sexta-feira, 8 de setembro de 2017

"Caminho" - Poema de João de Barros



Olof Arborelius
(Swedish painter, 1842–1915), 'The Village Street' 
 

Caminho

                                         A Ferreira de Castro

Dizem aqueles tristes que julgaram
Ter vivido num dia toda a vida:
— É tudo engano e a alma aborrecida
Morre dos ideais que alucinaram...

E aos outros gritam: — Onde, esta subida
Atrás das ilusões que vos chamaram?
— Loucos, parai... Só esses que pararam
Chegaram à verdade apetecida!

Mas nós — nem os ouvimos, nós, os fortes
Que através de mil prantos e mil mortes,
Sabemos que a verdade ou a ilusão,

— Ideia altiva ou corpo de mulher —
Nunca podem fugir a quem tiver
Beijos de amor e garras de ambição!


João de Barros
[Escritor, poeta, pedagogo e publicista português, 1881–1960]
 


Olof Arborelius, 'A Farm Scene' 


"A Poesia é a impressão de estar sempre em contacto com a morte."

(Heinrich Böll

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

"Lembranças de Morrer" - Poema de Álvares de Azevedo



Silvestro Lega (Italian realist painter, 1826
1895), 
 "Giuseppe Mazzini Dying", 1873


Lembranças de Morrer


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde o fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas …
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta destes flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar dos teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo …
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos.
Deixai a lua pratear-me a lousa!


 

 
 Giuseppe Mazzini (18051872), fundador 
do movimento Jovem Itália.
 
 
Giuseppe Mazzini (Génova, 22 de junho de 1805 — Pisa, 10 de março de 1872) foi um político, maçom e revolucionário da unificação italiana

A Jovem Itália foi uma associação política, fundada em Marselha em julho de 1831 por Giuseppe Mazzini, cujo programa foi publicado num periódico ao qual foi dado o mesmo nome. Seu objetivo era transformar a Itália numa república democrática unitária, mediante a promoção de uma revolução geral nos Estados reacionários italianos e nas terras ocupadas pelo Império Austríaco. 

Mazzini, antigo membro da carbonária italiana fundou a Jovem Itália, ao constatar a ineficácia prática daquela sociedade secreta para seus objetivos políticos. Suas palavras de ordem eram: direito dos homens, progresso, igualdade jurídica e fraternidade. A sociedade organizou células revolucionárias em toda a Península Itálica.

Aqueles que faziam parte dessa associação usavam como pseudónimo o nome de personagens da Idade Média italiana. Nos anos de 1833 e 1834, durante o período de processos no Piemonte e o fracasso da expedição a Saboia, nas quais vários de seus membros foram presos e executados pela polícia do Reino da Sardenha, a associação desapareceu por quatro anos, reaparecendo somente em 1838 na Inglaterra.

Outras revoluções promovidas na Sicília, Abruzzi, Toscana, Reino Lombardo-Vêneto, Romagna (1841 e 1845), Bolonha (1843) também falharam.

Dez anos depois do reaparecimento, em 5 de maio de 1848, a associação foi definitivamente abandonada por Mazzini que fundou, em seu lugar, a Associação Nacional Italiana. A Jovem Itália começou, em seguida, a fazer parte de uma outra associação política mazziniana, a Jovem Europa, juntamente a outras associações similares como a Jovem Alemanha, a Jovem Polónia e a Jovem França.

Também teve curta duração da República Romana de 1848-1849, a qual foi esmagada por um exército francês chamado a ajudar o papa Pio IX (que inicialmente era citado por Mazzini como o mais provável paladino de uma unificação liberal da Itália).

Os movimentos de Mazzini foram basicamente destruídos depois de uma última revolta fracassada contra o Império Austríaco em Milão em 1853, destruindo a esperança de uma Itália democrática em favor da reacionária monarquia dos Saboia, que conseguiu a unificação nacional alguns anos depois.

Entre os membros da Jovem Itália, figuravam Giuseppe Garibaldi e Luigi Rossetti. (daqui)

 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

"O Silêncio" - Poema de José Tolentino Mendonça



Jan Asselijn (Dutch Golden Age painter. c. 1610–1652),
'Italian Landscape with the Church of Sts. Giovanni e Paolo in Rome',
Museum of Fine Arts, Budapest
 

O Silêncio


Regressamos a uma terra misteriosa
trazemos uma ferida
e o corpo ferido
imprevistamente nos volta
para margens mais remotas.

