segunda-feira, 26 de novembro de 2018

"A Rua dos Cataventos" - Soneto XIX de Mário Quintana


Alfred Sisley (French-Born British Impressionist landscape painter, 1839–1899),
'Le Pont de Moret, effet d'orage', 1887, Musée Malraux, Le Havre, France
 

Soneto

XIX

Minha morte nasceu quando eu nasci. 
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequena rua em que vivi.

Já não tem mais aquele jeito antigo
De rir e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave a boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és minha doce Prometida,
Nem sei quando serão as nossas bodas,
Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida...

E as horas lá se vão, loucas ou tristes...
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti... saber que tu existes! 


Mário Quintana,
 in 'A Rua dos Cataventos', 1940. 

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