quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

"A torpe sociedade onde nasci" - Poema de António Aleixo

 


Wally Moes (Dutch genre painter and writer, 1856–1918), Lunch Hour, s.d.
 
 

A torpe sociedade onde nasci

I

Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

II

Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava para o martírio!

III

Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
— De ser vítima humilde ou ser algoz...

IV

E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom — como não é!

V

Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte... 

 
António Aleixo
, in "Este Livro que Vos Deixo"

 

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

"Quina - três elegias breves" - Poema de Rui Knopfli

 


Morton Livingston Schamberg (American modernist painter and photographer, 1881–1918),
Abstract Landscape, c. 1910-13.


 Quina - três elegias breves

1

Na fuga do tempo, breve
foi o trajeto. Nele coube,
porém - pão e vinho -, a intensa

alegria que, em redor,
generosamente partilhavas. Na tua,
principia a nossa morte.

2

Tínhamo-lo, quiçá, pressentido.
Nunca de forma tão súbita e brutal.
Julguei voltar à alegria do teu convívio.
Engano. Regresso ao teu lugar,

irremediavelmente vazio, ao eco
desvanecido dos teus passos, onde os nossos
se perdem também, ao silêncio
que nos legaste. Este, o lugar de encontro.

3

Nos caminhos da sua inescrutável
sabedoria, dá Deus com uma mão
o que, com a outra, retira. Da direita

colhemos infinita amizade, só para
que a esquerda, encurtando-nos
a vida, exígua de mais a tornasse

para que, numa ou noutra, ambas
coubessem. Perca-se, então, a vida.
Só a nossa morte, da tua nos libertará. 


Rui Knopfli, Obra Poética, 2003
 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

"O azul" - Poema de Stéphane Mallarmé

 

Maurice Prendergast (American artist, 1858–1924), Autumn in New England, 1910–13.
 
 

O azul 


De um infinito azul a serena ironia
Bela indolentemente abala como as flores
O poeta incapaz que maldiz a poesia
No estéril areal de um deserto de Dores.

Em fuga, olhos fechados, sinto-o que espreita,
Com toda a intensidade de um remorso aceso,
A minha alma vazia. Onde fugir? Que estreita
Noite, andrajos, opor a seu feroz desprezo?

Vinde, névoas! Lançai a cerração de sono
Sobre o límpido céu, num farrapo noturno,
Que afogarão os lodos lívidos do outono,
E edificai um grande teto taciturno.

E tu, ó Tédio, sai dos pântanos profundos
Da desmemória, unindo o limo aos juncos suaves,
Para tapar com dedos ágeis esses fundos
Furos de azul que vão fazendo no ar as aves.

Que sem descaso, enfim, as tristes chaminés
Façam subir de fumo uma turva corrente
E apaguem no pavor de seus torvos anéis
O sol que vai morrendo amareladamente!

- O Céu é morto. - Vem e concede, ó matéria,
O olvido do Ideal cruel e do Pecado
A um mártir que adotou o leito da miséria
Ao rebanho feliz dos homens reservado,

Pois quero, desde que meu cérebro vazio,
Como um pote de creme inerme ao pé de um muro,
Já não sabe adornar a ideia-desafio,
Lúgubre bocejar até o final obscuro...

Em vão. O azul triunfa e canta em glória
Dentro dos sinos. Sim, faz-se voz para sus-
Pender-nos no terror de sua vil vitória,
Rompendo o metal vivo em angelus de luz!

Ele rola na bruma, antigo, lentamente
Galga tua agonia e como um gládio a sul-
Cá. Onde fugir? Revolta pérfida e impotente.
O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! 


Stéphane Mallarmé, in "Mallarmé".
Organização, tradução e notas de Augusto de Campos,
Décio Pignatari e Haroldo de Campos.
São Paulo: Perspectiva, 1991.
 

"Vou gota a gota" - Poema de Armando Freitas Filho


Gustave Caillebotte (French painter, 1848–1894), Baigneurs, 1878.
Private collection
 


Vou gota a gota


Vou gota a gota
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de facto aconteceu:
se foi voo, queda ou mergulho.


Armando Freitas Filho, no livro "3 x 4", 
Nova Fronteira, de 1985. 
 

domingo, 8 de dezembro de 2024

"Volver às rimas suaves" - Poema de Reinaldo Ferreira


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), The Woodland Picnic, 1919.
 
 

Volver às rimas suaves 
 
 
Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...

Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas d'Elvira,
Zelos de bardo, fatais...

Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.


Reinaldo Ferreira
, Poemas, 2.ª edição.
Prefácio de José Régio. Portugália Editora,
Lisboa, 1962.


