
Odilon Redon (French Symbolist artist, 1840–1916), 'Orpheus', 1903
Estações Alciónias
Estações alciónias,
solstício dos meus dias ...
Longe de embelezar, à distância,
a minha felicidade,
devo lutar para lhe não turvar a imagem;
a sua própria recordação
é hoje demasiado forte para mim.
Mais sincero que a maioria dos homens,
confesso sem rodeios
as causas secretas dessa felicidade:
aquela calma tão propícia aos trabalhos
e às disciplinas
parece-me um dos mais belos efeitos
do amor.
E espanto-me
de que estas alegrias tão precárias,
tão raramente perfeitas no decorrer de uma vida humana,
sob qualquer aspeto
além de que nós os tenhamos procurado
e recebido,
sejam consideradas com tanta desconfiança
por pretendidos sábios,
que eles receiem o seu hábito e excesso
em vez de temer a sua falta e perda,
que passem a tiranizar os sentidos
um tempo que seria mais bem empregado
a ordenar ou a embelezar a alma.
Naquela época
punha em fortalecer a minha felicidade, apreciá-la,
e também em julgá-la,
a atenção que sempre dispensara aos mais pequenos pormenores
dos meus atos;
e que é a própria voluptuosidade
senão um momento de atenção apaixonada do corpo?
Toda a felicidade é uma obra-prima:
o menor erro falseia-a,
a menor hesitação altera-a,
a menor deselegância desfeia-a,
a menor estupidez embrutece-a.
A minha
não é responsável em coisa alguma por aquelas
das minhas imprudências
que mais tarde a quebraram.
Julgo ainda
que teria sido possível a um homem mais hábil que eu
ser feliz até à morte.
Marguerite Yourcenar, in 'Memórias de Adriano'
Tradução de Maria Lamas
Editor: Ulisseia, 1974
Odilon Redon, 'Autorretrato', 1880, Musée d'Orsay
Redon foi um dos membros mais destacados do movimento simbolista, cujas bases teóricas foram definidas pelos manifestos do poeta Mallarmé e pela estética romântica. Diferente da obra de seus colegas, a sua chegou aos limites da sugestão e da abstração, e pode-se dizer que, tanto formal quanto conceitualmente, chegou, de modo visionário, perto da futura vanguarda surrealista.
Sua iniciação teve mais a ver com a arte gráfica do que com a pintura. De facto, Redon aprendeu as técnicas da gravura com Bresdin, influenciado pela obra de Doré. Como pintor, interessou-se pelas paisagens da Escola de Barbizon e pela obra de Rembrandt.
Em 1884 fundou com Gauguin e Seurat o Salon des Indépendants (ou Salão dos Independentes) e também participou das exposições do grupo Le XX, em Bruxelas. A partir de 1890 relacionou-se com os poetas simbolistas Mallarmé e Huysmans. O marchand Durand-Ruel, interessado em sua obra, propôs uma exposição individual.
A técnica mais utilizada por Redon era o pastel, que lhe permitia trabalhar as cores com texturas diferentes e bastante mescladas. Seu mundo de visões e sonhos, povoado de criaturas estranhas e às vezes monstruosas, fascinou os jovens do grupo nabis e influenciou significativamente os surrealistas.
Suas gravuras são ricas com uma visão muito pessoal de um universo de sonho. Ele mesmo declarou, "...deixo livre a minha imaginação no sentido de utilizar tudo o que a litografia pode me oferecer. Cada uma das muitas peças é o resultado de uma procura apaixonada do máximo que pode ser extraído da conjugação do uso do lápis, papel e pedra".
Obras de Odilon Redon
Odilon Redon, 'The Spider', 1881
Odilon Redon, 'Espírito Guardião das Águas', 1878
Odilon Redon, 'Cactus Man', 1881
Odilon Redon, 'O Cyclops', 1898
Odilon Redon, 'Melancolia', 1876
Odilon Redon, 'O silêncio', 1900







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