sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

"Caminhada" - Poema de Manoel de Barros



Paul Peel (Canadian painter, 1860–1892), The Young Biologist, 1891



Caminhada


Eu vinha aquela tarde pela terra
fria de sapos…
O azul das pedras tinha cauda e canto.

De um sarã espreitava meu rosto um passarinho.
Caracóis passeavam com róseos casacos ao sol.
As mãos cresciam crespas para a água da ilha.

Começaram de mim a abrir roseiras bravas.
Com as crinas a fugir rodavam cavalos
investindo os orvalhos ainda em carne.

De meu rosto viam ribeiros…

Limpando da casa-do-vento os limos
no ar minha voz pisava…


Manoel de Barros,
do livro "Compêndio para uso dos pássaros", 1960
 


Paul Peel, Adoration, 1885


"Amor, fascinante amor, o campo é o teu templo." 

Jean-François de Saint-Lambert, Le Printemps


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