domingo, 24 de setembro de 2017

"A História da Moral" - Poema de Alexandre O'Neill



Ivan Kap (Italian digital artist and graphic designer, b. 1972), 'Conversation'


A História da Moral


Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.


Alexandre O'Neill,
in "De ombro na ombreira", 1969


Ivan Kap, 'The poker player'


"A tentativa de trazer o céu para a terra invariavelmente produz o inferno."

(Karl Popper)

"Os Amantes de Novembro" - Poema de Alexandre O'Neill



Leopold Burger (Austrian painter, 1861–1903), 'Liebespaar am Wiesenrand' 
(Sommer), Teil des Zyklus 'Die vier Jahreszeiten', 1894


Os Amantes de Novembro 


Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.


Alexandre O'Neill,
in 'No Reino da Dinamarca'

sábado, 23 de setembro de 2017

"A Cor da tua Alma" - Poema de Juan Ramón Jiménez


 
Adolf Hölzel (German painter, 1853–1934), 'The Love Letter', 19th century.


A Cor da tua Alma


Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor. 

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros, 

e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!


Juan Ramón Jiménez, in "Ríos que se Van"
Tradução de José Bento


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"O Bailador de Fandango" - Poema de Pedro Homem de Mello

 
'Fandango do Ribatejo' - Ilustração de Mário Costa (daqui)
 
[Mário Costa (19021975) foi um respeitado pintor, ilustrador e vitralista. Fez decorações para a Exposição do Mundo Português (1940), ganhou o prémio Roque Gameiro do SNI (1945), distinguiu-se na reconstrução dos vitrais dos Jerónimos, das Sés de Lisboa e do Porto e da Igreja da Conceição (Porto) e foi coautor dos vitrais das Igrejas de Fátima e do Santo Condestável, em Lisboa, e da Igreja da Lapa, no Porto. Há um vitral seu, de estética moderna, na pastelaria Mexicana, na capital. Trabalhou nos décors de vários filmes portugueses (‘O Fado’, ‘O Homem do Ribatejo’, ‘Camões’, ‘O Costa do Castelo’ e ‘A Vizinha do Lado’, entre outros) e foi chefe do Atelier de Publicidade da Mobil em Portugal.]
 

O Bailador de Fandango


Sua canção fora a Gota,
Sua dança fora o Vira.
Chamavam-lhe “o fandangueiro”.
Mas seu nome verdadeiro
Quando bailava, bailava,
Não era nome de cravo,
Nem era nome de rosa.
- Era o de flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
E havia um cristal na vista
E havia um cristal no ar
Quando aquele fandanguista
Se demorava a bailar!
E havia um cristal no vento
E havia um cristal no mar.
E havia no pensamento
Uma flor por esfolhar...
Fandangueiro! Fandangueiro?...
(nem sei que nome lhe dar...)

Tinham seus braços erguidos
Nem sei que ignotos sentidos
- leitos de Asa pelo ar...
Quando bailava, bailava,
Não era folha de cravo
Nem era folha de rosa.
Era uma flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...

Domingos Enes Pereira
Do lugar de Montedor...
(O bailador do Fandango
Era aquele bailador!)
Vinham moças da Areosa
Para com ele bailar...
E vinham moças de Afife
Para com ele bailar.
Então as sombras dos corpos,
Como chamas traiçoeiras,
Entrelaçavam-se e a dança
Cobria o chão de fogueiras...

E as sombras formavam sebe...
O movimento as florira...
O sonho, a noite, o desejo...
Ai! belezas de mentira!

E as sombras entrelaçavam-se...
Os corpos, ninguém sabia
Se eram corpos, se eram sombras,
Se era o amor que se escondia...


Pedro Homem de Melo, in 'Poemas Portugueses', 
'Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI'.
Seleção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage,
Prefácio de Vasco da Graça Moura,
 Porto Editora
 
 

Pintura de dançarinos de fandango castelhano do século XVIII,
por Pierre Chasselat (Pintor francês, 1753–1814)


Fandango
 
 
Dança tradicional em toda a Península Ibérica, o fandango mantém em todas as suas versões regionais algumas características semelhantes em termos musicais, tais como o compasso ternário, tempo vivo e uma acentuação muito ritmada. Características que, de resto, são comuns a outro tipo de danças populares, tanto em Espanha, com a malagueña, ou em Portugal, com o vira. Os instrumentos musicais utilizados são a harmónica, também chamada de "piano de cavalariça", e a gaita de beiços na Estremadura, enquanto que no Minho o fandango toca-se com a gaita de foles, as violas, clarinete, ferrinhos e pandeiro. No Alentejo e no Algarve, os instrumentos preferidos são o pífaro, a gaita de foles, o bandolim e as castanholas.

