terça-feira, 22 de novembro de 2011

"Numa tarde de outono" - Poema de Olavo Bilac


Mauro Ferreira, Praia de Botafogo, 1830, Óleo sobre tela


Numa tarde de outono


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...


Olavo Bilac, in "Poesias"


"A Estrela" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Alfred Stevens (Belgian painter, 1823–1906), On a Stroll, n.d.
 
 
A Estrela
 

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava.

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada.

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava.

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu.

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava.

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava.

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada.

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava.

E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza.

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água.

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado.

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto»


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Livro Sexto, 1962.
 

Nat King Cole - "Unforgettable"


"Cântico Negro" - Poema de José Régio



Giovanni Segantini (Austrian-born stateless painter, 1858–1899),
'Love at the Fountain of Life', 1896, Galleria d'Arte Moderna, in Milan.


Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos... 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos... 

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio (1901–1969),  
in 'Poemas de Deus e do Diabo', 1925



Nat King Cole - When I Fall In Love



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

"Mãe, eu estou tão cansado" - Poema de José Jorge Letria


Sir John Lavery (Northern Irish painter, 1856–1941), Self-Portrait, 1928.
National Museums Northern Ireland
 
 
Mãe, eu estou tão cansado 


Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos 
o chamamento da água, o chamamento sibilino 
que se confunde com o ranger das portas das casas 
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz 
de me resgatar e que dentro dele se perfilem 
as sombras e os gestos, exército dos meus medos 
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida 
das camas. Mãe, a luz não se demora no meu quarto, 
morre nas corolas das flores que trouxeste 
para o riso não murchar, e eu fico doente só de olhar 
os muros onde a hera é espiral de espanto, raiz 
de uma enfermidade latente. Não voltarei 
às actas do desespero, que são sombrias e magras 
como os corpos dos amantes que definham sobre a areia 
na fúria da maré, com uma gramática de murmúrios 
escondida na solidão branca das dunas, mãe. 


José Jorge Letria, in "Actas da Desordem do Dia"
 
 
 
   Sir John Lavery, On the Riviera / The Honeymoon, 1921 


Quietude profunda —
De quando em quando uma brisa
e a queda de pétalas.

Teruko Oda
 (Haicai / Haikai / Haiku)
 

"Poema à Mãe" - Eugénio de Andrade



Robert Duncan (American artist, b. 1952) 


Poema à Mãe 


No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
Era uma vez uma princesa 
no meio de um laranjal... 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 


in "Os Amantes Sem Dinheiro"


Rui Veloso e Mariza - Não queiras saber de mim

  

 
 
Não queiras saber de mim


Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate 
Pior do que eu não há 
Fico fora de combate 
Como se chegasse ao fim 
Fico abaixo do tapete 
Afundado no serrim 

Não queiras saber de mim 
Porque eu estou que não me entendo 
Dança tu que eu fico assim 
Hoje não me recomendo 

Mas tu pões esse vestido 
E voas até ao topo 
E fumas do meu cigarro 
E bebes do meu copo 
Mas nem isso faz sentido 
Só agrava o meu estado 
Quanto mais brilha a tua luz 
Mais eu fico apagado 

Dança tu que eu fico assim 
Porque eu estou que não me entendo 
Não queiras saber de mim 
Hoje não me recomendo 

Amanhã eu sei já passa 
Mas agora estou assim 
Hoje perdi toda a graça 
Não queiras saber de mim 




Rui Veloso / Luz Casal - Inesperadamente

  

domingo, 20 de novembro de 2011

"Terra - 24" - Poema de Fernando Namora



Carl Friedrich Moritz Müller (German painter, 1807–1865),
'Andreas Hofer's farewell', 1836



Terra - 24


António, é preciso partir!
o moleiro não fia,
a terra é estéril,
a arca vazia,
o gado minga e se fina!
António, é preciso partir!
A enxada sem uso,
o arado enferruja,
o menino quer o pão; a tua casa é fria!
É preciso emigrar!
O vento anda como doido – levará o azeite;
a chuva desaba noite e dia – inundará tudo;
e o lar vazio,
o gado definhando sem pasto,
a morte e o frio por todo o lado,
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António!
É preciso embarcar!
Badalão! Badalão! – o sino
já entoa a despedida.
Os juros crescem;
o dinheiro e o rico não têm coração.
E as décimas, António?
Ninguém perdoa – que mais para vender?
Foi-se o cordão,
foram-se os brincos,
foi-se tudo!
A fome espia o teu lar.
Para quê lutar com a secura da terra,
com a indiferença do céu,
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra,
com tudo!
Árida, árida a vida!
António, é preciso partir!
António partiu.
E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio.


Fernando Namora, in 'Terra' 


Yanni - Nostalgia

"Procuro-te" - Poema de Eugénio de Andrade


(Imagem retirada da internet) 



Procuro-te


Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 

Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido. 

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 

Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 


Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"


Yanni - Voyage