quarta-feira, 2 de março de 2022

"O Cérebro - é mais amplo do que o Céu" - Poema de Emily Dickinson

 

Charles Conder
(Australian painter, 18681909), 'Sand Dunes, Ambleteuse', 1901 
O Cérebro - é mais amplo do que o Céu 
 
 
O Cérebro — é mais amplo do que o Céu —
Pois — colocai-os lado a lado —
Um o outro irá conter
Facilmente — e a Vós — também —

O Cérebro é mais fundo do que o mar —
Pois — considerai-os — Azul e Azul —
Um o outro irá absorver —
Como as Esponjas — à Água — fazem —

O Cérebro é apenas o peso de Deus —
Pois — Pesai-os — Grama a Grama —
E eles só irão diferir — e tal acontecer —
Como a Sílaba do Som — 
 
 
Emily Dickinson,
in “Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas”
Tradução de Cecília Rego Pinheiro
 
 
 
Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas: Emily Dickinson
 
[Acumulou silenciosamente cerca de 1800 poemas. Com exceção de 7 textos, toda a sua obra seria divulgada postumamente. É possível que Emily Dickinson tenha vivido num tempo que não era o seu. Um ambiente puritano, calvinista e vitoriano. Às deceções amorosas contrapôs uma obra de uma modernidade cada vez maior. Esta pequena antologia bilingue foi traduzida, e bem, por Cecília Rego Pinheiro.] (daqui)
 
 
Emily Dickinson
A verdade em linguagem oblíqua


Duzentos Poemas: Emily Dickinson - 1ªED. (2014)

[A poesia de Emily Dickinson é marcada por uma peculiar gramaticalidade: inserção forçada de plurais, posições sintáticas invertidas, ou, muitas vezes, desrespeito pelos géneros, pelas pessoas ou pelas concordâncias verbais. É ainda necessário destacar da linguagem de Dickinson não só os desvios sintático-formais, mas ainda os desvios semânticos internos, aqueles que sustentam, pela rutura, a arquitetura dos seus textos poéticos e que resultam numa linguagem críptica, compacta, plena de elipses, traduzida em textos que desafiam a tradição da poesia enquanto comunicação e oferecem à linguagem literária um lugar de destaque e autonomia mais próximo da estética que informa a poesia moderna. Excessiva, em relação ao seu tempo; excessiva, mesmo em relação ao nosso, pela opacidade de leitura e apreensão e pelas temáticas envolvidas. “Uma linguagem altamente desviante que arrisca tudo”, como defende David Porter, pois, “na extrema elipse e transposição, desbasta a armadura mesma do sentido.”»  Do Posfácio]

 

Emily Dickinson nasce a 10 de Dezembro de 1830, em Amherst, Massachusetts, e morre a 15 de Maio de 1886. Justamente considerada a maior poeta norte-americana (quando não a maior de língua inglesa), Dickinson escreveria um dia: "Because I see - New Englandly / The Queen discerns - / like Me - provincially". Nesse olhar, que ela descreve simultaneamente provinciano e arrogante, encontra-se a génese da sua poesia, porque esse olhar, partindo do limite, relativiza o ilimitado, faz aproximar pontos aparentemente extremos, para em seguida lhes frustrar a resolução. Do ponto de vista estritamente físico, esse olhar em pouco mais se podia deter do que sobre um curto mundo: a casa e os seus aposentos, o jardim, a pequena cidade de Amherst, rodeada por colinas suaves, alguns amigos e os poucos habitantes do lar que ela habitava. Para o final da sua vida, essa visão física iria ainda, devido à doença, encontrar-se dramaticamente reduzida. O que lhe permitiu a expansão até zonas de limite praticamente inimaginadas na poesia norte-americana foi a exercitação da palavra, escrita e lida, e também a exercitação de um silêncio - eloquente. Revestindo a palavra de sentidos próprios e esvaziando-a de outros, alheios, Emily Dickinson aplicou à sua poesia um processo misto de desvelamento e ocultação, onde a contenção significa excesso. Desse processo não esteve ausente nem o seu sexo, nem a sua condição de mulher da classe média, descendente dos primeiros puritanos, simultaneamente privilegiada pela classe e marginalizada pelo sexo.

Tendo vivido toda a sua vida em Amherst, Dickinson movimentou-se numa casa dominada por homens prósperos e instruídos. Uma casa que havia sido, desde o seu avô, Samuel Fowler, seio de uma família obcecada com a educação. Uma casa onde entravam diariamente jornais, onde as principais obras dos autores clássicos eram lidas; uma casa onde lhe foi reservado o melhor quarto, ainda que ela dramatizasse, em poesia, o oposto ("I was the slightest in the House - / I took the smallest Room -". Se o sentido de injustiça deve ter sido sentido por Dickinson tanto mais agudamente quanto as diferenças eram exercitadas entre si própria e, por exemplo, o seu irmão, não devemos esquecer que a educação que recebeu em Mount Holyoke (excelente, para os padrões do seu tempo) foi por ela interrompida voluntariamente; nem que, a determinado momento da sua vida, ela própria recusaria a entrada nos círculos públicos pela mão de mulheres como Helen Hunt Jackson. Nem devemos esquecer que a sua quase reclusão física foi de facto uma excentricidade, um exagero real, acarinhado por quem lhe era próximo. Possivelmente, fosse Dickinson homem, a sua condição seria diversa: o acesso a esferas públicas de poder encontrar-se-ia contrabalançado pela necessidade (provável) de sobreviver economicamente. Ser mulher, branca, solteira e da classe média alta negou-lhe a igualdade e o domínio público, permitindo-lhe, simultaneamente, na ausência de responsabilidades económicas e encargos emocionais e familiares, dois fatores fundamentais para o exercício da escrita: tempo e, ironicamente, liberdade para o utilizar. 

