quarta-feira, 14 de agosto de 2024

"Árvore" - Poema de Mia Couto


Henri Biva (French artist, 1848–1929), Forest in the spring, oil on canvas, 73 x 60 cm.



Árvore


Onde os frutos maduram:
sal e sol em minhas veias
luz e mel em boca alheia.

Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e da madeira e seiva
se fez o meu corpo.

Agora,
chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.

Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras. 


Mia Couto
, in "Vagas e Lumes"



Henri Biva, Étang en Ile de France, oil on canvas, 54 x 65 cm.
 

"Quem voa depois da morte? É a folha da árvore."

Mia Couto, in "O Último Voo do Flamingo" 
 

terça-feira, 13 de agosto de 2024

"Última Folha" - Poema de Machado de Assis


Themistokles von Eckenbrecher (German landscape and marine painter, 1842–1921),
View of Lærdalsøyri, on the Sognefjord, 1901.


Última Folha
Tout passe,
Tout fuit
.

V. Hugo
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios
O sol resplandecente.

Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortuário;
Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sudário.

Desce. Virá um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.

Então coroarás a ingénua fronte
Das flores da manhã, — e ao monte agreste,
Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!

Então, nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;

Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;

E o rio, a árvore e o campo,
A areia, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;

Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A glória da natureza,
A ventura, o amor e a paz!

Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;

Lá onde, abrindo as asas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia! 


Machado de Assis, in 'Crisálidas',
Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1864.


Themistokles von Eckenbrecher, Raftsundet, 1906.


Vi já das altas aves a harmonia,
Que até aos montes duros convidava
A um modo suave de alegria.
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

"Janela do Sonho" - Poema de Carlos Melo Santos

 


Morgan Weistling
(American painter, b. 1964), 'Reflection of Love'


Janela do Sonho


Abri as janelas
que havia dentro de ti
e entrei abandonado
nos teus braços generosos.

Senti dentro de mim
o tempo a criar silêncio
para te beber altiva e plena.

Mil vezes
repeti teu nome,
mil vezes,
de forma aveludada
e era a chave
que se expunha
e fecundava dentro de mim.

Já não se sonha,
deixei de sonhar,
o sonho é poeira dos tempos
é a voz da extensão
é a voz da pureza
que dardejava na nossa doçura.

Quando abri as tuas janelas
e despi teus braços
perdi a vaidade
e a pressa,
amei a partida
e em silêncio abri,
(sem saber que abria)
uma noite húmida
em combustão secreta
desmaiado no teu ombro
de afrodite.


Carlos Melo Santos (1956-2021),
in "Lavra de Amor"
 

domingo, 11 de agosto de 2024

"Ao Luar" - Poema de Augusto dos Anjos


Joaquín Vayreda (Pintor espanhol, 1843 - 1894), Salida de la luna, 1883, Museo de Montserrat.
 
 

Ao Luar
 

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


Augusto dos Anjos, Outras Poesias


 

“Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso ― o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. 
O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito ― por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.” 

Guimarães Rosa (1908-1967), Grande Sertão: Veredas, página 293.
 

Joaquín Vayreda, Campo de Alfalfa, 1880-83, Museo de Montserrat.
 
 
"Longe, sob o sol, estão minhas mais elevadas aspirações. Talvez não as alcance, mas posso ver sua beleza, crer nelas e procurar seguir seu rumo."

Louisa May Alcott, "Work: A Story of Experience", 1873.
 

sábado, 10 de agosto de 2024

"Os Velhos" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Charles Spencelayh (English genre painter and portraitist in the Academic style, 1865–1958),
Grandfather's and grandmother's treasures, 1945.
 


Os Velhos
 

Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final. 

Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enormidade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida? 

Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva. 

Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios. 

Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos. 
 
 
Carlos Drummond de Andrade
, in 'Boitempo II'
São Paulo: Record, 1986.
 
