quinta-feira, 22 de junho de 2017

"Minha aldeia" - Poema de António Gedeão


Hans Andersen Brendekilde (Danish painter, 1857–1942),
 'Reading the Newspaper', 1912. 


Minha aldeia


Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão. 

Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que emergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.


António Gedeão,
in 'Teatro do Mundo', 1958.
 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

"A Minha Dor" - Poema de Teixeira de Pascoaes



Carl Friedrich Moritz Müller (German painter, 1807–1865), 'Waldbrand' (Forest Fire)



A Minha Dor


Tua morte feriu-me no mais fundo, 
Remoto da minh'alma que eu julgava 
Já fora desta vida e deste mundo! 

E vejo agora quanto me enganava, 
Imaginando possuir em mim 
Alma que fosse livre e não escrava! 

Meu espírito é treva e dor sem fim. 
Todo eu sou dor e morte. Sou franqueza. 
Sou o enviado da Sombra. Ao mundo vim 

Pregar a noite, a lágrima, a incerteza, 
A luz que, para sempre, anoiteceu... 
Esta envolvente, essencial tristeza, 

Tristeza original donde nasceu 
O sol caindo em lágrimas de luz, 
Choro de oiro inundando terra e céu! 

Sou o enviado da Sombra. Em negra cruz, 
Meu ilusório ser crucificado 
Lembra um morto fantasma de Jesus... 

E aos pés da minha cruz, no chão magoado, 
A tua Ausência é a Virgem Dolorosa, 
Com tenebroso olhar no meu pregado. 

Ah! quanto a minha vida religiosa, 
Depois que te perdeste no sol-posto, 
Se fez incerta, frágil e enganosa! 

Em meu ser desenhou-se um novo rosto. 
Sou outro agora; e vejo com pavor 
Minha máscara interna de desgosto. 

Vejo sombras à luz da minha dor... 
Sombras talvez de eternas Criaturas 
Que vivem na alegria do Senhor... 

E quem sabe se os Mortos, nas Alturas, 
Vivem na paz de Deus, em sítios ermos, 
Entre flores, sorrisos e venturas?... 

E quem sabe se as dores que sofremos 
E nosso corpo e alma, não são mais 
Que as suas vagas sombras irreais?... 

Ah, nós somos ainda o que perdemos... 


Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'


sábado, 17 de junho de 2017

"O Deus Dará" - Poema de Reynaldo Valinho Alvarez



Émile Eisman-Semenowsky (Russian-born, French-Polish painter,
1857–1911), 'Genre Scene', 1893


O Deus Dará


ao deus-dará
vou como vou

tudo que sou
foi ou será

não sei se o tempo
trará ou não
de supetão
um contratempo

quando galopa
age sem jeito
torna imperfeito
tudo que topa

o que está morto
morto ficou
quem o enterrou
lhe deu um porto

mas na memória
de cada tarde
ainda que tarde
se conte a história

cada domingo
tem sua tarde
que sem alarde
cai como um pingo

mas há uma só
pra cada um
e não nenhum
que a atire ao pó

há uma apenas
que me recorda
em dose gorda
coisas amenas

que a tarde fique
como um menino
atento ao sino
e a se repique


Que a tarde guarde sempre o som de um sino
Ecoando alegrias de menino.


Reynaldo Valinho Alvarez,
in 'Galope do Tempo'

quinta-feira, 15 de junho de 2017

"Relâmpago" - Poema de Fernando Pinto do Amaral



Franz von Lenbach (German painter, 1836–1904), Family von Lenbach, 1903
(Self-Portrait with his wife and daughters), Lenbachhaus.