E todavia, se é importante referir Emily Dickinson como norte-americana, branca, protestante, proveniente de uma classe social abastada, não é menos importante pensá-la como ser humano do sexo feminino, sobretudo do século passado, quando o acesso ao poder se encontrava mais dificultado às mulheres. Adicionalmente, se são complexas as questões da relação entre o sujeito que escreve e o texto e a deteção nesse texto de uma identidade sexual, é também complexa a questão da relação entre o texto e o sujeito que o lê. Os poemas, a não ser quando deliberadamente camuflam a identidade sexual, têm assinatura, não são produto de um ser (impossivelmente) "neutro". Nesse sentido, estabelecem um contrato com quem, de uma outra forma, os reproduz, e desse contrato de leitura entre texto e leitor consta a consciência, neste último, do sexo de quem assinou o texto, sobretudo se quem o fez era mulher. Essa consciência deve-se justamente ao facto de o espaço feminino se fazer sentir pela diferença na gestão desse espaço.

O aviso de Emily Dickinson ao seu mentor literário, Thomas Higginson, de que a pessoa que aparecia nos poemas, esse "neutro" "Representative of the Verse" não era ela, mas uma "supposed person" (C. 268), de pouco serviu, a não ser como estratégia intra-literária, precursora, aliás, da atitude modernista de dramatização e desdobramento do sujeito poético. Higginson sempre a leria como mulher, dentro dos moldes esperados no século XIX, a ponto de recomendar, já depois da sua morte, que o poema "Wild Nights" (P. 249) fosse omitido da edição que ele próprio ajudava então a compor, justificando essa atitude pelo medo de que os futuros outros leitores, na inevitável construção de um outro contrato de leitura, lessem no poema sinais de imoralidade por parte quem o escrevera. A autora do poema nunca o vira publicado. Como veria só publicados em vida pouco mais de dez poemas (mesmo esses modificados e com títulos - ausentes dos textos originais). Parecendo ter demonstrado, por volta dos trinta anos, interesse na publicação, Dickinson acabaria por desistir, ou pelas revisões a que os seus textos eram sujeitos, ou ainda porque a sua poesia, tal como se encontrava, não cabia nos cânones de publicação. Essa opção permitiu-lhe o exercício da escrita de uma forma eminentemente lúdica e experimental, mas, ao dar-lhe espaço total de movimentação poética, nunca deixou de ser fator de angústia ("Fame is a bee. / It has a song - / It has a sting - / Ah, too, it has a wing"

A "normalização" da sua poesia, quando esta é publicada - normalização essa presente em aspetos como a regularização da sintaxe, ou a supressão de traços então considerados inaceitáveis, como os seus famosos travessões, e sua substituição por uma pontuação canónica - visava suprimir o que era considerado desproporcionado, anormal, excessivo. Iniciado com uma primeira edição póstuma, em Novembro de 1890, esse processo de normalização estender-se-ia até 1955, altura em que Thomas Johnson levaria a cabo a edição crítica dos poemas, em três volumes, com variantes, sem títulos, com parte da pontuação que lhes era característica e demonstrando uma tentativa de aproximação cronológica. Essa edição inauguraria uma nova etapa na crítica dickinsoniana, que agora tinha à sua disposição o que, até ao início dos anos 1980, seria considerado a única versão "autorizada" da poesia de Dickinson. Em 1981, Robert W. Franklin publicaria a edição fac-similada dos manuscritos de Dickinson e um novo ciclo se iniciaria: os manuscritos, tal como surgiam apresentados, respeitando a ordem escolhida por Dickinson, punham em questão as datas oferecidas por Johnson, evidenciando que a poeta organizara cuidadosamente vários pequenos volumes de poemas (os "fascicles"), equivalentes a livros - para consumo privado. 

Salientava-se mais ainda dos poemas de Dickinson a ausência de uma versão única, a simultaneidade de alternativas, a, muitas vezes, "escolha da não escolha". Que a polémica continue ainda hoje a ser levantada pela crítica em relação à edição de Johnson, incomparavelmente mais fidedigna do que as anteriores, é prova de que a forma de escrita de Dickinson continua a revelar fraturas e desvios. Essas fraturas e esses desvios revelam-se na sua obra (em que se devem incluir também as suas cartas, muitas delas com verdadeiro estatuto de poema) e também na sua vida: vestir-se de branco (o que passa a ser uma constante a partir dos seus trinta anos) ou tornar-se praticamente reclusa - alimentará a sua imagem de excentricidade e exceção. Insistir ficar na casa do pai, transformando meros sinais de recato noutros de reclusão, esvazia a casa paterna do seu significado bíblico e do seu simbolismo como ponto de passagem para a casa do marido. É isso que permite a Dickinson escrever "I am alive because I do not own a house", porque, de facto, a casa é de seu pai, não sua, como ela notaria, numa carta: "I do not cross my Father's ground / To any House or town".

