segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

"A Rua dos Cataventos" - Soneto XXXV de Mário Quintana


 
Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
"The Woodcutter", 1891


Soneto XXXV


Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...


Mário Quintana (1906–1994),
in "A Rua dos Cataventos", 1940;
in "Poesia completa", 2005,

Ed. Nova Aguillar

 

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