Relâmpago


Rompe-se a escuridão quando ao olhar 
para uma face o mundo se ilumina 
com uma claridade repentina 
capaz de, só por si, fazer brilhar 

a substância tão irregular 
de tudo o que se acende na retina 
e através da luz se dissemina 
por entre imagens vãs, até formar 

um fluido movimento, uma paisagem 
a que estes olhos quase não reagem 
salvo se nesse instante o rosto for 

transfigurado pela fantasia. 
E às vezes é só isso que anuncia 
aquilo a que chamamos o amor. 
in "Às Cegas", 1997
 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

"Dá-me a festa mágica" - Poema de Pablo Neruda



 
Dá-me a festa mágica


DEUS - e de onde é que tiras para acender o céu
este maravilhoso entardecer de cobre?
Por ele soube encontrar de novo a alegria,
e a má visão eu soube torná-la mais nobre.

Nas chamas coloridas de amarelo e verde
iluminou-se a lâmpada de um outro sol
que fez rachar azuis as planícies do Oeste
e verteu nas montanhas suas fontes e rios.

Deus, dá-me a festa mágica na minha vida,
dá-me os teus fogos para iluminar a terra,
deixa em meu coração tua lâmpada acendida
para que eu seja o óleo de tua luz suprema.

E eu irei pelos campos na noite estrelada
com os braços abertos e a face desnuda,
cantando árias ingénuas com as mesmas palavras
com que na noite falam os campos e a lua.


Tradução de José Eduardo Degrazia



Antonio Vivald, 'The four seasons - Winter', Julia Fischer



“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar.”

(Sophia de Mello Breyner Andresen)
 

domingo, 11 de junho de 2017

“Eros e Psique” - Poema de Fernando Pessoa


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), 
'The Abduction of Psyche', c. 1895


Eros e Psique


Conta a lena que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 

Fernando Pessoa, Poesias 
 

François Gérard (French painter, 1770–1837), 'Cupid and Psyche', 1798,
also known as 'Psyche Receiving Cupid's First Kiss'. 


"A única anormalidade é a incapacidade de amar."



Jacques-Louis David, 'Cupid and Psyche', 1817


Eros e Psique

William-Adolphe Bouguereau, 'Cupido' (Love on the look out), 1890
 
 
Eros, o deus grego do amor e do desejo, conhecido na mitologia romana como Cupido, é filho de Afrodite e de um dos prováveis deuses: Ares, ou Hermes, ou Zeus. Sendo o mais jovem dos deuses, Eros é geralmente representado como uma criança alada, com arco e flecha, pronto a disparar sobre o coração de deuses e de mortais, suscitando-lhes o desejo e o amor. As flechas eram de dois tipos: as douradas, de penas de pomba, que suscitavam o amor, e as flechas de chumbo, com penas de coruja, que causavam a indiferença. Frequentemente com os olhos vendados para simbolizar a cegueira do amor, Eros tornava-se perigoso para os demais, pois disparava setas em todas as direções, chegando mesmo a atingir a própria mãe, que o castigava retirando-lhe as asas e o arco. 
Uma das lendas mais conhecidas do deus do Amor é a aventura amorosa com Psique, nome que em grego significa alma. 


 Jacques-Louis David, 'Psyché Abandonné', 1795, huile sur toile,
 collection particulière


Psique era uma princesa de uma beleza tão exultante que fazia ciúmes à própria Afrodite. Esta deusa deu instruções ao filho, Eros, para punir a audácia da princesa, fazendo com que esta se apaixonasse pelo homem mais feio do mundo, e Eros obedeceu. O pai da jovem, verificando que Psique era a única das suas três filhas que ainda não tinha casado, resolveu consultar o oráculo. Este revelou-lhe que deveria preparar Psique como para uma cerimónia nupcial e, em seguida, abandoná-la numa montanha junto de um rochedo, onde um monstro, seu futuro marido, a iria buscar. Assim se passou e, enquanto aguardava resignada a sua triste sorte, Psique foi recolhida pelos braços de Zéfiro, que a levou para um lindo palácio. Psique estava quase a adormecer, quando um ser misterioso apareceu na escuridão do seu quarto e lhe disse que era o marido a quem ela estava destinada. Era o belo Eros que desempenhava o papel de marido, tentando desta forma executar o castigo que Afrodite pedira, mas, ao ver Psique, apaixonou-se imediatamente por ela. Antes de desaparecer, pouco antes do amanhecer, Eros obrigou Psique a jurar que nunca tentaria ver o seu rosto. 