Recusando-se a transgredir abertamente, o que Dickinson utiliza é um processo de subversão, que passa não pela explícita substituição de códigos constrangedores por outros opostos, assim incorrendo no risco do castigo ("Assent - and you are sane / Demur - you're straightway dangerous - / And handled with a Chain -"), mas pela deslocação desses códigos, estendendo-os para lá dos seus limites. Assim, Dickinson cria uma outra versão do texto social, simultaneamente uma sub-versão, subterrânea, marginal, e uma sobre-versão, que não obstante teima em vir à superfície e em ser notada. O que era texto prescrito, consensual, pertencendo à ideologia dominante, torna-se texto privado mas, porque de exceção, passível de ser lido como diferença. O branco e a reclusão são, assim, formas silenciosas de, ruidosamente, falar outra linguagem. "The Soul selects her own Society / Then shuts the Door", escreveu Dickinson. Essa sociedade a que a poeta se abriu era pequena; escolheu não ser vista, mas ser falada, ter a liberdade de ver "seletivamente" e de poder ela própria falar através de uma linguagem idiossincrásica e desviada, oposta à "normalidade". E, todavia, nesse desvio e nesse sentido de diferença, Dickinson inserir-se-ia também na ideologia que a formara. 

Aos trinta e dois anos, numa carta a Thomas Higginson, diria, referindo-se à família: "They are religious - except me - and address an Eclipse, every morning - whom they call their 'Father'." Muito embora essa afirmação possa inscrever-se numa pose construída, interessa notar que essa pose parte de uma posição fortemente individualista. O que se conhece da vida de Dickinson ecoa a análise que Tocqueville faz do individualismo americano, e até mesmo a ambiguidade de que para ele o conceito se reveste. 

A subversão dos valores canónicos não passa só, em Dickinson, pela subversão das normas sociais e religiosas vigentes: passa também pela subversão dos valores canónicos literários. "Descontrolada" e "espasmódica" (como ela se auto-caracterizaria, ironicamente, numa carta a Higginson, que a havia aconselhado a rever, e assim "normalizar", os seus poemas - o que Dickinson sempre recusaria fazer) nunca ela deixaria de ser considerada, nem mesmo depois da sua morte, por Higginson. E Higginson é um barómetro do seu tempo, afinando a sua avaliação por um diapasão idêntico ao de Ralph Waldo Emerson, quando este lera Dickinson e havia dito que ela escrevia como se estivesse "ameaçada por febres". Essa suposta ausência de controle e essa rutura de escrita fazem parte das estratégias poéticas de Dickinson. 

Subverter as regras gramaticais, juntamente com outras regras, correspondia a violar e desafiar o próprio ato discursivo e o respetivo posicionamento social. Essa subversão revela-se ora clara ora implicitamente, quando, por exemplo, Dickinson oferece duas alternativas para um mesmo poema ("Going to Him - Happy Letter" e "Going to Her - Happy Letter"; ou quando, mais abertamente, subverte padrões de comportamento sexual ao utilizar explicitamente referentes femininos ("I showed her Heights she never saw", "Her sweet Weight on my Breast one Night"; ou ainda quando, pura e simplesmente, omite diferenciações sexuais, substituindo-as pelo género neutro ("This was a Poet - It is That"

Descentrada relativamente quer aos valores poéticos predominantes (masculinos), quer aos valores poéticos do seu próprio sexo, Dickinson é também descentrada em relação aos próprios valores sociais. Mas esse descentramento não contraria o que se pode ler também na poesia de Dickinson e que acaba por se inserir na ideologia americana: a tentativa de construção de um novo mundo, neste caso, poético.

Sandra Gilbert explica a criação na poesia americana de uma tradição feminina e de uma tradição masculina iniciadas com Dickinson e Whitman: articulada em termos de diferença sexual, essa ideia de desvio à tradição dever-se-ia ao facto de Dickinson e Witman terem produzido o que Gilbert considera ser "not poetry"; e Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, dialogando com Gilbert, define "not poetry" precisamente como a asserção da originalidade na retórica americana que afirma a legitimidade de diferença. Assim, se Whitman recorre a um tom oratório, de características semelhantes à do sermão, Dickinson utiliza, embora transgredindo, a estrutura prosódica do hino religioso. Informados ambos pela estética puritana, ambos a subvertem, embora diferentemente: Whitman, na parodização inconsciente das entoações bíblicas através da utilização de uma voz bárdica, semelhante à de um sacerdote ou de um profeta; Dickinson, no aproveitamento da estrutura e no recurso a uma voz elíptica que desafia e ilude, pelo sentido, a própria economia e contenção puritanas. Dickinson recorre, assim, a um estilo compacto e elíptico, à economia (quando não frugalidade) verbal, onde não parece haver espaço para aquilo que geralmente se atribui ao excesso: a super-abundância, a demasia. E todavia, a sua contenção formal pode ser considerada uma forma de excesso, não só por servir muitas vezes conteúdos semânticos de extremidade, mas também pela mensagem paradoxal de presença pela ausência, em que o próprio efeito de omissão é denunciador de excesso. Daí a sua utilização recorrente da elipse: destruindo a sintaxe, Dickinson revoluciona a linguagem poética, fazendo abalar a coesão de sentidos. "Tell all the Truth / But tell it slant", escreveu ela. 

