sábado, 10 de maio de 2025

"Mocinhas gráceis" - Poema de Natália Correia


 
Franz Marc (German painter and printmaker, 1880–1916), Two Women on the Hillside, 1906.
Franz Marc Museum, Kochel am See.
 


Mocinhas gráceis 
 

Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela ereção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.

Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exatidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Sois, porém, as irreais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.

Lá do fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura, o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.

Enleais, mas se enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
— Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas —,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.

Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.

Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transcendência.


Natália Correia, in "Armistício", 
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985.
 

sexta-feira, 9 de maio de 2025

"Visão" - Poema de Oscar Rosas


John Simmons (British miniature painter and illustrator, 1823–1876), 
Titania sleeping in the moonlight protected by her fairies, inspired by 
Shakespeare's A Midsummer Night's Dream, 1860s.


Visão 


Tanto brilhava a luz da Lua clara,
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.

Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.

Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.

Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.


Oscar Rosas
(1864 - 1925)

terça-feira, 6 de maio de 2025

"O Regresso" - Poema de Manuel António Pina


 Walter Langley (Social Realist painter, 1852-1922 ), Waiting for the boats, 1885. Pencil and watercolor.



O Regresso


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.


 Manuel António Pina, Como se desenha uma casa, 2011.
 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

"A Língua Portuguesa" - Poema de Olavo Bilac


 
António Ramalho ou Ramalho Júnior (Pintor português, 1859–1916),
Camões lendo os "Lusíadas" a D. Sebastião, em litografia de 1893.


A Língua Portuguesa

 
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: «Meu filho!»
E em que Camões chorou, no exílio amargo
O génio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac
, in "Poesias"


Comissão UNESCO endossa 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa (daqui)

 

Dia Mundial da Língua Portuguesa

A data de 5 de Maio foi oficialmente estabelecida em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) - uma organização intergovernamental, parceira oficial da UNESCO desde 2000, que reúne os povos que têm a língua portuguesa como um dos fundamentos da sua identidade específica - para celebrar a língua portuguesa e as culturas lusófonas. Em 2019, a 40ª sessão da Conferência Geral da UNESCO decidiu proclamar o dia 5 de Maio de cada ano como "Dia Mundial da Língua Portuguesa".

A língua portuguesa é não só uma das línguas mais difundidas no mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados por todos os continentes, como é também a língua mais falada no hemisfério sul. O português continua a ser, hoje, uma das principais línguas de comunicação internacional, e uma língua com uma forte extensão geográfica, destinada a aumentar.

Os Dias consagrados às línguas faladas em todo o mundo celebram anualmente o multilinguismo e a diversidade cultural, e constituem uma oportunidade para sensibilizar a comunidade internacional para a história, a cultura e a utilização de cada uma destas línguas. O multilinguismo, um valor central das Nações Unidas e uma área de importância estratégica para a UNESCO, é um fator essencial para uma comunicação harmoniosa entre os povos, promovendo a unidade na diversidade, a compreensão internacional, a tolerância e o diálogo. (daqui)

 

domingo, 4 de maio de 2025

"A Minha Mãe" - Poema de Américo Durão

 


Francesco Valaperta
(Italian painter, 1836 - 1908), "Who loves me most?", 1883.
 Private collection.


A Minha Mãe


Lembra alvuras de cisne sobre um lago,
A minha vida imaculada e honesta;
Oiço bater meu coração em festa,
Pela bondade e amor que nele trago.

Do meu orgulho olímpico de mago,
Só o desdém aos meus inimigos resta,
Maior que às folhas mortas da floresta
Que nos meus dedos pálidos esmago.

Mas a piedade enche o meu peito e vem,
Em vez de tão humano e vil desdém,
Ungir meus lábios num perdão divino.

– Julguei ser Deus… E choro de cansaço!
Ó mãe piedosa, embala no regaço,
Meu coração exausto de menino. 
 

Américo Durão,
in “Alma Nova” – Revista de Ressurgimento Nacional
III Série Nos. 4 a 6 Dezembro – Março 1923
(daqui)
 

sábado, 3 de maio de 2025

"Telha de menos" - Poema de Gilberto Mendonça Teles

 

João Batista da Costa
(Pintor, desenhista, professor e ilustrador brasileiro, 1865-1926),
 Fazenda de Brejinho, c. 1920.


Telha de menos

 
Minha casa tem uma telha de menos
e uns macaquinhos brincando no sótão.

Quando há chuva,
cai um pouco de chuva na varanda;
quando há sol,
passa um feixe de luz nos remansos da sala;
e quando há vento,
a música se esparrama pelo quarto
embalando alguns sonhos e pesadelos.
 
Às vezes passa rápido a figura de um pássaro,
outras vezes apenas um riso de borboleta,
uma nesga de nuvem e o brilho de um avião
nos rumos do Brasil.

Mas é a noite que uma das três Marias
se debruça no espaço azul da minha casa.


 Gilberto Mendonça Teles, in "Plural de nuvens".
Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1990.
 
 
João Batista da Costa, Paisagem de Petrópolis (Bosque com Riacho), s.d.
Museu de Arte de São Paulo



"O mundo é um belo lugar e vale a pena lutar por ele e eu detesto muito deixá-lo."

Ernest Hemingway, For Whom the Bell Tolls, 1940.
 
 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

"Plano" - Poema de Nuno Júdice


 
Charles Spencelayh (English painter, 1865–1958), A Cure for Everything, 1947.


Plano 


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.


Nuno Júdice
, in "Poesia Reunida"