Hans Andersen Brendekilde (Danish painter, 1857–1942),
'Summer day in the village with a little girl and a kitten', 1922
A gata
(A meu filho Carlos)
A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.
Eugénia Tabosa
[Pintora, escritora, professora, ilustradora e ceramista portuguesa, 1931–2022]
Haicais de crianças
Boneca de trapo
no baú esquecida
quem te beijou?

H. A. Brendekilde, 'Gathering Water From the Well', 1902
Na casa vazia
ficou o som do riso
das crianças
at the white country house', 1894
Ursos, carrinhos...
agora outros cuidados
e carinhos
Ursos, carrinhos...
agora outros cuidados
e carinhos
Cabelos negros
e saias rodadas
elas dançam ao vento








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