Tal como Pessoa e o seu poema sobre o fingimento poético, também Dickinson dizia dizer toda a verdade, mas de forma oblíqua. Não só nos seus textos considerados poemas. Sabemos que a única reprodução da imagem de Dickinson é um daguerreótipo; quando Thomas Higginson lhe pede uma fotografia, a resposta da poeta é: "Could you believe me - without? I had no portrait, now, but am small like the Wren, and my Hair is bold, like the Chestnut Bur - and my eyes, like the Sherry in the Glass, that the Guest leaves - Would this do just as well?". Higginson não fica a conhecer melhor a figura de Dickinson através desta descrição poética, nem a ficará a conhecer melhor quando a visita, muitos anos depois. Sobretudo, não a fica a conhecer pelas palavras das cartas que ela lhe enviaria até morrer, e que lhe oferecem somente, tal como esta carta, representações, máscaras, não auto-representações.

Representações atravessadas (literalmente, pelos travessões) por espaços em branco - e todavia, profundamente poderosas: A still - Volcano - Life - That flickered in the night - When it was dark enough to do Without erasing sight Too subtle to suspect By natures this side Naples - The North cannot detect The lips can never lie - Whose hissing Corals part - and shut - And Cities - ooze away - Tal como a vida do sujeito lírico do seu poema, também a vida e a obra da poeta foram vulcânicas, brilhando na escuridão do praticamente anonimato; com tremores de terra imperceptíveis a outros; com níveis de subterraneidade riquíssimos e escondidos sob um aparente sossego comunitário; todavia capazes, de, uma vez despertos, como aconteceu quando, após a sua morte, se deu a libertação desse anonimato, demolirem as estruturas fixas do texto canónico e pulverizarem a imagem fixa que dela se possuía. 

As Emily Dickinsons que existem ao longo dos textos que, sendo dela, foram também por outros recriados, e as Emily Dickinsons que se lêem ao longo dos livros que se debruçam sobre essas poesias, assumem, num e noutro caso, máscaras diversas e são possíveis porque de facto não está presente uma só Emily Dickinson no texto publicado. Sem publicação, todo o poema se torna um poema possível; e assim somos muitas vezes deixados na incerteza, que se deve à ambiguidade da poesia, e às máscaras diferentes assumidas já não só pela poeta, mas ainda pelo ser humano que foi Dickinson. Resta talvez o olhar que, partindo do limite, relativizava o que o não tinha, esse olhar que, detendo-se em tão pouco (as colinas suaves de Amherst, alguns amigos, a casa), se alargaria tanto, fazendo da sua utilizadora uma das maiores poetas do nosso tempo; aquela que um dia, elipticamente, escreveria: "Had I known I asked the impossible, should I perhaps have asked it, but Abyss is it's [sic] own Apology." - 29 de Abril de 2000, (daqui)


Charles Conder, 'The Shore at Dornoch, Highlands', 1896


Não viverei em vão, se puder
Salvar de partir-se um coração,
Se eu puder aliviar uma vida
Sofrida, ou abrandar uma dor,
Ou ajudar exangue passarinho
A subir de novo ao ninho —
Não viverei em vão.

Emily Dickinson,
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes
 


terça-feira, 1 de março de 2022

"Neurastenia" - Poema de Florbela Espanca


Ludwig Michalek (Austrian portrait painter, graphic artist and copper engraver,
1859
1942), 'Auf der Reise' ('On the Journey'), 1886.



Neurastenia 


Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza ...

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza...

Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!... 
in "Livro de Mágoas",  2019.
 
 
 

O «Livro de Mágoas», a primeira obra de Florbela Espanca a ver as bancas das livrarias, é editado em Junho de 1919 por Raul Proença, ao tempo um intelectual e crítico literário conceituado e influente, que reconhece o talento da jovem poetisa, quando ela lhe envia um caderno contendo onze poesias de «Trocando Olhares» e apropriadamente chamado «Primeiros Passos», em Julho de 1916. Depois de os poemas serem corrigidos pelo crítico, Florbela escreve-lhe, de novo, acerca das críticas que ele lhe fizera e enviando mais alguns sonetos, que viriam a integrar o «Livro de Mágoas». Como em toda a sua produção poética publicada em vida, os sonetos aparecem alterados, por vezes, drasticamente.

No «Livro de Mágoas», dedicado ao seu pai, o seu melhor amigo, e à alma que considera irmã da sua, o seu irmão, Florbela centra-se na temática da mágoa, da dor e da saudade, inserindo-se, desde o início da obra, num contexto decadentista e, por vezes, turtuoso. À obra, que abre com uma epígrafe a Eugénio de Castro e a Verlaine, não falta o tom finissecular, dado pela tendência para chorar e lamentar-se que se manifesta ao longo da obra, que inclui sonetos como «Vaidade», «Neurastenia», «Castelã» e «Em Busca do Amor».

Abordando igualmente a temática do sonho, Florbela define para si um espaço poético único, isto é, faz do «Livro de Mágoas» um espaço poético com características muito peculiares. Quere-o, no fundo, como um espaço de comunicação entre os tristes e magoados, intenções que lembram António Nobre e o seu «», e que a poetisa expõe logo no primeiro soneto, «Este livro…».

Apesar de desconhecida no meio literário da época, pode-se dizer que o sucesso de Florbela foi assinalável, já que a sua primeira obra, tal como a segunda, esgotaria rapidamente. (Daqui)
 
 
 
Ludwig Michalek, 'My Mother' ('Evening Mealtime'), c. 1910


"Em época de paz, os filhos enterram os pais, enquanto em época de guerra 
são os pais que enterram os filhos."

