domingo, 29 de março de 2026

"Os Espelhos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955), Reflections, 1915.



Os Espelhos 
 

Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos refletem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo.


Sophia de Mello Breyner Andresen
 in Geografia, 1967.
 

"As raparigas lá de casa" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

 

 
Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917), 
The Two Sisters, 1895. Oil on canvas.

As raparigas lá de casa


Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa. 


Emanuel Félix Borges da Silva,
in "Habitação das Chuvas", 1997.


sábado, 28 de março de 2026

"Pax" - Poema de D. H. Lawrence

 


Ernest Biéler
(Swiss painter, draughtsman and printmaker, 1863–1948),
Portrait de l'ecrivain Édouard Rod (1857–1910), 1909.


Pax


Tudo o que importa é estar em paz com o Deus vivo,
ser uma criatura na morada do Deus da vida.

Como um gato dormindo na cadeira
em paz, tão em paz,
de bem com o dono da casa, com a dona,
em casa, à vontade, na casa dos vivos,
dormindo junto à lareira, bocejando ao pé do fogo.

Dormindo junto à lareira do mundo vivo,
bocejando no lar ao pé do fogo da vida,
sentindo a presença do Deus vivo
como uma imensa segurança,
profunda calma no coração,
uma presença,
como a do dono da casa, sentado à mesa
na plenitude de seu ser,
na morada da vida.


D. H. Lawrence (1885-1930), in "Last poems", 1932
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes


"Rumor de água" - Poema de Carlos de Oliveira



Túllio da Costa Victorino (Pintor naturalista português, 1896-1969),
Lavadeiras - Tomar, 1944.


 Rumor de água


Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refratada.

A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada.


Carlos de Oliveira, in "Colheita Perdida",
Casa Minerva, 1948.
 
 
Pinturas de Túllio da Costa Victorino

Túllio da Costa Victorino, Lavadeiras no regato, 1963.
 
 

Túllio da Costa Victorino, Paisagem, 1941.


Túllio da Costa Victorino, Casa com figuras, s.d.
 
 
Túllio da Costa Victorino, Ribeira do Porto, 1943. 


Perguntou-se a José Saramago:
– Como podem homens sem Deus serem bons?
Sua resposta foi:
– Como podem homens com Deus serem tão maus?


José Saramago, em Entrevista, 2009.
 

sexta-feira, 27 de março de 2026

"C..." - Poema de Júlio Dinis


(Spanish painter, 1848–1901), Dama en el parque, 1894.


C...


Não meças o amor pelo tempo que dura;
Ontem amei-te mais nessa hora tão ligeira,
Senti maior prazer, gozei maior ventura,
Do que se ao pé de ti passasse a vida inteira.

Deixa que esta paixão termine com o dia,
Efémera recém-nascida à madrugada,
E que ao cair do sol, nessa hora de poesia,
Deixou pender no chão a fronte desfolhada.

Fiquemos sempre assim, um ao outro ignorados
Nestas vagas regiões duma paixão nascente.
Sigamos cada um caminhos separados;
Com uma hora de amor a alma é já contente.

Lisboa, 1869.

Júlio Dinis, Poesias, 6º volume das "Obras Completas",
Lisboa, Círculo de Leitores, 1992.

 
Lady with a Parasol, 1880/8. Fundación Banco Santander.


O teu amor era falso,
Teve pouca duração.
Mas deixou mágoas eternas
No meu pobre coração.


Júlio Dinis, 
in "Justiça da sua Majestade", 1858.
 
 

"A Mocidade" - Poema de Olavo Bilac

 


Viggo Johansen
(Danish painter, 1851-1935), Children Painting Spring Flowers, 1894.
Skagens Museum


A Mocidade 


A mocidade é como a primavera!
A alma, cheia de flores resplandece,
Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,
E a desventura facilmente esquece.

É a idade da força e da beleza:
Olha o futuro, e inda não tem passado:
E, encarando de frente a Natureza,
Não tem receio do trabalho ousado.

Ama a vigília, aborrecendo o sono;
Tem projetos de glória, ama a Quimera;
E ainda não dá frutos como o outono,
Pois só dá flores como a primavera!


Olavo Bilac
, em Poesias Infantis, 1904.
 

quinta-feira, 26 de março de 2026

"O mar e o canavial" - Poema de João Cabral de Melo Neto



Sir Arthur Streeton (Australian landscape painter and a leading member of the Heidelberg School,
1867-1943), Ariadne, 1895, National Gallery of Australia.


O mar e o canavial


O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial sim aprende do mar;
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.


João Cabral de Melo Neto
in "A educação pela pedra", 1966.


Sir Arthur Streeton, Oblivion, 1892, Private collection.
 
 
"Eu não sei o que o amanhã trará." 

"I know not what tomorrow will bring."


Fernando Pessoa (Lisboa, 13/06/1888 — Lisboa, 30/11/1935)



A curiosa e inquietante última frase escrita por Fernando Pessoa (daqui)
 

Fernando Pessoa morre no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, de uma crise hepática. Era o início de uma noite de sábado.

Dá entrada no hospital na véspera da partida. E são dessa data (29 de novembro) as suas últimas palavras escritas: 

«I know not what tomorrow will bring.» [não sei o que o amanhã trará.] 

Tinha 47 anos.

Quando morreu Fernando Pessoa deixou publicada uma décima parte da sua obra: 35 Sonnets (1918), Antinous (1918), English Poems (1921), O Interregno: defeza e justificação da dictadura militar em Portugal (1928), Mensagem (1934) e uma série de escritos dispersos por algumas revistas, como a Orpheu — da qual foi o fundador.

Só mais tarde se descobriu que Fernando Pessoa deixou uma herança inestimável para o país e, sobretudo, para a Língua Portuguesa: uma arca com mais de 27 000 manuscritos inéditos.

A vasta obra, deixada inédita, só começou a ser editada em 1942, por iniciativas de Luís de Montalvor e de João Gaspar Simões.

Apenas em 1968 começou o inventário da sua famosa arca. Portugal começava então a aperceber-se da dimensão e da magnitude da obra pessoana. O mundo descobriu isso depois. E pasmou-se.

Em 1985, por ocasião dos 50 anos da morte do poeta, a sua obra entra em domínio público. Nesse ano, e nos seguintes, o mercado do livreiro (nacional e internacional) mostrou um verdadeiro interesse pelo poeta. Porém, em 1997, ao abrigo da diretiva da União Europeia (que fixava em 70 anos após a morte, o período de vigência dos direitos de autor) a editora Assírio e Alvim comprou aos herdeiros os direitos de edição — medida que viria a causar celeuma entre os editores de todo o mundo.

Em 2005, cumpridos os 70 anos da morte do poeta, a sua obra entra definitivamente em domínio público. Fernando Pessoa passou a ser livre outra vez e consagrou-se como um dos nomes maiores da literatura universal.

Em setembro de 2009, pelo Decreto n.º 21/2009, de 14 de setembro, o espólio documental de Fernando Pessoa foi classificado como «bem de interesse nacional», passando a designar-se o espólio do escritor como «tesouro nacional».

Entre outros títulos a Imprensa Nacional dedica-lhe a coleção «Edição Crítica de Fernando Pessoa», sob a coordenação do Professor Ivo Castro, a coleção de ensaios «Pessoana» e o primeiro volume da coleção infantojuvenil «Grandes Vidas Portuguesas». (daqui)