segunda-feira, 17 de abril de 2023

"Possibilidades" - Poema de Wisława Szymborska



Edward Percy Moran
(American artist known for his scenes of American history
1862–1935), Young Girl and Dog, 1890.
 
 
 
 Possibilidades

 
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.


Wisława Szymborska
, in Poemas
Tradução de Regina Przybycien

 
 
Edward Percy Moran, A Fair Puritan, c. 1897
 

“Todos os poemas nascem do amor; até aqueles que transmitem o mal têm no fundo uma forma de amor para com o mundo”.
 
(Prémio Nobel de Literatura de 1996)
 

sábado, 15 de abril de 2023

"Uma chama não chama a mesma chama" - Poema de E. M. de Melo e Castro


Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), 
The Elements, 1942

 

Uma chama não chama a mesma chama

uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia

um nome não nome o mesmo nome
um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia

uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em cada chama o nome que se chama
o nome que na chama se incendeia


E. M. de Melo e Castro
, in 'Versus-in-Versus', 1968

 


E. M. de Melo e Castro (daqui)
 
 
Ernesto Manuel de Melo e Castro (Covilhã, 1932 - São Paulo, 29 de agosto de 2020) foi um engenheiro, poeta, ensaísta, escritor e artista plástico português.  
Formou-se em Engenharia Têxtil pelo Instituto Tecnológico de Bradford, em Inglaterra, tendo, também aí, desempenhado a profissão de técnico têxtil. Doutorou-se em Letras pela Universidade de São Paulo e, para além da colaboração regular em periódicos como, no início da sua carreira poética, Cadernos do Meio-Dia, animou também, com sessões de intervenção teórica, o Grupo de Poesia Experimental e organizou, em colaboração com Maria Alberta Menéres, uma Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa. Em 1966, organizou o segundo caderno antológico de Poesia Experimental, que acolheu textos teóricos e criação literária que visavam a valoração das potencialidades visuais e fónicas do significante linguístico. Autor de um "manifesto" da poesia experimental, a Proposição 2.01 - Poesia Experimental, a sua criação literária desenvolve-se na linha das poéticas de vanguarda. É também autor de várias obras no domínio do Design e da Engenharia Têxtil. (Daqui)
 
 
E. M. de Melo e Castro, Tontura, 1962
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores


Poesia Experimental

Designação de dois cadernos antológicos, o primeiro organizado em 1964, por António Aragão e Herberto Helder, e o segundo saído em 1966, sob a direção dos mesmos e de E. M. de Melo e Castro.
Representativos do experimentalismo na moderna poesia portuguesa, compostos de fascículos soltos, acolhem textos teóricos e criação literária de António Aragão, António Barahona da Fonseca, Salette Tavares, E. M. de Melo e Castro , Alexandre O'Neill e Ângelo de Lima.
A designação da antologia aponta para a valoração das potencialidades do significante linguístico, resultando os textos aí reunidos de experiências operadas sobre o material verbal, sob a forma, por exemplo, de poesia visual ou de poesia fonética.
Na esteira da poesia concreta e apelando para um tipo de leitura relacional, Poesia Experimental declara a "morte do leitor passivo" (Marques, Alberto, Ex. n.° 1, p. 80), e define-se como "Forma específica da atividade criadora do Homem com o objetivo de fazer experiências sobre esse fenómeno ou ato estudando o resultado dessas experiências (MELO E CASTRO, E. M. - A proposição 2.01 - Poesia Experimental, pp. 43-4)." (Daqui)
 
 
 