Heródoto, in Histórias
 
 
Estátua de Heródoto diante do Parlamento Austríaco (daqui)
 

O historiador grego Heródoto nasceu em Halicarnasso, na Ásia Menor, por volta de 484 a. C., e morreu em Túrio cerca de 425 a. C. A vontade de se instruir, cedo manifestada, foi satisfeita com viagens por todo o mundo grego e ainda pela Pérsia e pelo Egito.

A obra de Heródoto é intitulada Histórias, de uma palavra grega que significa «informação». Este título serviu posteriormente para designar o próprio género literário. A obra está dividida em nove livros, cada um dos quais tem o nome de uma das musas. Este conjunto de nove livros está dividido em duas partes: Antes das Guerras Médicas - Livros I-IV (correspondentes às musas Clio, Euterpe, Tália e Melpómene); Guerras Médicas - Livros V a IX (correspondentes a Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia e Calíope).

A obra de Heródoto é um manancial de ensinamentos. Antes da decifração dos hieróglifos, a sua obra era o único documento sobre o antigo Egito Antigo. 
Embora não possa ser posta em dúvida a sua sinceridade, é incontestável que as suas fontes são muito díspares. Viu muito, mas também diz muito por ouvir dizer. Além disso, falta-lhe o espírito crítico: mistura anedotas com factos importantes, põe em dúvida alguns acontecimentos, mas aceita outros igualmente pouco críveis.

A religião, a moral e o patriotismo dão particular grandeza à obra de Heródoto. Por outro lado, Heródoto é um admirável contador. As narrações e os discursos são encantadoramente naturais e as descrições são coloridas e precisas. O estilo é cheio de doçura e simplicidade, e para isso ajuda muito o uso da língua jónica. (daqui)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

"Mediadora do Vento" - Poema de António Ramos Rosa


Nadir Afonso (Arquiteto, pintor e pensador português, 19202013), 'Tejo' 
 
 
Mediadora do Vento


Ligeira sobre o dia
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.

Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.

Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.

Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria. 


António Ramos Rosa
,
in "Mediadoras", Lisboa: Ulmeiro, 1985


 

“Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas
um doce pungimento.”

José Saramago, in 'A Jangada de Pedra', 1986
 


A Jangada de Pedra

 
Romance de José Saramago (Prémio Nobel da Literatura, em 1998), publicado em 1986. É adaptado para cinema, em 2002, sob a realização de George Sluizer (La Balsa de piedra).

A trama começa por relatar uma série de acontecimentos insólitos, terminando com a separação da Península Ibérica do continente europeu. Gera-se um clima social agitado de confrontos entre o povo e as tropas do governo.
Durante o percurso errante da península no oceano Atlântico, surge a possibilidade dela colidir com o arquipélago dos Açores. A população, desesperada, abandona as cidades do leste português. Perante as inesperadas deslocações dos habitantes, os governos português e espanhol não conseguem responder de maneira eficaz. Posteriormente, a Península Ibérica desvia-se dos Açores, de forma inexplicável, e desloca-se para Norte, o que permite às populações deslocadas regressarem às suas casas. Mais tarde, os cidadãos da península verificam que esta deixa de movimentar-se, passando a girar em torno de um eixo, fenómeno que durou um mês.
No fim da ação, a jangada de pedra imobiliza-se, deixando, no entanto, em aberto, a possibilidade de futuras movimentações.
As personagens que se destacam neste romance são Joana Carda, Joaquim Sassa, José Anaiço, Pedro Orce e Maria Guavaira.

Saramago exibe uma escrita particular de fortes traços modernistas, onde predominam os períodos e parágrafos longos, a escassez de pontuação, o cruzamento híbrido do discurso do narrador com o das personagens, a abundância do discurso indireto livre e o uso de expressões populares portuguesas.
A obra, que fora publicada no ano em que Portugal e Espanha aderiram à Comunidade Económica Europeia (C.E.E.), atual União Europeia, satiriza as autoridades políticas e os jogos de poder. (daqui)

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

"Do Medo I" - Poema de Luiza Neto Jorge



Anna Elizabeth Klumpke (American portrait and genre painter, 1856–1942),
'Among the Lilies', 1909, Fine Arts Museums of San Francisco.


Do Medo I


É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)

Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de uma flauta eternizou

no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida

é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte

Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde

(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)

desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite

sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins

e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne

Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor

há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem

Quando nos será possível um suicídio exato
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?

Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte.


Luiza Neto Jorge
, in 'Quarta Dimensão'
 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

"Baladas Românticas" - Poema de Olavo Bilac




Hans Zatzka (Austrian painter, 1859–1945), 'Blumenreigen',
(Dancing Amongst the Flowers)
, ca. 1900.
 

Baladas Românticas


Como era verde este caminho!
Que calmo o céu! que verde o mar!
E, entre festões, de ninho em ninho,
A Primavera a gorjear!...
Inda me exalta, como um vinho,
Esta fatal recordação!
Secou a flor, ficou o espinho...
Como me pesa a solidão!

Órfão de amor e de carinho,
Órfão da luz do teu olhar,
- Verde também, verde-marinho,
Que eu nunca mais hei de olvidar!
Sob a camisa, alva de linho,
Te palpitava o coração...
Ai! coração! peno e definho,
Longe de ti, na solidão!

