sábado, 4 de fevereiro de 2012

"Por delicadeza" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Rolf Armstrong (American painter of pin-up art, 1889–1960)


Por delicadeza


Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também direi:

"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida."


Sophia de Mello Breyner Andresen
in O nome das coisas, 1977


Mísia - Esse Momento



"A poesia é tudo o que há de íntimo em tudo."

Victor Hugo
[Escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo, ativista e político francês, 1802–1885]


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