sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

"Sofro, noite!" - Poema de José Gomes Ferreira



Abbott Fuller Graves (American painter and illustrator, 1859–1936),
'Vessel Ashore', Private collection. 


Sofro, noite!


Não as dores metafísicas que os homens suam nas estrelas
para enfeitarem a fome da aristocracia das nuvens.
Não o terror súbito de nos vermos sozinhos na terra
sem uma voz nos astros que nos diga: «Cá estamos nós também!»
Não a tortura de saber se existe ou não existe
um Deus de carne igual à nossa a dar ordens às pedras.
Não a agonia dos lamentos que saem dos poços para o céu
e erram de árvore em árvore, de monte em monte, de corola em corola
com lobos voadores nos uivos dos vendavais.
Não o suor dos anjos na via láctea. O anseio do infinito. A angústia da sombra sem raízes.
Não o sufocar da treva no corredor cada vez mais estreito, cada vez mais estreito, cada vez mais estreito…
Não o assombro dos lírios negros. O gemer das almas nos cruzeiros
e todos os sofrimentos da lua habitada por fantasmas…

…Mas por outras razões mais desesperadamente vis,
mais limitadamente exíguas e diretas,
como esta mulher de xaile aqui na minha frente
a sofrer o mistério da fome
perdida na noite imensa,
na noite inquieta,
na noite absurda
cheia de crianças a chorar
lágrimas para além das estrelas,
ah! mas mais profundas e eternas
do que todos os mistérios do universo
com o céu e o inferno dentro da cabeça dos homens.

Lágrimas! – ouviste, noite?

Lágrimas de crianças espantadas de haver olhos sem lágrimas na vida.
Lágrimas de carne humana a rasgarem o frio dos penedos
e a molharem de lume o clamor dos bichos
presos à solidão da terra. 

Lágrimas, ouviste?

Ah! poetas: não olhemos mais para o céu.
Deixemos os mistérios para depois
quando não houver na noite
outras razões de sofrer mais vis.

Não olhemos mais para o céu!

Abaixo as estrelas, a lua, a via láctea
e todo esse espetáculo de luzes
como um candelabro de cometas
a iluminar a festa da miséria
no palácio do mundo.

Abaixo os astros! Essas caricaturas das lágrimas dos homens
de propósito belas e suspensas
para nos esquecermos das outras
que nos doem, nos olhos,
a inutilidade de chorar.

Lágrimas – ouviste, noite?
Lágrimas de grito!
Lágrimas de beber!


José Gomes Ferreira
[Escritor e poeta português, 1900–1985]

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