quinta-feira, 16 de agosto de 2018

"Soneto de separação" - Poema de Vinicius de Moraes



Émile Bernard
(Peintre, graveur et écrivain français, 18681941), 
'Autoportrait symbolique', 1891, Musée d'Orsay.


Soneto de separação


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinicius de Moraes

[Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot,
a caminho da Inglaterra, setembro de 1938.]



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