 E. M. de Melo e Castro, Pêndulo, 1962
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
A definição de poesia experimental remete-nos para a A Proposição 2.01. Poesia Experimental de E. M. de Melo e Castro, publicada em Lisboa, em 1965, enquanto verdadeiro manifesto da poesia experimental enunciando as proposições básicas da poesia experimental, além de textos teóricos complementares e de uma pequena compilação de poemas experimentais. Entre essas proposições, saliente-se algumas especificamente definidoras da poética experimental: a Proposição 2.01, que define a poesia experimental como uma "forma específica da atividade do Homem com o objetivo de fazer experiências sobre esse fenómeno ou ato estudando o resultado dessas experiências." (id. ibi., p. 44); ou a Proposição 13, que explica o "Poema Experimental" como um "Objeto criado para através dele se estudarem e se surpreenderem as fases do processo criador e a sua evolução e projeção no futuro tanto da poesia como do Homem" (id. ibi., p. 51); ou ainda a Proposição 14, que especifica o estatuto do poeta relativamente à criação: "Um poema-experiência é um ato criador porque com ele não se pretende reproduzir nem exemplificar nada. O criador tem apenas como premunição uma atitude de investigação e pesquisa do seu próprio ato livre de criar. A criação é feita livremente estando o seu processo desde o início sob a autovigilância do poeta que assim tem de proceder a um desdobramento criador crítico." (id. ibi., p. 50). A atitude experimental em poesia consiste num "aprofundamento do estudo da possibilidade ou impossibilidade de comunicação entre os homens através dos vários sistemas de sinalização dirigidos especificamente às portas da perceção. A obra de arte necessita de ter existência estruturada nesses sistemas de sinalização. A relação dá-se, portanto, entre quem dela se apercebe e a obra como objeto. O autor, entidade psicológica, fica necessariamente fora do circuito. A obra de arte experimental requer, pois, uma mudança de atitude do seu fruidor, de passiva para ativa. Assim, estabelece-se uma troca de energia entre obra e fruidor, sendo o tipo dessa energia dependente do princípio estrutural em que a obra assenta e da porta da perceção que ela é capaz de impressionar" (id. ibi., p. 51). 
De acordo com o sentido ou sentidos que a poesia quer excitar, distingue vários tipos de poesia: a poesia visual, que tem como antecedentes os caligramas de Appolinaire ou as experiências gráficas do Futurismo e do Concretismo; a poesia auditiva, baseada em experiências com a voz humana e entroncando na tradição de uma poesia rítmica ou melódica, com palavras, sílabas ou sons puros; a poesia táctil, que parte, evidentemente, da colaboração com as artes plásticas e materialidade do poema-objeto; a poesia respiratória, esboçada sobre experiências com o sopro humano; a poesia linguística, cujos pioneiros foram E. E. Cummings, James Joyce ou Ezra Pound, e que inclui não só o poliglotismo como a criação de palavras e línguas novas; a poesia conceptual e matemática, que introduz na obra de arte estruturas numéricas ou métodos permutacionais e combinatórios; a poesia sinestésica, que resulta da fusão de vários tipos de poesia; e a poesia espacial comum a todas as formas de experimentalismo. 
Para E. M. de Melo e Castro, todas as tendências que se vinham verificando na poesia moderna, tal como a procura do rigor na linguagem, o ideal de retorno às origens, as técnicas de despojamento sintático e linguístico, de sobrecarregamento potencial das imagens, entre outras, constituíam fases do estudo sobre o material verbal, integrando uma evolução global do processo poético a caminho dos métodos experimentais. A poesia atual encontraria um denominador comum na "dissociação entre os significados e significação" (id. ibi., p. 87) e na valoração, quase lúdica, do significante: "A rarefação e depuração dos vocábulos, a valorização da página, dos espaços, as dimensões visuais e tácteis, a problemática fonética, as sílabas, as letras, as imagens, as metáforas, as novas equações sintáticas, as construções ambíguas, o encadeamento rítmico dissociado da métrica convencional, etc., tudo fatores da técnica poética que, embora não sejam novos e façam parte do processo poético de todos os tempos, são agora usados sinergicamente criando um campo de ação expansivo e aberto em que os signos funcionam como significantes em si próprios e não como significados" (id. ibi., p. 88).
Entre os nomes mais representativos ou influenciados pela poesia experimental contam-se os de E. M. de Melo e Castro, Ana Hatherly, António Aragão, António Barahona da Fonseca ou Salette Tavares. (Daqui)
 
 
 
