segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

"Vocabulário" - Poema de Laís Corrêa de Araújo





Vocabulário


Gosto das palavras
infecto e nauseabundo
— palavras que silabam
em rude contraponto
a avaria do mundo.

De umas palavras quentes
— casa, cama, mesa —
que escapam pretéritos
e futuros presentes
em sua reta clareza.

Certas partes do corpo
que bem que sonorizam:
— púbis, hímen, vagina —
palavras que batizam
a encoberta mina.

E gosto de orgasmo
palavra atravessada
como um espinho agudo
que rascante lateja
um momento de pasmo.

Também gosto de enfarte
— palavra lancinante
que quando se presenta
nem se diz — e parte
a vida num instante.


 em "Decurso do prazo".



domingo, 7 de janeiro de 2018

"Os sobreviventes" - Poema de José Godoy Garcia


Joseph Anton Koch (Austrian painter, 1768-1839),
Heroische Landschaft mit Regenbogen, 1805.



Os sobreviventes


Quando todos imaginavam a vida sem sentido
chegaram de manhã os sobreviventes,
e levantaram suas moradas, estiveram no rio,
procuravam o rebanho disperso, preparavam
o alimento, cantavam, derramavam
o suor nos campos, faziam fogo à noite
rememoravam o corpo de suas mulheres,
despachavam os barcos, pela manhã.
As chuvas eram sempre bem-vindas,
as chuvas levantavam o pó da terra
e enchiam de confiança a face da vida.
As mulheres viam nascer dentro de si
um novo rebento, os seus ventres cresciam.
Nenhum sinal de confiança quando as mulheres
apareciam de ventre crescido.
Os dias eram os mesmos, a esperança
e a desesperança eram as mesmas.


José Godoy Garcia
,
no livro "Poesia: 50 anos de poesia"
 

sábado, 6 de janeiro de 2018

"Amor" - Poema de Joseph Brodsky



Madeleine Lemaire (Peintre, illustratrice et salonnière française, 1845-1928),
Rêverie du soir.
 

Amor


Duas vezes despertei, durante a noite, e fui
para a janela. As lâmpadas, na rua,
eram um pedaço de uma frase dita em sonhos,
levando a parte alguma, como reticências,
sem trazer consolo ou alegria.

Sonhei contigo, quando grávida, e hoje;
tenho vivido tantos anos longe de ti,
senti toda a minha culpa; e suas mãos,
ao tocaram alegremente o teu ventre,
estavam na verdade remexendo

no interruptor da luz. Indo até a janela,
percebi ter-te deixado lá sozinha,
no escuro, no sonho, onde pacientemente
me esperaste, sem me culpar,
até que voltei daquela insólita

interrupção. Pois o escuro, este que a luz
finalmente rompe, dura muito;
nele nos casamos, foi nele que fizemos
amor; e as crianças vieram para
justificar nossa nudez.

Em alguma noite do futuro virás
de novo para mim, cansada, mais magra,
e verei um filho ou filha,
ainda sem nome – desta vez
não correrei para a tomada, nem

tirarei a mãos, pois não tenho o direito
de te abandonar nos domínios das sombras
silenciosas, diante da cerca dos dias,
caindo na dependência de uma realidade
que me contém – e inatingível.


Tradução de Lauro Machado Coelho

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

"Dimensões" - Poema de Laura Riding



Edvard Munch (Norwegian painter, 1863–1944), Anxiety, 1894, 94 × 74 cm.
Munch Museum, Oslo



Dimensões


Meçam-me para um funeral 
Com minha cova rasa expressando 
De um jeito preciso, euclidiano, 
Meu ser tridimensional. 

Pode ser a vida tão pequena, tão magra? 
Meça-me no tempo. Mas o tempo não avança 
E é estranho e nada sabe de lei ou de mudança 
Mas só de morte, que é nada de nada. 

Meçam-me pela beleza. 
Mas beleza é o primeiro nome que a morte 
Deu à vida, seu primeiro falecer, chama 
Que tremeluz, um amaranto que se apaga 
E se apaga de novo na sombra mortiça da morte. 

Meçam-me não pela beleza, que teme lutar. 
Pois a beleza faz trégua com a morte, 
Comprando desonra e morte eterna 
Na esperança de sobreviver a vida. 

Meçam-me então pelo amor – mas não ainda, 
Pois lembro-me de vezes em que ele buscava 
Suas próprias medidas em mim, 
Mas fugiu, com medo que eu pudesse predizer 
Quão ampla e alta eu mesma era, profunda 
E de múltiplas medidas, mudando 
Minha escala sobre ele e assim provando 
Que tanto eu quanto ele éramos nada. 

Meçam-me por mim mesma 
E não pelo tempo nem amor nem espaço 
Nem pela beleza. Dêem-me só esta última graça: 
Que em minha lápide eu possa 
Ser uma régua eu mesma. 
Não gostaria que essas velhas crenças fracassassem 
E provassem que até eu era nada. 