A grande divergência entre as várias versões de fandango existentes na Península reside na coreografia da dança que apresenta diferenças significativas. Em Portugal, o fandango dança-se com diferentes coreografias. Na zona raiana, o fandango dança-se como em Espanha, com sapateado e com os braços ondulando em arco por cima da cabeça - o El Musafaha dos mouros e ciganos -, as mãos com castanholas a marcar o ritmo, os bailarinos aproximam-se e afastam-se com volteios de verdadeira sedução, em movimentos herdados do maneio dos quadris e da umbigada trazidos de África. Este tipo de dança seria provavelmente o mais popular em toda a península até ao fim do século XIX, já que tanto o bolero e o flamengo espanhóis como o fado dançado português e posteriormente as danças luso-brasileiras da fofa e do lundum viriam a ser influenciadas pelo fandango.

No Ribatejo, o fandango apresenta um carácter talvez único em toda a península, sendo dançado unicamente com os pés, como num jogo, que nada tem a ver com o sapateado andaluz com os dançarinos colocados um face ao outro. Os braços estão imobilizados junto ao corpo e as mãos são encostadas à parte superior do peito com os polegares estendidos e encostados às axilas. A arte desta versão ribatejana do fandango está no jogo de pés que inclui algumas mudanças de flexão das pernas com elevação lateral com as mãos a descer e a tocar os pés de forma não sincronizada. O corpo mantém-se estático durante praticamente toda a dança e alguns dançarinos são tão hábeis que chegam a dançar com cestos ou copos na cabeça. (daqui)
 
 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

"Lisboa com suas casas" - Poema de Álvaro de Campos



Real Bordalo (Artista plástico português, 1925–2017), Lisboa, Portugal


Lisboa com suas casas


Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.


Álvaro de Campos, in "Poemas"
 Heterónimo de Fernando Pessoa


O artista plástico português Real Bordalo


Artur Real Chaves Bordalo da Silva nasceu em Lisboa em 1925, estudou desenho na Sociedade Nacional de Belas-Artes e o trabalho artístico destaca-se em aguarela e óleo, sobretudo paisagens urbanas, em particular edifícios e locais históricos da capital.

Ainda adolescente trabalhou com João Rosa Rodrigues, Francisco Branco e, mais tarde, com Leitão de Barros em cenografia, na Tobis e na Lisboa Filme. Foi pintor na Fábrica da Cerâmica Constância Faiança Bastitini, desenhador técnico, retocador de rotogravura e desenhador maquetista no Diário de Notícias.

Entre 1948 e 1950 recebeu três prémios, entre eles a menção honrosa em aguarela na Sociedade Nacional de Belas-Artes. Em 1952, com 27 anos, inaugurou a primeira exposição individual com trabalhos em aguarela e pastel no Casino da Figueira da Foz.

A obra de Real Bordalo encontra-se representada no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, em museus municipais de cidades como Lisboa, Lagos, Porto e Santarém, e em coleções particulares de França, Japão, Itália, Estados Unidos e Alemanha.

Real Bordalo morreu em junho de 2017, em Lisboa, aos 91 anos de idade. (daqui)



Real Bordalo, Lisboa, Portugal


"Lisboa é a nitidez através do ar. Lisboa é a cor manchada dos muros. Lisboa é o musgo novo a nascer sobre o musgo seco. Lisboa é o desenho de fendas, como relâmpagos, a escorrerem pela superfície dos muros. Lisboa é a imperfeição criteriosa. Lisboa é o céu refletido." 

José Luís Peixoto, in 'Cemitério de Pianos'


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"Em Lisboa com Cesário Verde" - Poema de Eugénio de Andrade



Carlos Botelho (Pintor, ilustrador e caricaturista português, 1899–1982),
'Ramalhete de Lisboa', 1935, óleo sobre contraplacado, 72 x 100 cm.


Em Lisboa com Cesário Verde 


Nesta cidade, onde agora me sinto
mais estrangeiro do que um gato persa;
nesta Lisboa, onde mansos e lisos
os dias passam a ver as gaivotas,
e a cor dos jacarandás floridos
se mistura à do Tejo, em flor também;
só o Cesário vem ao meu encontro,
me faz companhia, quando de rua
em rua procuro um rumor distante
de passos ou aves, nem eu já sei bem.
Só ele ajusta a luz feliz dos seus
versos aos olhos ardidos que são
os meus agora; só ele traz a sombra
de um verão muito antigo, com corvetas
lentas ainda no rio, e a música,
sumo do sol a escorrer da boca,
ó minha infância, meu jardim fechado,
ó meu poeta, talvez fosse contigo
que aprendi a pesar sílaba a sílaba
cada palavra, essas que tu levaste
quase sempre, como poucos mais,
à suprema perfeição da língua. 


'Homenagens e outros Epitáfios', 1974 



Carlos Botelho, 'Lisboa e o Tejo', 1935


Lisboa


Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?


Eugénio de Andrade, in 'Até Amanhã', 1956



Carlos Botelho, 'Lisboa e o Tejo', 1950, 54,5 x 73,5 cm



Lisboa


Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.


Carlos Botelho, 'Lisboa'


Aos jacarandás de Lisboa 


São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar. 