E. M. de Melo e Castro, Geografia humana, 1962.
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
 
E. M. de Melo e Castro, Casa sem sol é triste, 1962
 
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
 
E. M. de Melo e Castro, Espinha dorsal, 1962
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
 
  
 E. M. de Melo e Castro, Hipnotismo, 1962
 Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
 
E. M. de Melo e Castro, Soneto soma 14x,
do livro Poligonia do Soneto, 1963
 

O soneto "Soma 14X" é composto de números e, nesse sentido, conhecendo algumas da regras compositivas do soneto, e observando, que no caso deste poema, a soma dos números de um verso devam totalizar 14, é possível subtrair-se alguns versos e pedir a alguém que complete os versos faltantes, num raro exercício de análise matemática da forma.
O soneto em questão, apresenta rimas numéricas, assim, no caso da reconstituição é possível, sabendo-se com qual determinado verso rima, já saber de antemão qual o último dos cinco números que compõem o verso. Os outros quatro números do verso, resultaram de uma soma baseada no facto do total do verso dar 14, e de que não há um só verso repetido neste soneto. Observe-se ainda, que o último verso deste soneto, o verso "chave de ouro" dá soma 28 (duas vezes 14), como que a querer dizer que é um verso que vale mais do que os outros.
Numericamente, portanto, é possível neste nosso exercício de reconstrução produzir variantes do soneto, mas que funcionalmente, exerceram o mesmo papel desempenhado pelo original de Meio e Castro, que crítica justamente a forma padrão para o fazer poético.
Cabe observar ainda, que se retirássemos não um verso, mas somente um número de cada verso, a possibilidade de reconstrução integral do soneto em relação ao original, seria de 100% .

Extraído de LUNA, Jayro. Caderno de Anotações. Belo Horizonte/São Paulo: Signos/Editora Oportuno, 2005. p. 74-75
 

 E. M. de Melo e Castro


sexta-feira, 14 de abril de 2023

"A Primeira Palavra" - Poema de Hugo Santos



Élisabeth Louise Vigée Le Brun also known as Madame Le Brun (French portrait 
painter, 1755–1842), Self-Portrait with Her Daughter, Julie Le Brun, 1789,
 
 
Élisabeth Louise Vigée Le Brun, Self-Portrait with Her Daughter, Julie, 1786. 
 
 

A Primeira Palavra


Hoje, pela primeira vez, disse: "Mãe".
Podia ter dito qualquer outra palavra pequenina
como "rio, flor, casa, ave, luz, cor", sei lá.
Mas não, disse: "Mãe".

Fechei os olhos e repeti "Mãe", uma, duas, muitas vezes.
E fiquei a saber, já depois de me ouvir ante o espelho da sala,
que a palavra "Mãe", dita e ouvida assim,
como se tivesse caído do colo de uma estrela,
podia ser também "rio, céu, flor, casa, ave, luz e cor".

Dizia "Mãe" e era como se um rio corresse sob os meus pés.
Proferia-a de novo e sabia que ela era azul como o céu.
Era um nome com muitas portas e janelas,
tantas ou mais do que aquelas que tem a minha casa.
Se a dissesse mais alto, ela voava
como um dos pássaros do quintal.

Se me debruçasse sobre ela e a aconchegasse nos braços,
cheirava-me a flores.
Estava tão cheio de luzes coloridas que, mais tarde,
quando reparei nos olhos da minha Mãe, lá estavam
todas as cores do arco-íris.

Pronto, já sei. Quando voltar a dizer "Mãe",
as luzes acendem-se e a música começa a tocar.

Talvez Bach, talvez Beethoven,
talvez Chopin nas mãos mágicas
de um famoso pianista.

Vocês já pensaram no que,
quando for grande,
vou fazer com a palavra
"Mãe"?


Hugo Santos
(1939-2018)
do livro: "Eu, a Casa, os Bichos e Outras Coisas"
 (Nova Vega Editora, 2008).


 
"Eu, a Casa, os Bichos e Outras Coisas" de Hugo Santos.
Raquel Pinheiro – Ilustração
Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura
(5º e 6º Ano de escolaridade)

 
Resumo

Borboletas que dançam valsas e põem ovos de sol, bichinhos-de-conta que são berlindes e parecem caixinhas de música, muitos livros que são abat-jours da alma, cavalos de pau voando sobre as nuvens, pintassilgos que são anjos equilibristas e vírgulas no vento, formigas trabalhadoras que são pontos finais da terra, pombos-correio sobrevoando o céu de bicicleta, um melro viúvo, uma gata solitária à espera de um “miau”, uma Mãe com peixinhos de prata nas meninas dos olhos – tudo isto cabe nesta grande casa de muitos nomes, que habita o coração de cada um de nós.
Um belíssimo texto poético de Hugo Santos, maravilhosamente ilustrado por Raquel Pinheiro.
(Daqui)
 