Oh! tu, mais branca do que o arminho,
Mais pálida do que o luar!
- Da sepultura me avizinho,
Sempre que volto a este lugar...
E digo a cada passarinho:
"Não cantes mais! que essa canção
Vem me lembrar que estou sozinho,
No exílio desta solidão!"

No teu jardim, que desalinho!
Que falta faz a tua mão!
Como inda é verde este caminho...
Mas como o afeia a solidão!
 
 
Olavo Bilac, in "Poesias"
 
 
 
Joseph Bernard (French painter, 1864–1933), 'Allegory of Spring'



Primavera


As flores abrindo
no vento da primavera
como gargalhadas

*
É primavera –
sobre a montanha sem nome
névoa da manhã.

*
Vai-se a primavera –
choram as aves e há lágrimas
nos olhos dos peixes.


Matsuo Bashō
(Haicai / Haikai / Haiku)
 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

"Eu te prometo" - Poema de Rosa Lobato Faria



Antonio García Mencía (Pintor e ilustrador espanhol, 1853–1920), 'O Colar', s.d.


Eu te prometo



Eu te prometo meu corpo vivo.
Eu te prometo minha centelha
minha candura meu paraíso
minha loucura meu mel de abelha
eu te prometo meu corpo vivo.

Eu te prometo meu corpo branco
meu corpo brando meu corpo louco
minha inventiva meu grito rouco
tudo o que é muito tudo o que é pouco
meu corpo casto meu corpo santo.

Eu te prometo meu corpo lasso
mar de aventura mar de sargaço
vaga de náufrago onda de espanto
orla de espuma do meu cansaço
eu te prometo meu doce pranto.

Eu te prometo todo o meu corpo
ardendo eterno na nossa cama
como um abraço como um conforto.

P´ra que me lembres além da chama
eu te prometo meu corpo morto.


Rosa Lobato de Faria
,
in 'A Noite Inteira já não Chega' 
(Poesia: 1983–2010)
Guimarães Editores, 2013.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

"Nunca me senti em Casa" - Poema de Emily Dickinson



Peggy Guggenheim
 (18981979) by Franz von Lenbach, ca. 1903, 
 
 
Nunca me senti em Casa 
 
 
Nunca me senti em Casa – Cá em baixo –
E nos Aprazíveis Céus
Não me sentirei em Casa – eu sei –
Eu não gosto do Paraíso –

Porque é Domingo – sempre –
E o Recreio – nunca chega –
E o Éden serão solitárias
Claras Tardes de Quarta feira –

Se, ao menos, Deus fizesse visitas –
Ou Sestas –
E deixasse de nos ver – mas dizem
Que Ele – por um Telescópio

Perpétuo nos olha –
Eu própria fugiria
D’Ele – e do Espírito Santo – e de Todos –
Não fosse o “Juízo Final”!

 
in “Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas”
Tradução de Cecília Rego Pinheiro 
 
 
[Emily Dickinson (18301886) é considerada a maior poeta norte-americana. Talvez a maior de língua inglesa. Deixou-nos quase dois mil poemas. Poucos conhecemos, em português. Jorge de Sena abriu o caminho às primeiras traduções, já difíceis de encontrar, Cecília Rego Pinheiro acrescentou uma breve recolha ainda disponível na Assírio & Alvim ("Esta É a Minha Carta Ao Mundo e Outros Poemas").] (daqui)


Peggy Guggenheim
in Paris,
ca. 1940, by Rogi André


Peggy Guggenheim 
 

Marguerite “Peggy” Guggenheim nasceu, em Nova Iorque, a 26 de Agosto de 1898, no seio de uma família abastada. Filha de Florette Seligman (1870-1937), pertencente a uma família banqueira de topo, e de Benjamin Guggenheim (1865-1912) que, juntamente com o pai e os seis irmãos, criou fortuna através do trabalho com metais. O seu pai foi uma das vítimas do naufrágio do Titanic, em Abril de 1912.

Outro familiar que é necessário destacar é o tio Solomon Robert Guggenheim (1861-1949), fundador do Museu com o mesmo nome em Nova Iorque. Foi exatamente nessa cidade que Peggy Guggenheim  passou a sua infância e juventude. É em 1921, já casada com Laurence Vail (1891-1968, casam em 1922 e separam-se em 1930; pai dos seus dois filhos) que viaja para a Europa, nomeadamente para Paris. Aqui, desloca-se entre a vida boémia e a sociedade americana expatriada, conhecendo algumas pessoas que se tornariam amigos de longa data, como é o caso de Constantin Brâncuși (1876-1957), Djuna Barnes (1892-1982) e Marcel Duchamp (1887-1968).

É em 1938 que abre a Guggenheim Jeune, uma galeria de arte em Londres. Com 39 anos, dá assim início a uma carreira que vai ter um grande impacto na Arte no pós-guerra.
Amigos como Samuel Beckett (1906-1989) e Duchamp incentivaram Peggy a apostar na Arte Contemporânea, ensinando-lhe a diferença entre os vários estilos e apresentando-a a vários artistas. Nesta galeria, expôs obras de Jean Cocteau (1889-1963),  Wassily Kandinsky (1866-1944), Yves Tanguy (1900-1955), Rita Kernn-Larsen (1904-1998), entre outros. 
 
