quinta-feira, 18 de junho de 2015

"Cantiga" - Poema de João Cabral do Nascimento





Cantiga


Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar. 


in «366 Poemas que falam de Amor»,
Antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Lisboa: Quetzal, 2003


Pintura de Peder Severin Krøyer. Hip hip hurra! Festa de artistas em Skagen em 1888. 

Da esquerda para a direita: Martha Johansen, Viggo Johansen, Christian Krohg, P.S. Krøyer, Degn Brøndum (irmão de Anna Ancher), Michael Ancher, Oscar Björck, Thorvald Niss, Helene Christensen, Anna Ancher e Helga Ancher. Museu de Arte de Gotemburgo.

"Meditação" - Poema de Fernanda de Castro


Berthe Morisot, Portrait de Mme Morisot et de sa fille Mme Pontillon ou La lecture
 (The Mother and Sister of the Artist - Marie-Joséphine & Edma) 1869/70


Meditação


Esta noite foi longa. Longa e vária
de segredo e mistério. Noite densa.
Invisível, tirânica presença
povoou a minha noite solitária.

Ah, a insónia com longas mãos de opala
e fundos olhos cegos!
E o pensamento à solta como o vento
- montes e vales, oceanos, pegos!...
e a cabeça que estala,
a cabeça que estala!

Pensar! Como se o humano entendimento
para tanto chegasse! Meditar
em sofás de ridículas saletas
no sábio movimento dos planetas.
Filosofar, oh irrisão,
enquanto mal ou bem
se faz a digestão,
sobre a morte, o devir,
o mistério do ser e do não ser,
e tudo isto a sério, sem sorrir,
como se enfim tudo estivesse dito:
o Caos, a Criação, Deus e o Infinito.
E nem sequer escondes por decoro,
triste mortal com asas de besouro,
ó depenado arcanjo,
que te crês Deus ou pelo menos anjo. 

Esta noite foi longa. Longa em mim,
auroral e lunar, sem princípio nem fim.
Meditação
inútil sobre as grades da prisão.
Meditação sobre a existência,
(Existirá ou não?,
ou será tudo simples aparência,
coletiva ilusão?)

Esta noite foi longa. Longa e bela,
calma e branca vigília.
Um fio de luar entrou pela janela
e um doce cheiro a tília.
Abstrações metafísicas, problemas?
O firmamento era um brocado azul bordado a ouro,
fabuloso tesouro
de incomparáveis gemas.
Tudo era silêncio, quietação.
Compreendi então
que o essencial não era compreender
mas sentir e aceitar
a vida e a morte, o bem e o mal,
a flor, o luar
e a ignorância total.
Não mais filosofias de vaidoso esteta
e não mais este orgulho: sou poeta.
Razão
tem-na, talvez, o louco sem razão,
tem-na o monge na cela,
o cego de nascença, a pedra, o sapo,
a boneca de trapo.
O mais é tudo igual: poetas, corifeus...

Esta noite foi longa. Longa e bela.
Encontrei Deus.


Fernanda de Castro, in "Exílio", 1952.
 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

"Instrução Primária" - Poema de Miguel Torga



Vincenzo Irolli (Italian painter, 1860–1949), A Schoolboy's Nap


Instrução Primária 


Não saibas: imagina...
Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um a-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...


Miguel Torga (1907–1995), 
in  Diário, Vol. IX, pág. 65



Vincenzo Irolli, Young Girl with a Doll



"Cada um de nós, enquanto cidadão, tem um papel a desempenhar 
na criação de um mundo melhor para as nossas crianças."

Nelson Mandela


terça-feira, 16 de junho de 2015

"O amor comeu meu nome" - Poema de João Cabral de Melo Neto


Michael Ancher (Danish realist artist, 1849-1927), "Portrait of my wife", 1884, 
Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859-1935).
 
 
 
O amor comeu meu nome


O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


João Cabral de Melo Neto, Os Três Mal-Amados, 1943
 
 
Michael Ancher (Danish realist artist, 1849-1927), Self-portrait, 1902.
 
 
"Todo artista molha seus pincéis em sua alma, e pinta sua própria natureza".
 
