sábado, 26 de novembro de 2016

"Os Semeadores" - Poema de Machado de Assis



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
"The Reaper", 1878, Private collection.


Os Semeadores


Vós os que hoje colheis, por esses campos largos, 
O doce fruto e a flor, 
Acaso esquecereis os ásperos e amargos 
Tempos do semeador? 

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia; 
Contudo, esses heróis 
Souberam resistir na afanosa porfia 
Aos temporais e aos sóis. 

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica, 
E a fé, e as orações 
Fizeram transformar a terra pobre em rica 
E os centos em milhões. 

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome, 
O frio, a descalcês, 
O morrer cada dia uma morte sem nome, 
O morrê-la, talvez, 

Entre bárbaras mãos, como se fora crime, 
Como se fora réu 
Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime 
De as levantar ao céu! 

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha! 
Venceste-a; e podeis 
Entre as dobras dormir da secular mortalha; 
Vivereis, vivereis! 


Machado de Assis, in Americanas, 1875


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