terça-feira, 2 de agosto de 2011

"As Palavras" - Poema de Eugénio de Andrade



Jorge Pinheiro (Pintor português, n. 1931), Sem título (da série "Mapas"), 1976,
Tinta-da-china e aguarela sobre papel


As palavras


São como um cristal, 
as palavras. 
Algumas, um punhal, 
um incêndio.

Outras, 
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória. 
Inseguras navegam: 
barcos ou beijos, 
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes, 
leves. 
Tecidas são de luz 
e são a noite. 
E mesmo pálidas 
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem 
as recolhe, assim, 
cruéis, desfeitas, 
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade,
in "Coração do Dia", 1958



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