 
Hugo Santos (daqui)
        
Hugo Santos (1939-2018) nasceu em Campo Maior e toda a sua obra nos fala da vasta e silenciosa beleza do Alentejo raiano. Poeta, romancista e contista, tem mais de quarenta livros publicados e foi distinguido com múltiplos prémios literários dos quais são de destacar, na poesia, Corpo Atlântico, Prémio Antero de Quental, Decálogos do Bom Amor, Prémio Cesário Verde, e na prosa, os romances A Mulher de Neruda e As Mulheres que Amaram Juan Tenório que lhe valeram, respetivamente, o Grande Prémio de Albufeira e o Prémio Miguel Torga.
O muito contacto que teve com crianças (exerceu as funções de professor) e a imensa ternura que sempre lhes devotou, levou-o também a escrever um belíssimo livro para elas, já incluído no Plano Nacional de Leitura, intitulado Eu, a Casa, os Bichos e Outras Coisas (Vega, 2008). (Daqui)
 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

"2° Passeio nos Jardins de Adónis" - Poema de Natália Correia

 


Eva Gonzalès (French Impressionist painter, 1849 –1883), The Donkey Ride, 1880


 2° Passeio nos Jardins de Adónis 

 

Recusa, amigo, da lide o ardil que, fátuo,
Nenhum deus quer ou lembra;
E entremos no jardim como quem no sagrado
De que se ignora entra.

Na fonte, ao tempo alheio, voz de água estremecida,
Gorgoleja o delfim
A ária que reúne o pouco da vida
No esplendor do jardim.

Aos fados que nos fiam o estreito acontecer,
Só na ilusão ilesos,
Sob as tílias amemos: é o estreito dever
De agradarmos aos deuses.

Flores não colhas, porém: sem nexo, se colhidas,
Vão morrer-te nos braços.
Deixa-as serem na haste o hálito da vida
Que te perfuma os passos.

Leves, instantâneas rosas indiferentes às máscaras
Que apodrecem leprosas,
Concedem-nos os deuses para que as nossas almas
Não pesem mais que as rosas.

Num lapso da verdade de que és pálido súbdito
Por decretos ignotos,
O jardim é o instante em que olhamos o mundo
Com magnólias nos olhos.
 

Natália Correia,
in Jornal de Letras, junho/84, Lisboa 
 

segunda-feira, 3 de abril de 2023

"Amor" - Poema de José Luís Peixoto

 

 
 Mary Cassatt (1844–1926, American painter), Young Girl at a Window, c. 1883–1884,
 oil on canvas, National Gallery of Art, Washington, D.C. 



Amor


o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão",
 Quetzal Editores
 
 

Edição/reimpressão: 07-2014
Editor: Quetzal Editores
 

SINOPSE
 
Segundo livro de poesia de José Luís Peixoto, publicado pela primeira vez em 2002. Este conjunto constitui também uma espécie de peça complementar ou reverso poético do romance Uma Casa na Escuridão. Os poemas encontram-se organizados em capítulos cujos títulos poderão enunciar as etapas do caminho venturoso e tortuoso do amor: O AMOR, O AMOR É TUDO O QUE EXISTE, AS INVASÕES, O AMOR É IMPOSSÍVEL, A PESTE, O AMOR É A SOLIDÃO, A MORTE. (daqui)
 
 

domingo, 2 de abril de 2023

"Mentiras" - Poema de Florbela Espanca

 

Marie Bracquemond (French Impressionist artist, 1840-1916), Under the Lamp, 1887. Private collection.
 

 
Mentiras 
 
Ai quem me dera uma feliz mentira
que fosse uma verdade para mim!

J. Dantas

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito...

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto! 


Florbela Espanca
, in "A Mensageira das Violetas"

sábado, 1 de abril de 2023

"Poema Explicativo" e "Apocalipse" - Poemas de Domingos Carvalho da Silva

 


John Constable (English Romantic painter, 1776–1837), Stratford Mill, 1820. Oil on canvas.
National Gallery, London
 

Poema Explicativo 

 
Inúteis são os voos. Inúteis são os pássaros.
Silenciosas sombras tudo extinguem.
Como as vagas de um mar longínquo e frio,
são de inúteis palavras estes versos,
pois o calado tempo esmaga tudo.

