segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

"Não basta abrir a janela" - Poema de Alberto Caeiro



Cecilia Webber (American-born digital artist and photographer, b. 1984),
"Human Flowers" - Digital Photographic Image



Não basta abrir a janela


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

4-1923

Alberto Caeiro
 
 (Heterónimo de Fernando Pessoa), 
 in "Poemas Inconjuntos", Athena, nº 5. Lisboa, 1925.
 


Cecelia Webber, Digital photographic image 
 

XXXIII

Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares. 
Parecem ter medo da polícia... 
Mas tão boas que florescem do mesmo modo 
E têm o mesmo sorriso antigo 
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem 
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente 
Para ver se elas falavam...
 
s.d.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos";
in Poemas de Alberto Caeiro - Fernando Pessoa.
Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 58.



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