Giorgio Armani tinha declarado
àquele jornal inglês: "o luxo desagrada-me,
é anti-democrático.
Quero homenagear os operários de todo o mundo"
Eu só pensava em São João da Cruz
enquanto ouvia pela enésima vez:
"a moda substituiu o luxo
pela elegância"

João da Cruz fala de coroas,
resplendores, casulas
véus de seda, relicários de ouro e
diamantes

para lá do jogo das nossas defesas
qualquer coisa interior

a intensa solidão das tempestades
os campos alagados,
os sítios sem resposta

o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços.


José Tolentino Mendonça, in 'A Estrada Branca',
 Assírio e Alvim, 2005



Jan Asselijn, The Tiber River with the Ponte Molle 'at Sunset', c. 1650.


"O sofrimento é uma pedra de afiar para uma mente forte."

(J. R. R. Tolkien)

domingo, 3 de setembro de 2017

"Porto Sentido" - Poema de Carlos Tê / Rui Veloso

Porto Sentido


Quem vem e atravessa o rio,
junto à Serra do Pilar,
vê um velho casario
que se estende até ao mar. 

Quem te vê ao vir da Ponte
és cascata sanjoanina
erigida sobre um monte,
no meio da neblina,
por ruelas e calçadas,
da Ribeira até à Foz,
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós. 

Esse teu ar grave e sério
dum rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria. 

Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento,
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento...
e é sempre a primeira vez,
em cada regresso a casa,
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa.




Porto sentido - Rui Veloso



"A admiração começa onde acaba a compreensão."

Charles Baudelaire
[Poeta, ensaísta, tradutor e crítico de arte francês, 1821–1867]
 
 

sábado, 2 de setembro de 2017

"Reticências" - Poema de Álvaro de Campos



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836-1902),
 Bad News (The Parting), 1872. 


Reticências


Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação. 
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; 
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! 
Vou fazer as malas para o Definitivo, 
Organizar Álvaro de Campos, 
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... 
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. 
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir... 
Produtos românticos, nós todos... 
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada. 
Assim se faz a literatura... 
Santos Deuses, assim até se faz a vida! 
Os outros também são românticos, 
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres, 
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar, 
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos, 
Os outros também são eu. 
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente, 
Rodinha dentada na relojoaria da economia política, 
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios, 
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida... 
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela, 
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, 
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica. 
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, 
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando, 
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, 
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema... 
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra... 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

"Os cinco dedos da mão" - Poema extraído do livro de Leitura da 3ª classe de 1950



Émile Munier (French artist, 1840–1895), 'Mother and Child', 1892 
 

Os cinco dedos da mão 


Nós temos em cada mão
Cinco dedos desiguais: 
um maior dois mais pequenos
E outros dois ainda mais.

É vê-los em seu trabalho
Que harmonia e perfeição!
Mexe um? logo os outros todos
O seu auxílio lhe dão.

E quando o indicador
Mostra aos outros o caminho,
- Vamos – diz o pai de todos,
E lá vai tudo unidinho

Mais fidalgo, o anelar
Quase sempre anda enfeitado.
Mas ai do pobre meiminho,
Se não lhe andasse encostado!

Porém o mais cuidadoso
É o dedo polegar.
Nada os outros fazem, nada,
Que os não vá logo ajudar.

- Mas, porque razão, (pergunta
A Laurinha um dia à mãe)
Sendo todos tão diferentes,
Se dão entre si tão bem?

- Minha filha, diz-lhe a mãe,
É para nos ensinar
Que uns aos outros, neste mundo,
Nos devemos ajudar.

E que bem feliz seria
Certamente a humanidade
Se por toda a gente fosse
Praticada esta verdade.


[Extraído do livro de Leitura da 3ª classe de 1950]



Émile Munier, 'A Tender Embrace', 1887



"Aprecio muito a educação dos bons conventos, mas ainda dou mais valor à de uma boa mãe
 quando esta pode livremente entregar-se à sua missão." 
 
François Fénelon
[Teólogo católico, poeta e escritor francês, 1651–1715]

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

"Grito o teu nome" - Poema de António Ramos Rosa


 
Pino Daeni (Italian-American book illustrator and artist, 
1939–2010), "Mystic Dreams" 


Grito o teu nome


Grito o teu nome
e se as formigas já comem a terra nos meus lábios

Tu dizes vive
gravitando cada vez mais longe
cada vez mais dentro
do meu círculo de veias 

As palavras enterram-se
na minha voz
porque tu és o corpo que abandono sempre
sem querer sem o saber ainda

Mas é possível
ir além das imagens
ou no interior delas afugentar a morte 

Escuto o teu rumor de espaço vivo
e fujo como um prisioneiro
que pressente o seu corpo de claridade


António Ramos Rosa