 
Laura Riding
, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

"O adeus" - Poema de Yves Bonnefoy



Charles Courtney Curran (American impressionist painter,
1861–1942), 'Self-Portrait', 1892


O adeus


Estamos de regresso à nossa origem.
Foi o lugar da evidência, mas rasgada.
As janelas mesclavam muitas luzes,
As escadas galgavam estrelas demais
Que são arcadas desabando, são entulhos,
O fogo parecia arder num outro mundo.

E agora voam pássaros de quarto em quarto,
Caíram as janelas, cobre-se o leito de pedras,
O lar cheio de escombros do céu a se apagarem.
Ali falávamos, à noite, em voz velada
Por causa dos rumores dos arcos, lá no entanto
Formávamos projetos: e uma barca,
Carregada de pedras rubras, se afastava
Irresistível de uma margem, e o olvido
Já deitava sua cinza sobre os sonhos
Que retomávamos sem fim, a povoar de imagens
O fogo que queimou até o último dia.

É certo, minha amiga,
Que há apenas um termo para designar
Na língua que chamamos de poesia
O sol do amanhecer e o da tarde,
Um só o grito de júbilo e o grito de angústia,
Um só o deserto rio acima e as machadadas,
Um só o leito desfeito e o céu de tempestade,
Um só a criancinha a nascer e o deus morto?

Sim, creio, quero crer, mas que sombras são essas
Que consigo carregam o espelho?
E vê, a urze pega em meio às pedras
Na via de relva ainda mal aberta
Onde iam nossos passos às árvores novas.
Parece-me hoje, aqui, que a palavra
É esse cocho partido, de que se derrama
A cada alva de chuva a água inútil.

A relva e nela a água a brilhar como um rio.
Tudo está sempre a remalhar o mundo.
O paraíso é esparso, bem o sei,
É tarefa terrestre lhe reconhecer
As flores esparzidas pela relva pobre,
Mas desapareceu o anjo, uma luz
Quem não foi de repente mais que o sol poente.

E como Adão e Eva nós caminharemos
Uma última vez pelo jardim.
Como Adão o primeiro remorso, como Eva
A primeira coragem vamos querer e não
Passar a porta baixa que se entreabre
Lá adiante, na outra ponta das cordas, colorida
Como de último raio, auguralmente.
O futuro acaso pega-se na origem
Como consente o céu a um espelho curvo,
Poderemos colher daquela luz,
Que foi daqui o milagre, a semente nas mãos
Sombrias, para outras poças no segredo
De outros campos “barrados de pedras”?

Sim, o lugar para vencer, para vencer-nos, é aqui
De onde partimos, esta noite. Aqui sem fim
Tal como aquela água que escapa do cocho. 


Yves Bonnefoy, in 'Obra Poética'.
Tradução de Mário Laranjeira



Charles Courtney Curran, 'The Artist's Father', 1911



"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla."

(David Hume)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

"A perdida esperança" - Poema de Vinicius de Moraes


Eduard Ansen-Hofmann, At Her Toilette


A perdida esperança

(Paris)

De posse deste amor que é, no entanto, impossível 
Este amor esperado e antigo como as pedras 
Eu encouraçarei o meu corpo impassível 
E à minha volta erguerei um alto muro de pedras. 

E enquanto perdurar tua ausência, que é eterna 
Por isso que és mulher, mesmo sendo só minha 
Eu viverei trancado em mim como no inferno 
Queimando minha carne até sua própria cinza. 

Mas permanecerei imutável e austero 
Certo de que, de amor, sei o que ninguém soube 
Como uma estátua prisioneira de um castelo 
A mirar sempre além do tempo que lhe coube. 

E isento ficarei das antigas amadas 
Que, pela Lua cheia, em rápidas sortidas 
Ainda vêm me atirar flechas envenenadas 
Para depois beber-me o sangue das feridas. 

E assim serei intacto, e assim serei tranquilo 
E assim não sofrerei da angústia de revê-las 
Quando, tristes e fiéis como lobas no cio 
Se puserem a rondar meu castelo de estrelas. 

E muito crescerei em alta melancolia 
Todo o canto meu, como o de Orfeu pregresso 
Será tão claro, de uma tão simples poesia 
Que há de pacificar as feras do deserto. 

Farto de saber ler, saberei ver nos astros 
A brilharem no azul da abóbada no Oriente 
E beijarei a terra, a caminhar de rastros 
Quando a Lua no céu contar teu rosto ausente. 

Eu te protegerei contra o Íncubo 
Que te espreita por trás da Aurora acorrentada 
E contra a legião dos monstros do Poente 
Que te querem matar, ó impossível amada!




terça-feira, 2 de janeiro de 2018

"Quando o amor se achega" - Poema de Yeda Prates Bernis





Quando o amor se achega


Quando o amor se achega
e, no outro, não encontra
espaço aberto,
ele, humilde, se aconchega
a si mesmo. E descoberto
se agasalha com pesado manto
do temor, dúvida e espanto.

E a tempo pede
que o acalente,
à desventura
que o sustente
não mais que o prazo certo,
e a um vento
inexistente que o leve
em momento brando e breve.