Eugénio de Andrade, in 'Os Sulcos da Sede', 2001


Carlos Botelho, 'Calçada da Glória', Lisboa (Elevador da Glória), 1950



Carlos António Teixeira Bastos Nunes Botelho (Lisboa, 18 de Setembro de 1899 — Lisboa, 18 de Agosto de 1982), foi um pintor, ilustrador e caricaturista português. Foi aluno do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, tendo-se seguidamente inscrito na Escola de Belas-Artes de Lisboa, que abandonou ao fim de pouco tempo. 
Entre 1926 e 1929 fez, com regularidade, páginas de banda desenhada para o semanário infantil ABCzinho. Em 1928, iniciou uma crónica humorística no semanário Sempre Fixe, na página Ecos da Semana, colaboração que manteve durante mais de 22 anos. Em 1930, monta o seu primeiro atelier na Costa do Castelo, em Lisboa, na casa a que a sua mulher, professora do ensino primário, tinha direito pela função exercida. A localização desta casa, onde viveu até 1949, influenciou certamente a sua temática, oferecendo-lhe temas e referências que influenciaram o seu percurso artístico.
Em 1937, integra a equipa de decoradores do Pavilhão de Portugal, durante a Exposição Internacional de Artes e Técnica em Paris. Nesta cidade teve acesso a uma retrospetiva da obra de Van Gogh que o terá influenciado largamente, determinando mesmo, a sua obra numa primeira fase expressionista. 
Em 1938 recebeu o prémio Amadeo de Souza-Cardoso, pelo retrato do seu pai. Em 1939, permanece nos Estados Unidos da América por um período longo, integrando a equipa de decoradores dos pavilhões portugueses, das Exposições Internacionais de Nova Iorque e de São Francisco. Em 1940, integrou uma das equipas de decoradores da Exposição do Mundo Português, em Lisboa. Neste ano recebe também o Prémio Columbano.
Denominado pela crítica como “pintor de Lisboa”, Carlos Botelho é autor de uma das mais importantes coleções de Arte Moderna Portuguesa. Tendo a cidade de Lisboa por cenário, real ou fictício, o pintor encontrou uma paleta característica que varia entre os tons de rosa velho e amarelo torrado, com os seus telhados vermelhos, as janelas e mansardas geometricamente arrumadas entre azulejos e gradeamentos, construindo composições ricas em cor e volume. Botelho faz também de Lisboa laboratório de impressões e experiências que traz de outras cidades e de outros pintores, cruzando-as com as suas próprias viagens por Lisboa, na escolha dos motivos e dos modos de os registar. (daqui)


Carlos Botelho, 'Panorâmica-78' (Lisboa - Vista de São Pedro de Alcântara)


"Só é arte o espontâneo que se submete ao consciente."



sábado, 9 de setembro de 2017

"A Lavadeira" - Poema de Cora Coralina


 
Charles Courtney Curran (American impressionist painter, 1861–1942),
'A Breezy Day', 1887.


A Lavadeira


Essa mulher...
Tosca. Sentada. Alheada ...
Braços cansados
Descansando nos joelhos ...
Olhar parado, vago,
Perdida no seu mundo
De trouxas e espumas de sabão
- é a lavadeira.

Mãos rudes deformadas.
Roupa molhada.
Dedos curtos.
Unhas enrugadas.
Córneas.
Unheiros doloridos
Passaram, marcaram.
No anular, um círculo metálico
Barato, memorial.

Seu olhar distante,
Parado no tempo.
À sua volta
- uma espumadeira branca de sabão.

Inda o dia vem longe
Na casa de Deus Nosso Senhor,
O primeiro varal de roupa
Festeja o sol que vai subindo.

Vestindo o quaradouro
De cores multicores.

Essa mulher
Tem quarenta anos de lavadeira.
Doze filhos
Crescidos e crescendo.

Viúva, naturalmente.
Tranquila, exata, corajosa.

Temente dos castigos do céu
Enrodilhada no seu mundo pobre.

Madrugadeira.

Salva a aurora.
Espera pelo sol.
Abre os portais do dia
entre trouxas e barrelas.

Sonha calada.
Enquanto a filharada cresce
Trabalha suas mãos pesadas.

Seu mundo se resume
na vasca, no gramado.
No arame e prendendores.
Na tina d’água.
De noite – o ferro de engomar.

Vai lavando, vai levando.
Levando doze filhos
Crescendo devagar,
Enrodilhada no seu mundo pobre,
Dentro de uma espumadeira
Branca de sabão.

Às lavadeiras do Rio Vermelho
Da minha terra,
Faço deste pequeno poema
Meu altar de ofertas.


in "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais"
Editora Global


Charles Courtney Curran, 'Hanging out Linen', 1887


"O silêncio é um amigo que nunca trai."
 
Confúcio
[Pensador, professor e filósofo chinês, 551 a.C. – 479 a.C.]





Charles Courtney Curran, 'Hanging Out the Clothes', 1887


"A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade." 

Dorothy Parker
[Escritora, poetisa, dramaturga e crítica americana, 1893–1967]