sábado, 12 de setembro de 2020

"As crianças têm um rio de peixes nos braços" - Poema de Nuno Higino



Elin Danielson-Gambogi (Finnish painter, 1861–1919), La Merenda 
(With the Antignano beach at Livorno), 1904


As crianças têm um rio de peixes nos braços


As crianças têm um rio de peixes nos braços:
movem-nos como um cardume profundo, movem a manhã
e ela nasce. As crianças olham as águas e respiram
devagar: enchem de ar a menina dos olhos e expiram
a infância, inundam o mundo com um cardume de manhãs.
As crianças são peixes solares, um areal cego
de manhãs: os braços são feitos de água,
metem o mundo dentro do balde e esvaziam-no
no mar: as crianças têm um rio de peixes
no pensamento, um cardume de pensamentos
a rebentar nos braços.


Nuno Higino



 Elin Danielson-Gambogi, Clearing Up the Cabbage Field
 

Nuno Higino

Nuno Higino Pereira Teixeira da Cunha nasceu a 16 de Julho de 1960 em Felgueiras, Porto. Entre 1988 e 2001 foi pároco em Marco de Canaveses, período durante o qual foi construída a igreja de Santa Maria com projeto de Álvaro Siza. Em 2001 foi estudar Filosofia. Em 2003 matriculou-se num programa de doutoramento em Madrid na Faculdade de Filosofia da Universidade Complutense.

Na sua investigação, concluída em 2007, procurou interpretar os desenhos de Álvaro Siza a partir do pensamento da desconstrução do filósofo francês Jacques Derrida. Renunciou ao sacerdócio em 2005.

Atualmente é professor de História da Arte na Universidade Fernando Pessoa.

É o responsável, desde 1 de Fevereiro de 2018, pela programação da Casa das Artes de Felgueiras. Fez parte da equipa de trabalho da Casa da Arquitetura entre 2007 e 2014. É responsável pela Editora Letras e Coisas. Tem vários títulos publicados na área do ensaio, da poesia e da literatura infantojuvenil. (daqui)


Elin Danielson-Gambogi, Young needleworkers, 1915


Ode à Criança


 "A criança é criativa porque é crescimento e se cria a si própria. É como um rei, porque impõe ao mundo as suas ideias, os seus sentimentos e as suas fantasias. Ignora o mundo do acaso, pré-elaborado, e constrói o seu próprio mundo de ideais. Tem uma sexualidade própria. Os adultos cometem um pecado bárbaro ao destruir a criatividade da criança pelo roubo do seu mundo, sufocando-a com um saber artificial e morto, e orientando-a no sentido de finalidades que lhe são estranhas. A criança é sem finalidade, cria brincando e crescendo suavemente; se não for perturbada pela violência, não aceita nada que não possa verdadeiramente assimilar; todo o objeto em que toca vive, a criança é cosmos, mundo, vê as últimas coisas, o absoluto, ainda que não saiba dar-lhes expressão: mas mata-se a criança ensinando-a a ater-se a finalidades e agrilhoando-a a uma rotina vulgar a que, hipocritamente, se chama realidade."

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