Com o passar do tempo, Psique apaixonou-se pelo ser misterioso até que um dia, ao visitar as irmãs, invejosas da sua felicidade, foi instigada a ver o rosto do seu marido. Então, curiosa, Psique resolveu seguir o conselho das irmãs. Assim, enquanto o marido estava a dormir silenciosamente, Psique acendeu uma vela e, em vez do monstro, encontrou o belíssimo Eros. Aproximando-se para o ver melhor, deixou cair uma gota de cera no ombro do deus. Eros acordou e, furioso, reprimiu-a pela sua curiosidade e pela quebra da promessa que lhe tinha feito e retirou-se. Ao mesmo tempo, desapareceu o palácio e Psique encontrou-se, de novo, na montanha, onde, desgostosa, tentou suicidar-se, atirando-se a um rio, mas as águas levaram-na de volta às margens. A partir de então, vagueou pelo mundo à procura do seu amor, e, perseguida pela ira de Afrodite, foi sujeita a muitos perigos que conseguiu vencer devido a uma misteriosa proteção. Finalmente, Eros, impressionado pelo arrependimento de Psique e pela fidelidade do seu amor, implorou a Zeus que deixasse Psique juntar-se a ele. Zeus concedeu a imortalidade a Psique, Afrodite esqueceu os seus ciúmes e o casamento foi celebrado, no Olimpo, com grandes festejos. 


Jacques-Louis David, 'Cupid and Psyche in the nuptial bower', oil, 1792–93


Nos vasos gregos antigos, Psique é representada com corpo de pássaro ecabeça humana ou como uma borboleta. Uma obra de arte que popularizou o mito de Eros e Psique é a obra escultórica de Antonio Canova (1757-1822), na qual "Psique é reanimada pelo beijo de Eros", e que se encontra no Louvre, em Paris (França). (daqui)



Antonio Canova (Escultor italiano, 1757–1822), 'Psique é reanimada pelo beijo de Eros',
versão do Louvre.


"O amor nunca morre de morte natural. Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte. 
Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, 
das devastações, da falta de brilho."

Anaïs Nin

quinta-feira, 8 de junho de 2017

"Os Pássaros de Londres" - Poema de Mário Cesariny


 
Maria Helena Vieira da Silva (Pintora portuguesa, naturalizada francesa,
1908–1992), Londres, 1959 


Os Pássaros de Londres


Os pássaros de Londres 
cantam todo o inverno 
como se o frio fosse 
o maior aconchego 
nos parques arrancados 
ao trânsito automóvel 
nas ruas da neve negra 
sob um céu sempre duro 

os pássaros de Londres 
falam de esplendor 
com que se ergue o estio 
e a lua se derrama 
por praças tão sem cor 
que parecem de pano 
em jardins germinando 
sob mantos de gelo 
como se gelo fora 
o linho mais bordado 
ou em casas como aquela 
onde Rimbaud comeu 
e dormiu e estendeu 
a vida desesperada 
estreita faixa amarela 
espécie de paralela 
entre o tudo e o nada 

os pássaros de Londres 
quando termina o dia 
e o sol consegue um pouco 
abraçar a cidade 
à luz razante e forte 
que dura dois minutos 
nas árvores que surgem 
subitamente imensas 
no ouro verde e negro 
que é sua densidade 
ou nos muros sem fim 
dos bairros deserdados 
onde não sabes não 
se vida rogo amor 
algum dia erguerão 
do pavimento cínzeo 
algum claro limite 

os pássaros de Londres 
cumprem o seu dever 
de cidadãos britânicos 
que nunca nunca viram 
os céus mediterrânicos 


in "Poemas de Londres" 


Maria Helena Vieira da Silva, Ville forte, 1960


"O futuro tortura-nos e o passado encandeia-nos. É por aí que se nos escapa o presente.