire.
(Heterónimo de Fernando Pessoa)