quinta-feira, 1 de junho de 2017

"Amor" - Poema de Alfredo Brochado


Cecily Brown, Combing the Hair (Côte d’Azur), 2013



Amor


Tu acendeste-me o lume,
Naquela tarde de frio. E do jardim,
Solitário e sombrio,
Vinha até mim
Um suave perfume
De goivos a morrer.

Sobre a cidade calma,
As nuvens, uma a uma,
Como flocos de espuma,
Passavam a correr.

Era uma tarde, das tardes mais frias!
E as coisas não me sorriam.
Somente,
Doente,
Tu me sorrias.

Na vidraça, como gelo,
Soluçaram gotas de água.
Afaguei o teu cabelo,
Com alegria e com mágoa.

Era uma tarde sombria,
De luz bem singular.
Tarde tão fria,
Até parecia
Que tudo ia gelar.


Alfredo Brochado
,
in "Bosque Sagrado"


quarta-feira, 31 de maio de 2017

"O Ator" - Poema de Herberto Helder


George Grosz, The Eclipse of the Sun, 1926, Oil on canvas, 207.3 x 182.6 cm
 


O Ator


O ator acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O ator põe e tira a cabeça 
de búfalo, 
de veado, 
de rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o ator.
O ator acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela. 
Bocado janela para fora. 
Outro bocado gruta para dentro.
O ator toma as coisas para deitar fogo 
ao pequeno talento humano.
O ator estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente 
na noite, é o ator, com
uma voz pura, monotonamente batida 
pela solidão universal.
O espantoso ator que tira e coloca
e retira 
o adjetivo da coisa, a subtileza 
da forma 
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã na sua 
divagação de maçã. 
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o ator está como a maçã.
O ator é um peixe.

Sorri assim o ator contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O ator que subtrai Deus de Deus
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o ator é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O ator diz uma palavra inaudível.
Reduz a humanidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O ator acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O ator é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamentecomo o ator.
Como a unidade do ator.

O ator é um advérbio que ramificou
de um substantivo. E o substantivo retorna e gira,
e o ator é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O ator é o grande nome cheio de holofotes. 
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o ator levanta o corpo, 
enche o corpo com melodia,
corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o ator.
Como o corpo do ator.

Porque o talento é a transformação.
O ator transforma a própria ação
da transformação.
Solidifica-se. Gasifica-se. Complica-se.
O ator cresce no seu ato.
Faz crescer o ato.
O ator atifica-se.
É enorme o ator com sua ossada de base,
com suas tantas janelas, 
as ruas.
O ator com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o ator,
como o secreto ator.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O ator ama em ação de estrela. 
Ação de mímica.
O ator é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O ator vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O ator vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o ator.
Como a essência do amor do ator.
O teatro geral

O ator em estado geral de graça.



 
George Grosz, The Pillars of Society, 1926


"De uma maneira geral, os seres humanos podem ser divididos em três classes: aqueles que se matam com trabalho, os que se matam com preocupações e aqueles que se matam de tédio." - Winston Churchill


terça-feira, 30 de maio de 2017

"Todo o tempo é de poesia" - Poema de António Gedeão



Abbott Fuller Graves (American painter and illustrator, 1859–1936),
"Woman with a Flower Basket", 1925. Oil on Canvas, 76.2 × 63.5 cm.
Private Collection.
 

Todo o tempo é de poesia


Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.


in 'Movimento Perpétuo' 


segunda-feira, 29 de maio de 2017

"Confissão" - Poema de Charles Baudelaire


 


Confissão

Uma vez, uma só, graciosa e doce amante,
Teu suave braço sobre o meu
Pousou (no fundo em trevas de minha alma, o instante
Que então vivemos não morreu);

Era bem tarde; qual efígie luminosa,
A lua cheia se exibia,
Enquanto a noite, como um rio, majestosa,
Sobre Paris em calma fluía.

E junto às casas, por debaixo dos portais,
Gatos furtivos se moviam,
O ouvido alerta, ou, como sombras fraternais,
A passo lento nos seguiam.

Súbito, em meio àquela intimidade franca
Nascida a luz ainda escassa,
De ti, rico instrumento ao qual nunca se arranca
Senão a mais vibrante graça,

De ti, alegre e clara como uma fanfarra
Imersa na manhã radiante,
Uma nota queixosa, uma nota bizarra
No ar oscilou toda hesitante

Qual menino franzino e macilento e imundo,
A quem os pais, por pejo ou medo,
Longo tempo escondessem aos olhos do mundo,
Como se esconde um vil segredo.

Anjo infeliz, ela trauteava a nota aguda:
“Aqui na Terra é tudo engano,
E mesmo que a si próprio alguém sempre se iluda,
Revela-se o egoísmo humano;

Ser bela é ofício cujo preço se conhece,
É o espetáculo banal
Da bailarina louca e fria que fenece
Com um sorriso maquinal;

Semear nos corações é sucumbir ao pranto;
Finda-se o amor, vem a saudade,
Até que o Esquecimento os arremesse a um canto
E os lance enfim à Eternidade!”

Muita vez evoquei esta lua encantada,
Este silêncio noite afora,
E esta medonha confidência sussurrada
Ao coração que a escuta agora.


Charles Baudelaire, in As flores do mal
Tradução de Ivan Junqueira

domingo, 28 de maio de 2017

"Deus" - Poema de Casimiro de Abreu


Hans Dahl (Norwegian, 1849-1937), Summer Day



Deus


Eu me lembro! eu me lembro! – Era pequeno 
E brincava na praia; o mar bramia 
E erguendo o dorso altivo, sacudia 
A branca escuma para o céu sereno 

E eu disse a minha mãe nesse momento: 
“Que dura orquestra! Que furor insano! 
“Que pode haver maior que o oceano, 
“Ou que seja mais forte do que o vento?!”

Minha mãe a sorrir olhou pr’os céus 
E respondeu: – “Um Ser que nós não vemos 
“É maior do que o mar que nós tememos, 
“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!”


Casimiro de Abreu, in As Primaveras, 1859
 

sábado, 27 de maio de 2017

"Chama e Fumo" - Poema de Manuel Bandeira



Émile Eisman-Semenowsky (Russian-born, French-Polish painter,
1857–1911), 'Beauty in Pink' (also known as 'Coquette'), 1900



Chama e Fumo 


Amor – chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor – chama, e, depois, fumaça... 

Tanto ele queima! – e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor – chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor – chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... – chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa... 


Manuel Bandeira,
in 'A Cinza das Horas', 1917 
 

"A velhice pede desculpas" - Poema de Cecília Meireles



Abbott Fuller Graves (American painter and illustrator, 1859–1936), 'Yankee Peddler'
 

A velhice pede desculpas


Tão velho estou como árvore no inverno, 
vulcão sufocado, pássaro sonolento. 
Tão velho estou, de pálpebras baixas, 
acostumado apenas ao som das músicas, 
à forma das letras. 

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético 
dos provisórios dias do mundo: 
Mas há um sol eterno, eterno e brando 
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir. 

Desculpai-me esta face, que se fez resignada: 
já não é a minha, mas a do tempo, 
com seus muitos episódios. 

Desculpai-me não ser bem eu: 
mas um fantasma de tudo. 
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo, 
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras. 

Desculpai-me viver ainda: 
que os destroços, mesmo os da maior glória, 
são na verdade só destroços, destroços. 


Cecília Meireles, in 'Poemas', 1958