domingo, 18 de fevereiro de 2018

"A gata" - Poema de Eugénia Tabosa



Hans Andersen Brendekilde (Danish painter, 1857–1942),
'Summer day in the village with a little girl and a kitten', 1922 
 

A gata

(A meu filho Carlos)

A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar. 


Eugénia Tabosa
[Pintora, escritora, professora, ilustradora e ceramista portuguesa, 1931–2022]


Haicais de crianças

H. A. Brendekilde, 'The New Doll', 1924 
 

Boneca de trapo
no baú esquecida
quem te beijou? 
 

 
 

H. A. Brendekilde, 'Gathering Water From the Well', 1902 


Na casa vazia
ficou o som do riso
das crianças 
 


H. A. Brendekilde, 'Fishing Village', 1922


Vidraça molhada,
o menino
desenha a estrada 


Eugénia Tabosa



H. A. Brendekilde, 'Summer in the Garden', 1913


Monte a cima
crianças sobem trenós
só para descer 



H. A. Brendekilde, 'Danish summer idyll with old folks talking 
at the white country house', 1894


Ursos, carrinhos...
agora outros cuidados
e carinhos 



H. A. Brendekilde, 'The Cottage Garden' 


Sentada na grama
a menina chora,
orvalho de flor
 



H. A. Brendekilde, 'At the garden bank', 1913


Ao sol sentada
as mãos no ventre
acaricia o filho 
 


H. A. Brendekilde, 'Visiting Grandmother' 


Cabelos negros
e saias rodadas
elas dançam ao vento
 
 
 
 

H. A. Brendekilde, 'You come out for playing' 


Pingos de gelo,
choro de anjo
ou doce de criança?
 

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