A primeira obra que Peggy Guggenheim comprou foi Head and Shell (c. 1933) do pintor e poeta alemão  Jean Arp (1886-1966).
É também nestes anos que volta a instalar-se em Paris e aqui começa a ocupar-se a tempo inteiro da compra de obras de arte, adotando o mote: "Comprar uma obra todos os dias e viver de acordo com isso."
Apesar dos tempos conturbados, adquiriu grandes obras de artistas como Georges Braque (1883-1963), Salvador Dalí (1904-1989), Robert Delaunay (1885-1941), Piet Mondrian (1872-1944), Francis Picabia (1879-1953), Fernand Léger (1881-1955) e Brâncuși.

Com o avançar da guerra, pediu ao Musée du Louvre para esconder a sua coleção, algo que lhe foi negado. Tendo nome judeu, viu-se obrigada a ocultá-lo nos serviços alfandegários para conseguir enviar as suas obras como “itens domiciliários” em segurança para Nova Iorque. Assim, não só conseguiu proteger a sua coleção como também os meios de subsistência dos seus artistas considerados “degenerados” pelo 3º Reich.

Só com o aproximar do exército nazi a Paris é que decide fugir para o sul de França e em Julho de 1941 regressa a Nova Iorque com os seus filhos, o seu agora ex-marido, a esposa e filhos dele, e com o pintor Max Ernst (1891-1976), com quem viria a casar pouco tempo depois, divorciando-se mais tarde, em 1946.

Em Outubro de 1942, inaugura Art of This Century, em  Manhattan, New York City, uma galeria com coleção permanente, exposições temporárias e venda de obras, e que cedo se tornou o espaço mais estimulante da arte contemporânea em Nova Iorque, com uma grande inovação ao nível das salas de exposição, com todos os elementos do espaço a relacionarem-se com os estilos e peças aí expostos. Aqui queria mostrar que não tinha preferência entre a Abstração e o Surrealismo, pedindo a colaboração de artistas de ambos os estilos para várias coisas, incluindo a conceção do catálogo. 

Até aqui, a coleção de Peggy Guggenheim ia de 1910 a 1942, numa quantidade limitada, mas bastante forte a nível qualitativo: Cubismo, Futurismo, Orfismo, Abstração Europeia (Suprematismo, Construtivismo, De Stijl), pintura Metafísica, Dadaísmo, Surrealismo, Purismo; com obras de vários artistas como BrâncușiJean Arp, Alberto Giacometti (1901-1966), Henry Moore (1898-1986), Alexander Archipenko (1887-1964), Henri Laurens (1885-1954), etc.

Nesta galeria, para além de expor a sua coleção, usava as exposições temporárias como palco para os grandes nomes da arte europeia, mas também para os artistas americanos emergentes como Robert Motherwell (1915-1991), Mark Rothko (1903-1970), Jackson Pollock (1912-1956), entre outros. 
Pollock  seria exatamente um dos artistas a quem Peggy Guggenheim daria um maior impulso, sendo o primeiro a expor a solo na galeria e cujas obras a colecionadora promovia e vendia ativamente. Foi também ela que comissionou o seu maior Mural (1943). Guggenheim viria a considerar o sucesso do artista americano como uma das suas maiores conquistas. 

Mais importante que dar a conhecer a Arte Europeia, Peggy, juntamente com o amigo e assistente Howard Putzel (1898-1945), era uma grande incentivadora do crescente movimento Avant-Garde, em Nova Iorque. O desenvolvimento deste que foi o primeiro estilo artístico americano vai, por isso, buscar grande força à sua coleção. 

Mal tem oportunidade de regressar à Europa, Peggy escolhe Veneza como destino, viajando rumo à cidade em 1947. Pouco depois da sua chegada, compra o Palazzo Venier dei Leoni, onde acabaria por passar o resto da sua vida. Esta foi a cidade da vida e do coração da colecionadora, que tinha uma visão peculiar sobre a mesma. Entre várias afirmações, podemos destacar:

"Assume-se que Veneza é o local ideal para uma lua-de-mel. Este é um erro muito grave. Viver em Veneza ou apenas visitá-la significa que se apaixonam pela própria cidade. Não sobra nada no vosso coração para mais ninguém."

Logo em 1948, enquanto Itália atravessava uma Guerra Civil, expõe a sua coleção na Bienal de Veneza. É a primeira vez que obras de artistas como PollockArshile Gorky (1904-1948) e Rothko são exibidas na Europa. Este ponto aliado à quantidade de obras cubistas, surrealistas e abstratas na coleção, fazem desta exposição uma das mostras modernistas mais coerentes apresentadas no país até então.
Pouco depois, em 1949, organiza uma exposição de escultura contemporânea e, em 1950, a primeira exibição europeia de obras de Pollock.
Em 1962, a cidade nomeia-a Cidadã Honorária de Veneza. 

Peggy Guggenheim nunca deixou de comprar obras de arte, apoiando artistas das mais variadas nacionalidades como Edmondo Bacci (1913-1978), Francis Bacon (1909-1992), Kenzo Okada (1902-1982), entre outros.
Este amor e orgulho pela Arte e pela sua coleção fazem com que, em 1951, Peggy decida começar a mostrá-la, bem como a sua casa, ao público. 

Em 1969, expõe a sua coleção no museu do tio, em Nova Iorque. A partir daqui, estreita-se a ligação entre os dois mundos, sendo que, em 1970, doa o seu Palazzo e, em 1976, as suas obras à Solomon R. Guggenheim Foundation. Esta Fundação foi criada em 1973 como forma de promover o conhecimento da Arte e estabelecer um ou vários museus.
 