"Every artist dips his brush in his own soul, and paints his own nature into his pictures."
 
 Henry Ward Beecher, Norwood, or, Village life in New England - Página 69,
 Charles Scribner & Company, 1868 - 549 páginas

segunda-feira, 15 de junho de 2015

"Canção a meia voz" - Poema de João Cabral do Nascimento





Canção a meia voz


A minha vida é sempre ontem
E o meu desejo, amanhã.
Hoje é uma coisa parada.
Nada sei nem faço nada.
Certeza é palavra vã.

Não sou. Ou fui ou serei.
Se ao menos tivesse fé!
Corro atrás duma quimera.
Ou então fico-me à espera,
Porém à espera de quê?

Porque abri as minhas mãos
E deixei fugir o instante
Que havia nelas ainda?
Agora o nada não finda
E o tudo é sempre distante!

Virás tu ao meu encontro,
Ou sou eu que devo achar-te?
Quem pudera descansar! 
Ver, ouvir e não pensar!
Ser aqui e em toda a parte!

Chego tarde ou muito cedo.
Ou paro aquém ou além.
Houvesse algo para mim
Sem ter principio nem fim, 
Sem ser o mal nem o bem!


 (1897-1978)


P S Krøyer, Self-portrait, 1897, Hirschsprung Collection  


Peder Severin Krøyer (23 de Julho de 1851 - 21 de Novembro de 1909), conhecido como P.S. Krøyer, foi um pintor Norueguês-Dinamarquês. Ele é um dos mais conhecidos e o mais colorido dos Pintores de Skagen, uma comunidade de artistas dinamarqueses e dos países nórdicos que viveram, trabalharam ou se encontravam em Skagen, na Dinamarca, especialmente durante as décadas finais do século XIX. Krøyer era o líder não oficial do grupo.
 

domingo, 14 de junho de 2015

"Fachadas" - Poema de Tomas Tranströmer



Jean Béraud (French painter, 1849–1935), 'La sortie de théâtre' 


Fachadas

I 

Ao fim do caminho vejo o poder 
Lembra uma cebola 
com rostos sobrepostos 
que vão caindo uns após outros… 

II 

Os teatros esvaziam-se. É meia-noite. 
Letreiros flamejam nas fachadas. 
O mistério das cartas sem resposta 
afunda-se por entre a fria cintilação. 

Tradução de Luís Costa



Jean Béraud, 'Self-portrait', ca. 1909

Jean Béraud (São Petersburgo, Rússia, 12 de janeiro de 1849 - Paris, França, 4 de outubro de 1935) foi um pintor impressionista francês, supostamente nascido enquanto seu pai, um escultor que muito impulsionou a carreira artística do filho, trabalhava em obras da Catedral de Santo Isaac.
Famoso por retratar as cenas da vida quotidiana parisiense da Belle Époque, foi aluno de Léon Bonnat.



Jean Béraud, 'Les Grands Boulevards: Le Théâtre des Variétés'


"As Flores do Monte" - Poema de A. Xavier Rodrigues Cordeiro


Michael Ancher (Danish realist artist, 1849 - 1927),
 Anna Ancher returning from the field, 1902. 



As Flores do Monte


Um ramo agreste do monte.
Não te esqueci, não se creia,
Enlevava-me o horizonte,
Não me passavas da ideia.

Na frente o muro da Infesta,
Altas serras mais além,
Ao pé o rumor da festa,
E tu presente, meu bem!

Ao poente as doidas vagas
Em luta erguidas no mar,
Aos meus pés as rudes fragas
Tu sempre, sempre a lembrar!

Toda a rústica paisagem
Me arrebatava um momento;
Lembrava-me a tua imagem,
Volvias ao pensamento!

Na ermida rezava o monge,
A festa crescia perto,
Eu era só, e tu longe
Povoavas o meu deserto.

E que o amor como a saudade
Sempre na ausência se apura;
De ti longe quem não há de
Amar-te com mais ternura?


António Xavier Rodrigues Cordeiro
(1819-1896)



Anna Ancher, Appraising the Day's Work, 1883, Anna and Michael Ancher looking at their work.