 
 
"O casamento é como uma longa viagem num pequeno barco a remo: se um passageiro começar a balançar o barco, o outro terá que estabilizá-lo; caso contrário, os dois afundarão juntos."
 
David Reuben
- citado em Quotations for the New Age‎ - Página 104, 
de Meir S. Rosenberg - Citadel Press, 1978 - 179 páginas.
 

"Poema" - Lara de Lemos



Edward Cucuel (American Impressionist artist, 1879–1954), Ein leckerbissen, s.d.
 
 

Poema

 
Para isso vim...
 Não, não foi para isso que cheguei.

Vim para dar-te o pássaro, inédito de voos,
que há em mim.

Vim para secar o pranto
desse alguém que não és, mas que sonhei.

Vim para ver-te como queria que fosses
– tão indizível em mim. Tão indizível!

Vim para o refúgio da noite
e o doloroso presságio das manhãs.

Vim – campo, rosa, nuvem, pedra,
rio adormecido, luz.

Para isso vim e perdi-me.
 

Lara de Lemos
, em "Poço das Águas Vivas"
Porto Alegre: Globo, 1957.


Edward Cucuel, An outing by boat, 1917.
 
 
"Quando mocinhas, elas podiam escrever seus pensamento e estados d´alma (em prosa e em verso) nos diários de capa acetinada com vagas pinturas representando flores ou pombinhos brancos levando um coração no bico. Nos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos ou crianças abraçadas a um cachorro. Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que segredo de uma mulher casada só podia ser bandalheira. Restava o recurso do cadernão do dia-a-dia, onde, de mistura com os gastos da casa cuidadosamente anotados e somados no fim do mês, elas ousavam escrever alguma lembrança ou confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó de café e da cebola."
 
 
 
Edward Cucuel, Evening on Lake Como, s.d.
 

"Não acho maravilhoso envelhecer. A gente envelhece na marra, porque não há mesmo outro jeito, já fui a tantas estações de águas, já bebi de tantas fontes – onde a Fonte da Juventude, onde?

Lygia Fagundes Telles, A Disciplina do Amor, 1980.

 

sábado, 7 de dezembro de 2024

"O Cavador" - Poema de Guerra Junqueiro




Plinio Nomellini
(Italian painter in the Divisionist style, 1866–1943),
The digger  (Il vangatore), 1889.


O Cavador

Dezembro, noite, canta o galo...
Rouco na treva canta o galo...
— Oh, dor! oh, dor! —
Aldeão não durmas!... Vai chamá-lo,
Miséria negra, vai chamá-lo!...
— Oh, dor! oh, dor! —
Bate-lhe à porta, é teu vassalo,
Que traga a enxada, é teu vassalo,
Fantasma negro, o cavador!

O vento ulula... Tremem ninhos...
Na noite aziaga tremem ninhos...
— Oh, dor! oh, dor! —
A neve cai, fria d'arminhos...
Na escuridão, fria d'arminhos...
— Oh, dor! oh, dor! —
Passa maldito nos caminhos,
D'enxada ao ombro nos caminhos,
Fantasma negro, o cavador!

Vem roxa a estrela d'alvorada...
Vem morta a estrela d'alvorada —
— Oh, dor! oh, dor! —
Montanhas nuas sob a geada!...
Hirtas, de bronze, sob a geada!...
— Oh, dor! oh, dor! —
Torvo, inclinado sobre a enxada,
Rasga as montanhas com a enxada,
Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou desde que é dia...
Cavou, cavou... Bateu meio-dia...
— Oh, dor! oh, dor! —
De pé na encosta erma e bravia,
Triste na encosta erma e bravia,
— Oh, dor! oh, dor! —
Largando a enxada, «Ave-Maria!...»
Reza em silêncio... «Ave-Maria!...»
Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou na serra agreste,
D'alva à noitinha, em serra agreste...
— Oh, dor! oh, dor! —
E um caldo em prémio tu lhe deste,
Meu Deus!... seis filhos tu lhe deste...
— Oh, dor! oh, dor! —
Batem trindades... «Pai Celeste!...
Bendito sejas, Pai Celeste!...»
Reza, fantasma, o cavador!

Cavou cem montes... que é do trigo?
Gerou seis bocas... que é do trigo?
— Oh, dor! oh, dor! —
Bateu a Fome ao seu postigo...
Bateu a Morte ao seu postigo...
— Oh, dor! oh, dor! —
«Que a paz de Deus seja comigo!...
Que a paz de Deus seja comigo!...»
Disse, expirando, o cavador!


Guerra Junqueiro
, in "Os Simples", 1892