 

 Max Ernst and  Peggy Guggenheim in the gallery ‘Art of This Century’,
New York, ca. 1943, via HuffPost


Peggy Guggenheim morre a 23 de Dezembro de 1979, em Itália.
Após a sua morte, o seu Palazzo tornou-se um dos mais conceituados museus de Arte moderna no mundo: Coleção Peggy Guggenheim
A sua coleção foi desde logo uma das mais proeminentes coleções de Arte Cubista e Surrealista, numa altura em que estes movimentos não eram tidos em grande consideração por outros colecionadores, incluindo o seu tio.
As obras que reuniu representam o seu gosto e estilo pessoal.  Peggy Guggenheim fazia pouca distinção entre a vida pessoal e a profissional, pois, regra geral, os artistas que apoiava e cujas obras expunha se tornaram seus amigos.
Segundo a neta e curadora Karole Vail (n.1959): "A sua vida e a sua coleção de Arte estavam completamente interligadas."

Apesar da época em que viveu, Peggy Guggenheim não teve problemas em assumir os seus gostos e intenções, quer no mundo da Arte como no mundo das relações pessoais. Fez o seu caminho como uma mulher livre e descomplicada, dando prioridade ao que a fazia feliz, preocupando-se e ajudando quem assim merecia, sem olhar a meios e ao que os outros poderiam dizer, sendo uma pioneira num mundo que ia reclamando mais espaço para as mulheres. Mesmo tendo um gosto artístico específico e limitado a certas épocas e estilos, viveu a Arte como poucos o fazem.

"Olho para a minha vida com grande alegria. Penso que foi uma vida muito bem sucedida. Sempre fiz o que quis e nunca me preocupei com o que os outros pensavam. Libertação das mulheres? Eu era uma mulher livre muito antes de haver um nome para isso." - Peggy Guggenheim (daqui)


Peggy Guggenheim, Venice, April 1969. Photograph: Stefan Moses (daqui)
 

Action Painting
 
 
O termo Action Painting qualifica em simultâneo uma técnica pictórica e uma corrente artística associada ao movimento do Expressionismo Abstrato, desenvolvido desde os inícios da década de 1940 nos Estados Unidos da América e na Europa, onde se tornou conhecido por Informalismo.

Enquanto movimento pictórico, a Action Painting é geralmente confundida com o Expressionismo Abstrato, do qual constitui somente uma das tendências formais e estéticas, a par do Color field Painting.

O seu nome resulta do título de um artigo publicado pela revista Art News de dezembro de 1952, "The American Action Painters", escrito pelo poeta e crítico de arte americano Harold Rosenberg (1906-1978). A grande divulgadora desta corrente foi a galerista nova iorquina Peggy Guggenheim  (1898-1979) que, desde 1942, realiza uma série de exposições dos trabalhos destes artistas.

A Action Painting, ou pintura gestualista, tem as suas origens mais diretas no movimento surrealista e no desenho automático, praticado por alguns dos artistas que integravam esta corrente, mais especificamente pelo pioneiro André Masson (1896-1987), famoso pelos trabalhos que realiza em meados da década de vinte, sob influência da psicologia e da psicanálise freudianas e jungianas. A influência deste artista na cultura artística nova iorquina tornou-se particularmente forte após a sua ida para os Estados Unidos em 1941.

Mais especificamente, o termo Action Painting aplica-se ao trabalho de poucos pintores, todos saídos do período da pós-depressão nos Estados Unidos, como Jackson Pollock e o seu discípulo Hans Hofmann (1880-1966) cujos trabalhos revelam, desde os anos 40, a preferência pela pintura através do dripping, técnica que consistia em deixar pingar a tinta sobre uma tela, geralmente de grande dimensão, colocada na horizontal sobre o chão. Pode também ser incluída nesta tendência parte da obra dos americanos Arshile Gorky (1904-1948) e de Robert Motherwell (1915-1991).

Estes artistas apresentam como denominador comum o entendimento do quadro como um palco para a ação artística. A pintura, sempre abstrata, realiza-se através de amplos gestos (que adquirem o carácter de coreografias), procurando salientar a intensidade e intencionalidade estética contida no ato de pintar. É precisamente esta ação livre e sem obstáculos intelectuais e não tanto o seu produto final (uma imagem constituída por linhas, manchas, cor e forma), aquilo que deve ser comunicado ao público. Raramente são realizados estudos prévios, considerados aniquiladores do processo de desenho automático de cariz espontâneo.

Tendo tido um desenvolvimento mais forte nos Estados Unidos, em torno da chamada Escola de Nova Iorque, a Action Painting produziu ecos na Europa do pós-guerra. Em França, influenciou, em alguns aspetos, o movimento informalista e o Tachismo, como o demonstra a linguagem sígnica instantânea e de grande expressividade do pintor Georges Mathieu . Na Alemanha destaca-se o trabalho dos pintores Fred Thieler e Karl Otto Götz (que levam o automatismo e o instinto a um limite máximo) e o Grupo Zen, criado em Munique, que retoma o método e técnicas pictóricas de Jackson Pollock. Em Itália, salienta-se a atividade do grupo de artistas denominado "Movimento Arte Nucleare".
A Action Painting foi precursora de alguns movimentos posteriores, como a Arte Processual dos anos 70. (daqui)