Moro num rio inútil que caminha
entre margens de musgo e subalternas
pontes e águas que refletem
estrelas, luminárias, desencanto.

Os peixes não obstante já não dormem.
São inúteis os sonhos e as amarras
que nos prendem ao cais.
E o sangue que nos leva
em artérias elétricas de desejo.

Já somos todos poetas — e a poesia é inútil —
antepassados simples de um futuro
remoto onde seremos sinais na rocha, apenas.

Germinará o trevo entre os alexandrinos
e nenhum pássaro compreenderá o sentido
das páginas dispersas sobre a areia.

Estas palavras nuas se transformarão
em pó, em lodo, em traças e raízes.


in 'Praia Oculta', 1949
 
 

John Constable (English Romantic painter, 1776–1837), The Hay Wain, 1821. Oil on canvas,
130.2 cm × 185.4 cm, National Gallery, London
 

Apocalipse 


Porque a lua é branca e a noite
é simples anúncio da aurora;
e porque o mar é o mar apenas
e a fonte não canta nem chora;

e porque o sal se decompõe
e são de água e carvão as rosas,
e a luz é simples vibração
que excita células nervosas;

e porque o som fere os ouvidos
e o vento canta na harpa eólia;
e porque a terra gera os áspides
entre a papoula e magnólia;

e porque o trem já vai partir
e o corvo nos diz never more;
e porque devemos sorrir
antes que o crepúsculo descore;

e porque ontem já não existe
e o que há de vir não mais virá,
e porque estamos num balé
sobre o estopim da Bomba H:

não marcharemos contra o muro
das lamentações, prantear
a frustração de tudo o que
sonhamos ousar, sem ousar.

Títeres mudados em gnomos,
enfrentemos o Apocalipse
como pilotos da tormenta
entre o terremoto e o eclipse.

Vamos dançar sobre o convés
enquanto o barco não aderna;
vamos saudar o sol que morre
e a noite que vem fria e eterna.

Vamos zombar deste universo
em nossos olhos refletido;
quando os fecharmos, será como
se nunca houvesse existido.

Vamos crepitar entre as chamas
nosso último arrebatamento;
porque amanhã seremos só
um pouco de cinza no vento. 


in 'A Margem do Tempo', 1963 
 

[Domingos Carvalho da Silva (Pedroso, Portugal, 1915 - São Paulo, São Paulo, 2003). Cursa Direito na Universidade de São Paulo entre 1933 e 1937. É presidente, em 1936, da Academia de Letras da Faculdade de Direito, e fundador da revista Arcádia. Publica seu primeiro livro de poesia, Bem-Amada Ifigênia, em 1943, ano em que também colabora na página literária do Correio Paulistano. Em 1947 funda a Revista Brasileira de Poesia, com Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919-1992), entre outros. No ano seguinte, organiza o I Congresso Paulista de Poesia. Em 1954, é membro da Comissão Organizadora do Primeiro Congresso Internacional de Escritores. Colabora em vários periódicos paulistas e é redator no Diário de S. Paulo. Na década de 1960 participa de vários congressos e comissões de literatura; em 1966, torna-se professor na Universidade Nacional de Brasília. Um dos fundadores do Clube de Poesia de Brasília, torna-se seu presidente em 1974. Em 1977 recebe o prémio Jabuti de Poesia, pelo livro Vida Prática (1976). Sua obra poética inclui os livros Praia Oculta (1949), À Margem do Tempo (1979), Múltipla Escolha (1980) e Liberdade Embora Tarde (1984). Sua poesia filia-se à terceira geração do Modernismo; no entanto, para o crítico Adolfo Casais Monteiro, "Domingos Carvalho da Silva é [...] um poeta que, pela diversidade das formas reveladas ao longo da sua já extensa produção, pela larga escala de interesses que a sua poesia revela, não pode ser situada num grupo delimitado; as suas tendências impõem-nos reconhecer, pelo contrário, representar ele melhor o homem de hoje do que qualquer 'escola'."] (daqui)