 
Charles Spencelayh, Visitors Expected, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, The Old Copyist, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, The Latest News, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, His Birthday, 1925.
 
 
 
Charles Spencelayh, Solitaire, s.d.
 
 
"Não honrar a velhice é demolir, de manhã, a casa onde vamos dormir à noite." 
 
"Ne pas honorer la vieillesse, c'est démolir le matin la maison où l'on doit coucher le soir."
 
Jean-Baptiste Alphonse Karr, "Une poignée de vérités: Mélanges philosophiques"‎
- Página 534, - Didier, 1853 - 344 páginas. 
 

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

"No mundo há muitas armadilhas" - Poema de Ferreira Gullar



Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854 - 1905), At Sea, 1883.



No mundo há muitas armadilhas


No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha.

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Troia
há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
(e depois foi traído, preso, enforcado).

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca.
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga.

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje.

A estrela mente
o mar sofisma. De facto,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los.
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.”


Ferreira Gullar
, Dentro da Noite Veloz, 1975.

 

Ferreira Gullar, "Dentro da Noite Veloz"
 Companhia das Letras, 2018
 
 
Resumo

 
Lançado em 1975, este volume de poemas de Ferreira Gullar é marcado pela intensa carga política.
Ao aliar excecional qualidade literária e aguda preocupação com as questões sociais, Dentro da noite veloz é um livro altamente engajado. Em poemas célebres como "Não há vagas" e "Homem comum", Ferreira Gullar, em tom questionador e inquieto, denuncia a realidade cruel e desigual do país.
No prefácio a esta edição, Armando Freitas Filho aponta: "É isso que este livro imenso nos mostra: a vida, a aventura, o perigo do universo que nos convida para a peripécia existencial de cada um de nós. Ninguém melhor que Ferreira Gullar para nos fazer viver e morrer, com sua experiência humana e destemida que passa dentro dessa noite feroz e veloz, sempre a postos para uma nova e — se necessário for — combativa manhã". (daqui)
 

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

"Aproximação do Terror" - Poema de Murilo Mendes

 
 
Rafael Romero de Torres (Pintor espanhol, 1865 - 1898), Los últimos sacramentos"
também conhecido como "El albañil herido", 1890.
Museo de Bellas Artes de Córdoba.
 

Aproximação do Terror

1

Dos braços do poeta
Pende a ópera do mundo
(Tempo, cirurgião do mundo):

O abismo bate palmas,
A noite aponta o revólver.
Ouço a multidão, o coro do universo,
O trote das estrelas
Já nos subúrbios da caneta:
As rosas perderam a fala.
Entrega-se a morte a domicílio.
Dos braços...
Pende a ópera do mundo.

2

Tenho que dar de comer ao poema.
Novas perturbações me alimentam:
Nem tudo o que penso agora
Posso dizer por papel e tinta.
O poeta já nasce conscrito,
Atento às fascinantes inclinações do erro,
Já nasce com as cicatrizes da liberdade.

O ouvido soprando sua trompa
Percebe a galope
A marcha do número 666.

Palpo as Quimeras,
O tremor
E os jasmins da palavra «jamais».

3

Dos telhados abstratos
Vejo os limites da pele,
Assisto crescerem os cabelos dos minutos
No instante da eternidade.
Vejo ouvindo, ouço vendo.

Considero as tatuagens dos peixes,
O astro monossecular.
Os rochedos colocam-se máscaras contra pássaros asfixiantes,
A grande Babilónia ergue o corpo de dólares.
Ruído surdo, o tempo oco a tombar...
A espiral das gerações cresce. 


Murilo Mendes
, in Poesia Completa,
Rio de Janeiro, 1994.


Rafael Romero de Torres, Sin trabajo!, 1888. (Realismo social)


"Um homem desejoso de trabalhar, e que não consegue encontrar trabalho, talvez seja o espetáculo mais triste que a desigualdade ostenta ao cimo da terra."
 
(Thomas Carlyle)